Água mineral: Embalagem mais exigente

Resinas plásticas dominam embalagem da bebida mais exigente em qualidade

A preocupação com qualidade de vida e alimentação saudável vêm transformando a água mineral numa espécie de coringa para a produção de plásticos inovadores para embalagens.

Com o aumento do consumo da água natural e gaseificada, eleva-se também a procura por plásticos mais adequados econômica e tecnicamente aos dois produtos.

Nesse sentido, o mercado de embalagem busca matérias-primas com custos competitivos, que atendam aos requisitos normativos e otimizem os indicadores ambientais, por meio da reciclabilidade das embalagens.

Os novos hábitos de consumo alimentício puxados pelo conceito de bem-estar ganharam ainda mais força após a pandemia, tanto que as vendas de água mineral aumentaram 32% em 2020, em comparação com as de 2021, informa Carlos Alberto Lancia, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Água Mineral (Abinam).

Ainda em 2021, o volume de água mineral envasado no Brasil, em sua maioria em recipientes plásticos, alcançou 13,2 bilhões de litros, superando em 4,2% o total de refrigerantes, complementa Auri Marçon, presidente da Associação Brasileira da Industria do Pet (Abipet).

Resinas plásticas dominam embalagem da bebida mais exigente em qualidade ©QD Foto: iStockPhoto
Marçon: desempenho superior garante liderança do PET ©QD Foto: Divulgação/abipet/Eudes Santana

“Sob um olhar mais estratégico, entendemos que todo o mercado de bebidas não alcoólicas vem se adaptando às novas tendências por parte dos consumidores.

Sucos concentrados e prontos para beber, chás, isotônicos, refrescos e água de coco também apresentam demandas crescentes”, justificou Marçon, lembrando que os efeitos da chamada “saudabilidade”, almejada mundialmente, favorece a melhoria de desempenho dos fabricantes de água mineral.

“Até mesmo os refrigerantes têm buscado versões mais ‘saudáveis’ quer pela redução da carga calórica ou de açúcar em sua composição”, afirma Maçon.

Lancia, da Abiman, diz que a onda se propaga diariamente no Instagram e Facebook, além de outras redes sociais nas quais médicos, nutricionistas e endócrinos divulgam mensagens que reforçam a necessidade de hidratação do corpo humano.

Destaca também o papel dos personal trainers, que, enquanto protagonistas da cultura fitness, enaltecem cada vez mais a importância de as pessoas beberem água de qualidade, 100% natural.

É um produto que não sofre nenhum tipo de tratamento, químico ou físico, livre, portanto, de contaminantes.

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Mesquita: poliolefinas também disputam mercado de água

“O comportamento dos consumidores também é impactado pelos efeitos climáticos de determinadas estações do ano”, avalia Fábio Mesquita, líder de serviços e desenvolvimento técnico da Braskem na América do Sul.

Por conta disso, no verão a demanda por água mineral é maior o que torna esse mercado sazonal.

Para a representante comercial da Covestro Latam, Queila Fávaro, a movimentação do mercado não é homogênea.

Ela justifica que sua empresa fornece resinas utilizadas especificamente na produção de garrafões de água e que neste segmento a demanda pelo material “se mantém estável ao longo dos últimos anos, sem grandes alterações”.

De qualquer forma, o bom desempenho da água mineral impulsionou ainda mais os plásticos para embalagem, comparativamente com outros materiais.

Os dados da Abinam apontam que o polipropileno passou a representar 75% da matéria-prima usada em embalagens de 10 a 20 litros de água, 20% ficaram por conta do PET e 5%, do policarbonato.

Em relação às embalagens descartáveis, 95% são de PET e os 5% restantes, de vidro, cartonadas e de alumínio.

Custo-benefício – A opção por um ou outro material plástico para embalagem leva em conta uma série de fatores sob a ótica dos produtores de água mineral.

A relação custo-benefício se destaca como um dos mais significativos, seguido pela preocupação com a reciclabilidade – inclusive devido aos preceitos da ESG–, logística de movimentação das embalagens e flexibilidade nos processos produtivos.

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Lancia: Selo de Controle ajuda setor a avançar na reciclagem

“Como a água mineral ainda é uma commodity, a escolha da embalagem está vinculada fortemente ao material de menor custo. No caso dos garrafões retornáveis, o polipropileno se destaca como o material mais barato e, nos descartáveis, o PET fica em primeiro lugar”, informa Lancia.

Cerca de 65% das vendas de águas se referem às embalagens retornáveis de 20 litros, destinadas ao consumo em domicílio.

Por sua vez, o consumo de ocasião responde por 20% das embalagens comercializadas, em sua maioria de 500 ml, e o restante dos tamanhos são pulverizados de forma equânime, conforme dados da Abinam.

As embalagens para as águas gaseificadas natural ou artificialmente necessitam um fundo tipo petaloide ou similar.

O fator principal é a pressão que o CO2 exerce sobre as paredes internas da embalagem, provocando sua expansão e variações, em razão da oscilação da temperatura.

Em outras palavras, as paredes da embalagem devem ser mais grossas, visando garantir o acondicionamento adequado durante toda a validade do produto.

As embalagens destinadas à água mineral natural se adaptam a qualquer formato.

O PET é o preferido do mercado por conta de preço, disponibilidade para pronta entrega e também pelas suas características técnicas.

Auri Marçon explica que o material facilita visualizar a pureza e naturalidade da água, bem como abrir e fechar a embalagem, permitindo o consumo em momentos diferentes.

Ocupa menos de 5% da carga ante 40% do vidro retornável, por exemplo, tornando o transporte mais eficiente e sustentável, pois reduz as emissões de carbono durante a distribuição.

Devido à sua resistência, permite embalar produtos diversificados, tanto em termos de composição química como de portfólio, reduzindo os custos do processo produtivo.

Facilita a logística industrial, pois a pré-forma pode ser produzida num determinado sítio (transformador especializado) e o sopro e envase em outro (distribuidor ou dono de marca).

A escolha do tamanho/capacidade da embalagem é uma decisão do administrador da marca, visando seu posicionamento mercadológico e público-alvo, diz Marçon.

Mas o PET também contribui para a assertividade desse tipo de gestão, visto que suas propriedades mecânicas viabilizam a produção de embalagens com diversas capacidades.

Ou seja: galões de 20, 10 e 5 litros para consumo estático; 200 ou 180 ml, destinados a produções promocionais (eventos); e embalagens populares, de 1,5 litro e 500 ml, que são as mais vendidas no mercado.

Ainda por conta de suas características técnicas, o PET reciclado pode ser usado em embalagens que tenham contato direto com alimentos, pois o reprocessamento do insumo elimina qualquer contaminante sólido ou volátil.

Resinas plásticas dominam embalagem da bebida mais exigente em qualidade ©QD Foto: iStockPhoto
Laboratório desenvolve produtos da Braskem, em Camaçari-BA

Isso porque, durante a fusão, o material pós-consumo é submetido a temperaturas que ultrapassam os 300ºC, enquanto sua estrutura molecular passa por diversas condições de extrusão sob vácuo, filtração em níveis exigentes e pós-condensação no estado sólido, resultando em um produto final reciclado seguro, explica Marçon.

As normas sanitárias que regulam o uso de embalagens plásticas destinadas à água mineral natural são as mesmas utilizadas para qualquer alimento, com exceção dos metais pesados e contaminantes voláteis, informa Lancia, presidente da Abinam.

Por não ter gosto, nem cheiro, a água não admite a presença de nenhuma substância nas embalagens capaz de produzir qualquer tipo de alteração, o que seria percebido facilmente pelos consumidores.

Na prática, no Brasil, assim como no exterior, é proibida a utilização de embalagem reciclada em contato com alimento, mas o PET-PCR grau alimentício, que tem como fonte principal de matéria-prima as embalagens pós-consumo, tem permissão de uso.

Atualmente, segundo ele, em função do custo-benefício e das propriedades intermoleculares exigidas, somente as embalagens PET contam com tecnologia adequada para reutilização.

Ele adverte, porém, que devido às deficiências de saneamento básico no Brasil, “já temos que nos preocupar em analisar a presença ou não nas embalagens PET-PCR dos contaminantes emergentes”.

A entidade diz estar na fase de definir metas para o setor atuar em conformidade com critérios mais amigáveis e um dos objetivos é reciclar 98% das embalagens até 2050.

Trata-se de uma meta extremamente ousada diante dos atuais 22%, mas parte da lição de casa está em andamento.

Por exemplo, a implantação do Selo de Controle – ambiental, sanitário e fiscal – já foi feita em várias regiões do país, totalizando 17 estados da federação. Dentre eles se destacam São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Santa Catarina e Espírito Santo.

Lancia lembra que a Abinam trabalha em parceria com Instituto Rever, oriundo da Fiesp e seu cofundador. O instituto, do qual ele é vice-presidente, opera com foco no desenvolvimento sustentável, para otimizar e ampliar as iniciativas de responsabilidade social corporativa.

Fábio Mesquita, da Braskem, considera que, havendo engajamento da sociedade como um todo, o índice de reciclagem pode aumentar.

As tampas, copos e garrafões já são monomateriais facilmente reciclados, constituindo soluções inovadoras que estimulam embalagens produzidas com esse insumo, assegurando custos de produção competitivos e melhoria da reciclabilidade para o setor.

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