Aditivos adicionam qualidade e valor às resinas recicladas

Plástico Moderno - Embalagem de granola já foi fabricada com aditivos que auxiliam reciclagem posterior ©
Embalagem de granola já foi fabricada com aditivos que auxiliam reciclagem posterior ©

Economia circular – Aditivos adicionam qualidade e valor às resinas recicladas

A reciclagem é ingrediente indispensável da fórmula da economia circular. É ela que materializa esse conceito, que propõe processos industriais estruturados como ciclos fechados, nos quais os materiais utilizados na fabricação dos produtos realimentam a continuidade da produção.

Os plásticos, em geral, após algum tempo de utilização na forma de produtos têm comprometidas suas características e propriedades originais. Esse desgaste pode se acentuar no próprio processo de reciclagem, geralmente composto por etapas agressivas, como trituração, lavagem, secagem e peletização. Como decorrência, resinas recicladas são muitas vezes destinadas a aplicações menos valorizadas.

Alguns aditivos conseguem manter os produtos da reciclagem na concorrência direta com as resinas virgens, mesmo em mercados exigentes tecnicamente e que, por isso, oferecem melhor remuneração. Simultaneamente, conferem maior sustentabilidade à indústria do plástico e também a seus clientes, possibilitando a reciclagem de materiais que de outro modo seriam descartados.

Alguns desses aditivos recuperam nos reciclados as características das resinas originais, ou ao menos inibem a continuidade de sua degradação: casos dos antioxidantes – também conhecidos como estabilizantes – e dos extensores de cadeia. Outros, como os branqueadores óticos, permitem seu emprego em aplicações de maior valor (veja quadro com os aditivos mais utilizados, ou com maior potencial de uso, em resinas recicladas).

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Com eles, resinas recicladas podem ser utilizadas em aplicações com exigências técnicas elevadas. A indústria automobilística, por exemplo, utiliza PP reciclado e seus compostos, aditivados com antioxidantes de longo prazo e, em alguns casos, também com acoplantes na produção de dutos de ar e nas peças instaladas próximas aos motores, como aponta José Brandão, gerente regional de aditivos para plásticos da BYK, empresa do grupo Altana. “Caixas de baterias de automóveis também são feitas de PP reciclado aditivado com antioxidantes de longo prazo”, acrescenta Brandão.

Plástico Moderno - Brandão: uso de antioxidantes gera peças técnicas duráveis
Brandão: uso de antioxidantes gera peças técnicas duráveis

Distribuída exclusivamente no Brasil pela Colormix Especialidades, a BYK disponibiliza diversos aditivos, entre eles, os dois citados acima: antioxidantes de longo prazo, que garantem vida longa às aplicações mesmo em condições térmicas adversas, e acoplantes, cuja função é conferir maior aderência de fibras ao material reciclado, elevando a resistência mecânica do composto.

Mas seu portfolio é vasto e subdividido em várias linhas: Scona, de promotores de adesão, compatibilizantes, agentes de acoplagem e modificadores de impacto; BYK-MAX, com produtos capazes de otimizar o processamento em quesitos como dispersão de pigmentos, cargas e fibras, estabilidade térmica, absorção de umidade, redução de odor, entre outros; Recyclobyk, que oferece soluções em aditivos compactados, ou mesclas tailor made dessas soluções, sem o uso de resina – apenas componentes ativos –, podendo conter antioxidantes, sequestrantes de odores, anti-UV, redutores de amarelecimento, extensores, entre outros aditivos.

Esse portfólio, relata Brandão, já propiciou a reciclagem de materiais plásticos bem complexos. “Um composto de PA com antichamas e reforço de fibra de vidro, de difícil processabilidade e extremamente quebradiço, foi reciclado mediante a adição da linha Scona”, exemplifica. “Também tivemos sucesso com desodorizantes para reduzir o odor de leite podre, de enxofre, de mescla de filmes agrícolas com filmes de frigoríficos e filmes de fazendas de pescados (nesse último caso, com uma lavagem prévia com detergentes)”, acrescenta o profissional da BYK.

Plástico Moderno - Thays: nucleantes aumentam resistência mecânica do PP
Thays: nucleantes aumentam resistência mecânica do PP

Funcionalidades várias – Antioxidantes, compatibilizantes e desumidificantes aparecem entre os aditivos mais utilizados nos processos de reciclagem. Em aplicações mais específicas, relata Thays Baraldi, coordenadora técnica da Colorfix, são usados também modificadores de impacto para peças termoformadas e injetadas, branqueadores óticos para filmes e embalagens, extensores de cadeia para utilização de PET reciclado em processos de extrusão, auxiliares de fluxo para processos de injeção.

Existem ainda, pondera Thays, aditivos que podem ser mais explorados por recicladores e transformadores de resinas recicladas. Casos dos nucleantes, que em processos de injeção e extrusão de PP melhoram a resistência mecânica da resina, e ao mesmo tempo elevam a produtividade diminuindo tempo de resfriamento, empenamentos, rechupes e refugos. “Esse aditivo é um complemento fundamental para o modelo sustentável de utilização de resinas recicladas, pois otimiza o uso de recursos como energia e mão de obra”, destaca a profissional da Colorfix, empresa cuja linha de aditivos, comercializada com a marca Fix, inclui antioxidantes, auxiliares de fluxo, nucleantes, branqueadores óticos, além de outros mais utilizados com resinas virgens.

Na realidade, resinas recicladas podem se beneficiar de praticamente todos os aditivos adicionados às resinas virgens, observa Marcelo Lopes, gerente comercial da divisão Plastics & Compounds da Colortrade. E conseguem valorizá-las muito bem. “Aditivos anti-UV, por exemplo, permitem o uso de resinas recicladas com garantia de até cinco anos em aplicações que sem eles durariam apenas três meses”, destaca. “O setor agro consome muitos reciclados, e usa significativamente anti-UV para prolongar a vida útil dos filmes”, acrescenta o profissional da Colortrade, em cujo portfólio de aditivos que podem ser empregados na reciclagem e em resinas recicladas há antioxidantes, anti-UV, antiblocking, antiestáticos e deslizantes.

Plástico Moderno - Lopes: filmes agrícolas com anti-UV duram mais no campo
Lopes: filmes agrícolas com anti-UV duram mais no campo

Os antioxidantes, complementa Lopes, possibilitam às resinas recicladas superar testes de oxidação nos quais seriam reprovadas, enquanto um branqueador óptico torna o polímero reciclado acinzentado mais alvo, e assim mais adequado a aplicações em que essa característica é importante.

Essa funcionalidade dos branquedores pode ser bem percebida na reciclagem de filmes stretch, que devido à presença do PIB (poliisobutileno), ficam acinzentados. “Com um branqueador ótico, pode-se mudar tanto o valor quanto as aplicações do produto de sua reciclagem, por exemplo, com o acinzentado sendo destinado à linha industrial de filmes stretch, enquanto em determinadas aplicações aquele que tem um branqueador pode competir com o filme prime”, avalia o profissional da Colortrade.

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Plástico Moderno - Barbosa: extensor de cadeia eleva a viscosidade do PET
Barbosa: extensor de cadeia eleva a viscosidade do PET

Juliano Barbosa, coordenador de produto da Cromex, lembra que os aditivos podem ser utilizados não apenas por recicladores, mas também pelos transformadores. “Com eles, os transformadores conseguem tanto aproveitar melhor seus próprios resíduos quanto melhorar as propriedades de resinas recicladas compradas de terceiros”, ressalta.

A Cromex, especifica Barbosa, vem trabalhando fortemente o extensor de cadeia para reciclagem de PET. “O mercado de embalagens PET vem crescendo, assim como a busca pela sustentabilidade: isso amplia a demanda por esse aditivo”, justifica. “Com o extensor de cadeia é possível elevar entre 5% a 10% a viscosidade da resina reciclada; e a viscosidade é um dos indicadores da qualidade da estrutura da resina”, explica.

Barbosa também destaca a expansão, na indústria da reciclagem, do apelo dos auxiliares de fluxo, que melhoram o escoamento da resina durante a transformação, reduzindo o impacto de contaminantes geralmente presentes em resinas recicladas, como géis e pintas pretas. “Esses aditivos são mais usados em resinas recicladas empregadas em materiais multicamadas, que geralmente contêm PE linear, ou PEAD, que são mais viscosos”, diz o profissional da Cromex, empresa cujo portfólio inclui antioxidantes, auxiliares de fluxo, extensores de cadeia, dessecantes e redutores de odor, entre outros aditivos para reciclagem ou resinas recicladas.

Mais benefício que custo – Aditivos elevam o custo de uma resina reciclada, mas o retorno desse aporte é garantido, afirma Barbosa, da Cromex. “Muitas resinas recicladas hoje têm valor igual, ou até superior, ao de resinas virgens e mesmo assim elas são demandadas, pois além de terem bom desempenho garantido pelos aditivos elas atendem melhor aos preceitos da sustentabilidade”, pondera Barbosa.

Thays, da Colorfix, lembra serem baixos – geralmente na faixa entre 1% e 5% – os percentuais de aplicação de aditivos. Mesmo assim, é interessante realizar uma avaliação que considere tanto seu impacto no custo final quanto as melhorias promovidas por eles no processo e/ou no produto final. “Em uma aplicação mais simples, sacolinhas de PE, por exemplo, talvez não seja interessante utilizar um aditivo”, observa. “Mas empresas que usam plástico reciclado com o propósito da sustentabilidade querem resina reciclada com bom desempenho, e não se orientam apenas por preço”, acrescenta.

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A qualidade do reciclado – As resinas mais transformadas, como PE, PP, PET, são também aquelas recicladas em maior escala. Mas já há no mercado nacional demanda por aditivos destinados à reciclagem de outros plásticos.

No Brasil, diz Brandão, da BYK, há bom potencial de demanda por produtos da linha Scona dedicados à melhoria de impacto na reciclagem de resinas como PA, PET, ABS, PC ou de blendas de ABS/PC. “Para reduzir custos, há quem misture PC reciclado nas blendas de ABS, e use modificador de impacto e compatibilizante para melhorar a resistência. Mas também se recicla o próprio ABS, adicionando aditivo para melhorar a resistência a impacto”, explica.

Produtos Scona também vêm sendo demandados para viabilizar o processamento de resíduos de poliamidas com retardantes de chama e reforço de fibra que sem eles seriam muito mais difíceis de processar, além de se tornarem quebradiços (poliamidas com retardantes de chama e reforço de fibra são utilizadas em autopeças instaladas no compartimento do motor de veículos, na indústria aeronáutica, em máquinas agrícolas, em transformadores, motores e geradores, entre outras aplicações). “Também vínhamos vendendo bem dispersantes para pigmentos orgânicos, pois cresce o uso de resinas recicladas, combinadas com resinas virgens, em masterbatches coloridos, principalmente para aplicação em filmes e fibras”, diz. “E desenvolvemos produtos Scona para facilitar o processamento e compatibilizar a reciclagem de resíduos de PET com PC. O PC está escasso e o PET entraria para alcançar o volume requerido pelo mercado”, ressalta Brandão.

Ele considera difícil prever o comportamento do mercado após o final da crise provocada pelo coronavírus. “Antes dessa crise, vinha crescendo no Brasil a demanda por aditivos para reciclagem”, afirma o profissional da BYK.

Plástico Moderno - Embalagem de granola já foi fabricada com aditivos que auxiliam reciclagem posterior ©QD Foto: Divulgação

Barbosa, da Cromex, crê na retomada da expansão dessa demanda. “A reciclagem é um caminho sem volta e os aditivos melhoram bastante a qualidade da resina reciclada. O extensor de cadeia, por exemplo, permite usar mais flake de PET no processo de reciclagem, enquanto o antioxidante preserva muito mais as características das resinas”, destaca.

Lopes, da Colortrade, ressalta que, por razões culturais, resinas recicladas ainda são percebidas como alternativas de baixo custo, que nem precisam conter valor agregado. “Mas essa é uma visão errada, elas podem muito bem atender a necessidades exigentes, com o custo gerado pela aditivação se transformando em vantagem mercadológica”, ressalta. “Vem crescendo o uso de resinas pelos recicladores. Eles sabem que já têm uma vantagem, o custo, e alguns deles estão agora partindo para especialidades”, finaliza Lopes.

Aditivo prevê ciclo posterior 

Estimular o uso de aditivos para reciclagem já nos produtos que deverão ser reciclados, essa é uma das propostas hoje enfatizadas pela Dow, que busca torná-la realidade oferecendo a fabricantes de embalagens produtos de sua linha Retain, dedicada a compatibilizar o PE com resinas como poliamidas e EVOH, utilizadas como barreiras em embalagens multicamadas.

Os aditivos Retain, ressalta Nicolas Mazzola, gerente de pesquisa e desenvolvimento da Dow, podem ser utilizados em embalagens de produtos alimentícios. É vantajoso inseri-los já na transformação inicial, e não na reciclagem, porque os fabricantes de embalagens têm informações muito mais exatas sobre as quantidades das diferentes resinas, e podem dosar a aditivação com maior exatidão. “E o reciclador precisará trabalhar esse material como se fosse apenas polietileno”, ressalta Mazzola.

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Segundo ele, cinco marcas já testam no Brasil o uso de aditivos Retain em suas embalagens; em outros países, eles já estão presentes em embalagens de alimentos, entre elas, uma embalagem de granola, e também de produtos de limpeza que necessitam proteger aromas: por exemplo, sachês de sabão para máquina de lavar.

Mas, por qual razão os fabricantes de embalagens se interessarão por algo que agregará mais um custo a seus produtos? “Os grandes proprietários de marcas hoje têm compromissos globais de sustentabilidade, que entre outros itens inclui a reciclagem de suas embalagens”, responde Mazzola.

A Dow disponibiliza outras linhas de compatibilizantes, além da Retain. Uma delas, a linha Fusabond, que assim como essa também compatibiliza resinas polares e não polares, porém é mais utilizada em resíduos industriais, pois não tem certificação para uso em embalagens de alimentos. Outra, a linha Elvaloy PTW, é indicada para compatibilização de PET e poliolefinas (especialmente PE). A empresa fornece ainda modificadores de impacto para PE e PP (respectivamente, nas linhas Engage e Versify).

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