Aços especiais – Ferramentarias devem orientar compras em aspectos técnicos

Algumas peças plásticas são produzidas aos milhares, em ciclos muito curtos e em moldes com muitas cavidades. Outras têm grande porte, são fabricadas em pequena escala e ciclos bem maiores. E há ainda aquelas que precisam ter aparência diferenciada, impecável. A diversidade existente no mundo da transformação por injeção é imensa. Qualquer que seja o projeto, no entanto, ele precisa partir de um princípio comum. Para se obter resultados dentro do esperado, o transformador tem de contar com moldes de qualidade.

Os projetistas tomam muitas decisões para idealizar uma boa ferramenta. Uma delas é selecionar o aço a ser utilizado. Não é tarefa tão simples. Os fabricantes de aços contam com formulações bastante variadas, aptas para aplicações em moldes que vão trabalhar em diferentes condições, desde as mais amenas até as de rigor extremo. Nesse mercado, dois aços apontados como commodities são os mais utilizados. O P20 é o líder na procura. Por suas características, está presente na grande maioria dos moldes fabricados no Brasil. Com propriedades inferiores, o 1045 é recomendado para moldes pouco sofisticados, usado em matrizes voltadas para produções de número reduzido de peças plásticas. No mercado, os ferramenteiros também encontram formulações diferenciadas, algumas muito sofisticadas.

Entre os fabricantes nacionais de aços, podem ser destacados Villares Metals e Gerdau. Entre os internacionais, os nomes Böhler, Uddeholm e Schmolz-Bickenbach estão entre os citados com frequência pelos ferramenteiros de ponta. Nos casos da Böhler e da Uddeholm vale uma explicação. Apesar de pertencer ao mesmo grupo, o Böhler-Uddeholm, e de no Brasil contar com escritórios próprios de representação no mesmo prédio, as duas marcas atuam de forma independente.

A disputa entre fornecedores de aços nacionais e importadores é bastante acirrada. Até o ano passado, com o dólar bastante desvalorizado, os produtores brasileiros encontravam sérias dificuldades para conquistar a atenção dos compradores. Além disso, entre os importados são encontrados aços com características nem sempre disponíveis entre os nacionais. A briga esquenta entre os aços mais usados.

Plástico Moderno, Roberto Capelletti, gerente nacional de vendas da Böhler, Aços especiais - Ferramentarias devem orientar compras em aspectos técnicos
Capelletti: escolha deve ser feita pelo custo / benefício

Não existem dados oficiais, mas se estima que os importados detenham em torno de 60% do mercado. Este ano, com a valorização do real, existe a possibilidade do produto nacional se tornar mais competitivo. Por outro lado, o resfriamento da economia provocado pela crise pode vir a atrapalhar as vendas. Fazer previsões sobre o desenrolar dos negócios nos próximos meses é exercício dos mais difíceis. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer.

Um aspecto interessante desse mercado é o dos clientes fazerem encomendas pensando no futuro. Um caso exemplar ocorre com as montadoras. No final do ano passado, as vendas de veículos despencaram. Mas as encomendas de aço para matrizes feitas pelo setor não sofreram tanta influência por conta desta queda. A indústria automobilística é muito competitiva, sempre está lançando novos modelos ou renovando os antigos, e investir em matrizes voltadas para a produção de peças que no futuro vão integrar os carros é obrigação que incentiva a venda da matéria-prima das ferramentas.

Seleção – As escolhas dos aços mais adequados a ser utilizados nos moldes dependem de algumas variáveis. A tentação inicial de quem compra é sempre escolher o de menor preço. Mas essa atitude pode representar prejuízos no futuro. Para os especialistas, a escolha sempre deve ser feita baseada em critérios muito técnicos. Eles argumentam que o custo do aço na fabricação da ferramenta, em média, representa em torno de 15% a 30%. O restante é dividido entre as etapas de projeto, usinagem das peças que vão compor a ferramenta e sua montagem. É uma porcentagem baixa, que não justifica equívocos em nome da economia.

Plástico Moderno, Paulo Sergio Perez, gerente do centro de distribuição da Villares Metals, Aços especiais - Ferramentarias devem orientar compras em aspectos técnicos
Perez: os moldes “esbeltos” geram ciclos mais rápidos

“Infelizmente, com a crise mundial, muitas empresas têm como primeira opção o preço do material”, lamenta Douglas Silva, gerente-geral de vendas e marketing da Schmolz-Bickenbach. Roberto Capelletti, gerente nacional de vendas da Böhler é enfático. “Em cada projeto, a escolha deve sempre recair para o aço que apresentar maior custo/benefício”, defende.

Uma tendência de mercado pode ajudar a explicar esse raciocínio. O ferramenteiro nem sempre precisa usar aços nobres para obter a ferramenta de seus sonhos. Uma matéria-prima melhor, no entanto, traz vantagens que devem ser levadas em consideração. Ela permite, por exemplo, a usinagem de placas menos espessas. Dessa forma, se obtém ferramenta mais leve e de menor dimensão, que permite a redução do tempo de resfriamento da peça durante a sua fabricação. Em outras palavras, diminui a duração do ciclo de injeção e o retorno do investimento feito com o aço pode ocorrer de forma rápida com a menor utilização das injetoras. “Os moldes ‘esbeltos’ são uma tendência, são cada vez mais fabricados”, informa Paulo Sergio Perez, gerente do centro de distribuição da Villares Metals.

Outro fator a influir na seleção é o número de peças a ser fabricadas. São diferentes, por exemplo, os casos de para-choques, produzidos em menor escala, e dos potes de margarina, injetados aos milhares. Os moldes dos para-choques, apesar de apresentar grandes dimensões, nem sempre necessitam de aços tão resistentes, pois as ferramentas costumam ter vida útil maior do que a do produto. “No mercado automobilístico são constantes as alterações no design desta peça feitas por questões de estilo. Em curto espaço de tempo, o molde passa a ser utilizado apenas para a fabricação de peças de reposição”, diz Giiovani Verdi Cappucio assessor técnico do centro de distribuição da Villares Metals. Já no caso dos potes, são indicados aços mais resistentes, pois os moldes são muito exigidos.

Plástico Moderno, Giiovani Verdi Cappucio assessor técnico do centro de distribuição da Villares Metals, Aços especiais - Ferramentarias devem orientar compras em aspectos técnicos
Cappucio: alteração do design ce carros incentiva as vendas

Propriedades – A dureza do material é o quesito mais importante a ser levado em conta no processo de seleção do aço. Com base nessa propriedade, Cappucio divide as várias opções de matérias-primas presentes no mercado em quatro grandes grupos. Na escala de dureza até 30 HRC, se encontram os aços de resistência menor, como o 1045. Eles compõem as ferramentas voltadas para a confecção de utensílios domésticos e outras peças cujas exigências das linhas de produção não são tão rigorosas.

Entre 30 e 34 HRC, encontram-se os P20, usados na grande maioria dos moldes fabricados por aqui. Os com dureza na faixa entre 38 e 42 HRC são indicados para moldes que exigem maior resistência. São as ferramentas, por exemplo, construídas para suportar a abrasividade de alguns plásticos de engenharia e de resinas enriquecidas com cargas. Acima de 42 HRC, estão os aços considerados especiais, voltados para aplicações onde é necessária resistência extrema.

Quanto maior a dureza, maior a polibilidade do aço. Os índices elevados de polimento permitem a obtenção de matrizes de peças plásticas que necessitam de aparência impecável. São os casos das lentes de faróis e lanternas dos automóveis, que têm índices de transparência tão elevados quanto os apresentados pelo vidro.

Outras características precisam ser levadas em conta na hora da seleção dos aços. Os com elevada resistência à corrosão são adequados para moldes com sistemas de resfriamento que utilizam abundantes quantidades de água. Nas operações de injeção de grandes lotes de peças de paredes finas, por exemplo, são usados os inoxidáveis. Também pode ser citada a propriedade da soldabilidade, muito útil em aços usados em moldes onde são realizadas operações de solda durante sua construção.

Nacionais – Entre os fabricantes nacionais, a Villares Metals participa do mercado com destaque. “Entre o aço nacional vendido por aqui detemos de 50% a 60% do mercado”, garante Perez. A empresa conta com a indústria automobilística como principal cliente. Entre os aços que oferece, o carro-chefe é o P20, com a marca VP20 ISO. Ele está presente em aproximadamente 85% dos moldes produzidos com as matérias-primas da empresa. O aço se encontra na faixa de dureza entre 30 HRC e 34 HRC.

“O produto tem um diferencial em relação aos similares oferecidos. Desenvolvemos um processo de fabricação que tornou o nosso P20 mais fácil de ser usinado do que os concorrentes”, diz Cappucio. De acordo com o assessor técnico, os convencionais desgastam o flanco de uma ferramenta de usinagem durante o processo de corte em cerca de 17 a 18 minutos. O da empresa eleva esse tempo para 26 minutos. “Temos um ganho de 77% no volume removido por ferramenta”, resume. Ele ressalta que esse ganho é significativo, em especial para moldes de grandes dimensões, onde é comum desbastar blocos de 18 a 20 toneladas até chegar à metade de seu peso.

A venda de aços 1045 não é o forte da Villares Metals, embora ela eventualmente atenda a algumas encomendas do produto. Para competir na faixa de dureza até 30 HRC, a empresa lançou, em junho do ano passado, o VP100. “Ele é a melhor opção do mercado na faixa de dureza até 30 HRC e também concorre com o P20 no mercado dos moldes menores”, garante Cappucio, sem qualquer falsa modéstia.

Para justificar sua opinião, enumera as características do VP100: “Ele tem propriedades mecânicas muito homogêneas, uniformidade de dureza. Permite ótima soldabilidade, apresenta superior condutividade térmica e maior facilidade de usinagem por eletroerosão.” Uma limitação: ele pode ser oferecido em blocos com dimensões máximas de 40 mm x 1.200 mm.

Para o nicho de aços com dureza entre 38 e 42 HRC, a Villares Metals conta com duas opções: N2711M e VP50IM. O N2711M é matéria-prima com as características normais dos aços similares encontrados no mercado. O VP50IM, por sua vez, permite maior usinabilidade e polibilidade. “A escolha entre eles é feita de acordo com o grau de abrasividade do plástico a ser injetado, da aparência requerida da peça e da resistência da ferramenta desejada pelo transformador”, informa Cappucio.

Plástico Moderno, Aços especiais - Ferramentarias devem orientar compras em aspectos técnicos
Venda de blocos pré-usinados agrega valor à matéria-prima

Na linha dos especiais, a empresa oferece algumas opções com durezas que chegam a 50 HRC. O VP420IM conta com as características encontradas nos aços 420. O VP 80 conta com maior resistência à corrosão. Esse aço, oferecido aos clientes em uma primeira etapa com dureza inferior, depois de usinado sofre tratamento térmico para atingir a dureza desejada. “Fazemos acordo com os clientes para que esse tratamento térmico seja feito em nossas dependências, para que possamos garantir a qualidade desejada”, ressalta Cappucio.

Indicado para operações que exigem enorme resistência, o H13IM é o mais sofisticado entre os especiais. Para casos muito específicos, a empresa oferece o aço sinterizado Sinter 22. “Ele é usado em raríssimas aplicações, como em peças feitas de plásticos altamente abrasivos ou de tamanho muito pequeno”, complementa.

O assessor técnico explica que a empresa, para atender a uma tendência de mercado, oferece serviços já comuns nos países avançados. Os clientes interessados podem adquirir blocos pré-usinados, em formato de “U”. “Ao comprar os pré-usinados, os ferramenteiros economizam tempo de uso de máquinas-ferramenta”, diz.

Quando o assunto recai para a evolução das vendas, a Villares Metals não tem queixas da crise econômica. “Nossas vendas em janeiro foram boas, acima até do esperado”, revela Perez. Para ele, a desvalorização do dólar, que tornou o preço do produto nacional mais competitivo, deve ter influenciado no bom resultado. Ele também aponta como positivo o fato de a empresa oferecer total assistência e trabalhar em parceria com os clientes para a seleção do aço.

61 anos – A Böhler, nascida há mais de um século na Áustria e incorporada ao grupo sueco Böhler-Uddeholm em 1991, importa aços para o mercado brasileiro desde 1948. Durante esses 61 anos, por trazer matérias-primas nem sempre oferecidas pelos fabricantes nacionais, a empresa manteve escritório próprio de representação por aqui mesmo nos períodos em que a economia do país esteve bastante fechada aos importados.

“O mercado de transformação de plástico é muito importante para nós, em especial os transformadores voltados para a indústria automobilística, de linha branca e de eletrodomésticos”, afirma Capelletti. Além da qualidade dos produtos, o executivo ressalta como diferencial da empresa a parceria mantida com os compradores. “Toda a nossa experiência é repassada na forma de assistência técnica, não importa o tamanho do cliente”, afirma.

A Böhler conta com vasta gama de produtos, voltados para moldes de injeção de peças dos mais diversos tipos de resinas, cargas e plásticos de engenharia. O gerente nacional de vendas aponta os aços da empresa mais procurados. A maior demanda recai sobre o M238, marca dada ao aço P20 da Böhler, com índices de dureza na faixa entre 28 e 32 HRC. “É um produto antigo, está no mercado há mais de quarenta anos”, conta. Para o executivo, seu diferencial se encontra na qualidade. “O aço, se não for muito bem forjado, apresenta problemas de homogeneidade de dureza. Nossa tecnologia prevê muito cuidado de fabricação, utilizamos uma prensa de cinco mil toneladas para evitar o surgimento de deformações plásticas no miolo dos blocos”, revela.

Para durezas entre 34 e 36 HRC, a empresa oferece o M261. Ele é indicado para aplicações nas quais as matrizes trabalham em condições mais duras, como as de peças de grande superfície que não podem apresentar problemas de empenamento. “Hoje, portas de geladeiras são injetadas em plástico”, exemplifica. Para ser usinado, o M261 é oferecido em dureza inferior. Após chegar à dureza desejada, é submetido a tratamento térmico posterior.

Outra linha destacada por Capelletti é a de inoxidáveis, voltada para ferramentas refrigeradas a água ou para a transformação de resinas corrosivas. Um deles é o M310, usinado e depois submetido ao tratamento de têmpera para atingir a dureza desejada. O M333, além da resistência à corrosão, apresenta maior polibilidade e é indicado para moldes de faróis e lanternas de automóveis, entre outras peças que necessitam de aparência impecável.

O M340 é outro aço inox de destaque da empresa. “É o aço oferecido no mercado mundial com maior resistência à corrosão. Sua estrutura é enriquecida com cromo”, garante o executivo. Ele é indicado para aplicações muito exigentes, como algumas dirigidas às indústrias de alimentos, odontológica e de materiais cirúrgicos.

O aço top de linha da empresa é o M390 Microclean cujas especificações superam as de todos os demais oferecidos. O segredo de seu desempenho se encontra na forma diferenciada de fabricação. Produzido com pós que são submetidos a altas temperaturas e pressão com a utilização de prensa isostática ele é indicado para aplicações extremas. “É o caso dos moldes de altíssima produtividade usados pela fábrica de aparelhos descartáveis de barbear mantida pela Gillette, em Manaus. A cada ciclo são preenchidas centenas de cavidades, cada uma delas dotada com um canal de alimentação”, informa.

Plástico Moderno, Douglas Silva, gerente-geral de vendas e marketing da Capelletti: escolha deve ser feita pelo custo / benefício Schmolz-Bickenbach, Aços especiais - Ferramentarias devem orientar compras em aspectos técnicos
Silva: área de moldes plásticos é importante para Schmolz

O desempenho das vendas da empresa nos últimos meses não chegou a decepcionar. Os negócios no trimestre dezembro/janeiro/fevereiro não foram dos mais animadores, mas seguem a tendência sazonal vivida pela empresa todos os anos no período. “Esses meses são fracos”, resume o gerente. Ele admite: “O atual momento das montadoras, clientes que geram ótimos negócios para a Böhler, não é dos melhores.” Mas ressalta que a indústria automobilística é competitiva e investir em inovações dos veículos é imperativo para os fabricantes de carros conquistarem mercado.

Da Alemanha – A Schmolz-Bickenbach é um grupo de origem alemã fundado no início do século XX. Hoje, em todo o mundo, conta com mais de 10 mil funcionários e faturamento superior a R$ 12 bilhões por ano. O grupo está no Brasil desde 1998, inicialmente com o nome ThyssenKrupp, depois alterado para o atual. “A área de plásticos sempre foi um dos focos do grupo, hoje ela representa 20% do nosso faturamento”, revela Silva, o gerente-geral de vendas e marketing.

Ao todo, a empresa fornece mais de 50 tipos de materiais nas mais diversas medidas, que atendem a variados requisitos de polibilidade e usinabilidade. Entre esses produtos está a linha de aços P20, comercializados com as marcas Thyroplast 2311, 2312 e 2711. O gerente também ressalta a linha de aços inoxidáveis Thyroplast 2083 e 2190, além do Supra 2316. Outra série destacada é a de aços endurecidos por precipitação com alta tecnologia agregada, vendidos com as marcas Corroplast, PHX Supra e PH42 Supra.

Silva acha cedo avaliar se o ano de 2009 apresentará bons resultados. “No Brasil passamos a ter uma ideia de como será o ano a partir do final de março”, justifica. Apesar de no momento qualquer previsão ser difícil, ele acredita que por aqui a crise terá efeito menor do que na Europa e nos Estados Unidos. Para ele, a desvalorização do real é problema sério para a vida dos importadores. Para enfrentar os desvarios do câmbio, a empresa aposta na contenção de despesas como forma de se manter competitiva.

 

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