ABTB – Indústria da borracha procura inibir avanço da concorrência internacional

Plástico Moderno, Marcelo Eduardo da Silva, eleito recentemente presidente da ABTB, ABTB - Indústria da borracha procura inibir avanço da concorrência internacional
Silva: mercado brasileiro deve ser mais competitivo

A indústria brasileira da borracha deverá impor maior resistência aos seus competidores externos em 2008. Essa é a principal expectativa do empresariado local e das lideranças do setor para o ano que se inicia, antes que grandes concorrentes resolvam se instalar definitivamente no Brasil, mudando a composição e o panorama do mercado. Incentivados pelo câmbio, os níveis das importações em alguns segmentos de manufatura da borracha preocuparam os observadores brasileiros em 2007. Em alguns casos, como na indústria calçadista, as importações apresentaram crescimento acumulado avassalador na soma dos últimos anos, enquanto as exportações estão sendo cada vez mais prejudicadas financeiramente pelo dólar em baixa.

“O Brasil deve se tornar mais eficiente na concorrência internacional, alinhar-se mais às tendências e às necessidades dos clientes e defender posições de mercado já conquistadas”, afirmou Marcelo Eduardo da Silva, eleito recentemente presidente da ABTB, a Associação Brasileira de Tecnologia da Borracha, para o biênio 2008-2009. Nas duas últimas gestões, Silva ocupou a vice-presidência e trabalhou ao lado de Luis Tormento – agora vice – que dirigiu a entidade nos três últimos mandatos, período no qual pôde disseminar novas idéias, condutas, conceitos e técnicas aos associados em diálogos mais informais, mas também cursos, palestras e seminários. Durante sua gestão, Tormento também promoveu intercâmbios técnicos com importantes entidades mundiais congêneres, estimulou o caráter associativo da entidade e ainda cuidou de projetá-la mais internacionalmente. “Já estava na hora de passar o bastão”, brincou o atual vice.

Como empresário experiente e de visão, Tormento considera que a China continua representando uma das principais ameaças à produção brasileira da borracha. Competindo há vários anos na área de manufaturados destinados às indústrias de calçados e de automóveis, o “dragão” chinês também está mostrando suas garras em disputas de mercado no setor das principais matérias-primas empregadas na indústria da borracha.

De uso intensivo e indispensável, algumas commodities, como aceleradores, negros-de-fumo e antioxidantes, incluindo ainda máquinas e equipamentos voltados ao processamento das borrachas, são a bola da vez a sofrer o ataque dos importados. “Na medida do possível, muitos fabricantes nacionais tentam redirecionar a produção, mudar o foco e/ou incrementar as linhas de maior rentabilidade para poder enfrentar situações adversas, de elevada concorrência chinesa e pouco retorno nos investimentos já realizados”, considerou o atual presidente da ABTB.

“Felizmente, as autoridades e o governo chinês estão pressionando as empresas chinesas a reduzirem a emissão de poluentes, principalmente o gás carbônico (CO²), o que deverá implicar investimentos para o maior controle sobre a emissão de gases, e resultar em aumento de custos de produção e, conseqüentemente, na elevação de preços dos produtos chineses, tornando-os mais compatíveis com os nossos custos locais”, espera Tormento.

Silva analisa, porém, cenários distintos nos principais setores de consumo de borrachas, alguns deles promissores, outros nem tanto. A indústria de artefatos, envolvendo autopeças e afins, segundo Silva, deverá fechar o ano de 2007 com crescimento superior a 12%. A tendência para 2008 é manter o nível de expansão na faixa dos 10%. Esse segmento, no entanto, representa apenas 15% do consumo brasileiro de borracha.

Já na indústria calçadista as preocupações alcançam níveis mais dramáticos. “A indústria brasileira de calçados não está apenas preocupada com as exportações, prejudicadas pelo comportamento do dólar no mercado interno, mas também com as importações, principalmente da China, que crescem desmesuradamente, incentivadas pelo câmbio”, considerou Silva. Números levantados por ele na Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados) revelam que as importações nesse setor poderão alcançar US$ 223 milhões em 2007. E, se assim de fato ocorrer, terão crescido 58% em relação a 2006. Para 2008, as estimativas para esse segmento ainda são mais desfavoráveis. O montante estimado de importações alcançaria US$ 335 milhões, o que representaria mais um avanço de 21% dos importados. “Caso essas previsões sejam confirmadas, o Brasil deverá registrar um aumento acumulado de 598% nas importações de calçados e componentes entre 2003 e 2008, alcançando a fatia de participação dos importados no consumo interno de 8% em relação ao total a ser produzido em 2008”, acrescentou o presidente da ABTB.

Assim, degrau a degrau abaixo, os 796 milhões de pares de calçados fabricados pela indústria nacional em 2006 sofreriam redução para 764 milhões de pares em 2007. Em 2008, a situação se agravaria ainda mais. Segundo alertam os especialistas, os níveis de redução poderiam chegar a 733 milhões de pares de calçados, trazendo conseqüências desastrosas não só econômicas, como sociais, penalizando o empresariado e os trabalhadores do setor pela gradual redução dos níveis de emprego. Diferentemente de outros setores que, apesar de produzir cada vez menos, conseguem faturar cada vez mais, as vendas no setor de calçados, que somaram R$ 17,2 bilhões em 2006, deverão fechar o ano de 2007 com um resultado de R$ 17 bilhões, podendo cair para R$ 16,8 bilhões em 2008. Assim, o número de empregos, calculado em 272 mil em 2006, deverá diminuir em 19 mil postos, reduzindo-se a 253 mil em 2007. Também pode despencar mais em 2008, passando para 238 mil postos.

Nas exportações, segundo a Abicalçados, registrou-se um pequeno crescimento em 2007. O faturamento passou de US$ 1,854 bilhão em 2006 para US$ 2,056 bilhões em 2007. Porém, está sendo projetada queda para US$ 1,95 bilhão em 2008. “Por esses motivos, o setor calçadista, tradicional usuário de borracha natural, SBR, polibutadieno, EVA e poliuretano, está buscando com o governo federal uma redução na carga tributária sobre a folha de pagamentos, fundamental à manutenção do nível de atividade do setor. E ao contrário do que se costuma propagar, o setor que menos vem sofrendo concorrência internacional é o de sandálias de borracha injetadas, o que derruba o mito de que as importações brasileiras estejam voltadas a suprir o mercado interno com produtos mais baratos, de menor valor agregado”, afirmou o presidente da ABTB.

Por sua vez, a indústria brasileira de pneumáticos, grande responsável pelo consumo de borrachas, com fatia avaliada em 80%, abrangendo borracha natural, SBR, polibutadieno, butil e halobutil, concluiu recentemente mais um ciclo de investimentos. No período entre 2004 e 2007 desembolsou US$ 1,2 bilhão em reformas e modernizações, gerando 30% de aumento na sua capacidade produtiva instalada. “Ocorre, porém, que o nível de ocupação nesse setor é de apenas 60% em relação à sua atual capacidade e os investimentos programados daqui pra frente deverão ser mais baixos”, informou Silva. No setor de borrachas termoplásticas, o crescimento previsto deverá ser contínuo, principalmente em aplicações de substituição de borrachas convencionais nas indústrias de calçados e automobilística. Os elastômeros termoplásticos vulcanizados também continuarão cumprindo escalada de crescimento. “Tanto os TPEs, como os TPVs crescem ao ritmo de 9% ao ano e são as categorias de elastômeros que contam com as melhores perspectivas de continuar galgando bons níveis de crescimento até pelo menos o ano de 2010”, considerou Tormento.

Recorde em pneumáticos – Apesar das dificuldades enfrentadas pelo setor, a indústria de pneus deverá fechar o ano de 2007 com recorde de produção, alcançando 55,5 milhões de unidades. Com esses volumes, deverá manter a posição brasileira de quinto maior produtor mundial de pneus para caminhões e sexto maior produtor mundial de pneus para automóveis, graças às produções de empresas como Pirelli, Goodyear, Bridgestone Firestone, Michelin, Continental, Maggion, Rinaldi e Levorin. Isso sem contar como certo ainda a entrada de um novo player nesse setor em 2008 ou 2009, segundo a ABTB, que seria a coreana Hankook.

Segundo Silva, a pujança da indústria de pneumáticos deve ser compreendida e analisada sob a ótica de três segmentos distintos, cada um deles dentro de sua própria realidade, abrangendo pneus originais, pneus para exportação e pneus para reposição. “Os pneus originais representam entre 25% e 30% das vendas totais e, como se pode observar, existe um grande descompasso entre o ritmo da produção de automóveis e o de produção de pneus. Enquanto a indústria automobilística cresce a passos largos, somando percentuais de 10% até 12% ao ano, a indústria de pneus deverá crescer apenas 2% em 2007,” constatou o presidente. A grande responsável por essa situação, segundo analisou Silva, são as importações de pneus fabricados na China. “Os pneus asiáticos têm custo de produção entre 30% e 40% inferiores em relação aos pneus fabricados no Brasil, apesar de incidir sobre os importados a alíquota de imposto de 15%”, analisou. As exportações, por seu turno, representam entre 30% e 35% das vendas de pneus. “O câmbio em patamar bem mais depreciado freou as intenções mais ambiciosas dos fabricantes de pneus que poderiam já ter transformado o Brasil numa verdadeira base exportadora para o mundo todo”, afirmou.

Em curto prazo, portanto, as exportações deverão continuar alcançando o mesmo patamar, segundo Silva, basicamente por três motivos: pelos compromissos assumidos por força de contratos firmados intercompanies nos últimos anos; pelo fato de o Brasil figurar como base exportadora para outras unidades das companhias multinacionais instaladas no Brasil; e porque as fábricas canadenses e americanas estão operando no limite de sua capacidade, abastecendo-se da produção brasileira para as vendas no mercado interno. Segundo ele, o mercado de pneus para reposição, infelizmente, vem sendo corroído nos últimos anos. “Hoje, o mercado de reposição representa 40% das vendas de pneus, mas está sendo corroído porque o câmbio depreciado favorece a importação de pneus vindos da China.” As vendas de pneus remoldados também causam grande impacto sobre as vendas de pneus novos. “Apresentando aparência de novos, os remoldados oferecem preços muito mais atrativos.” No entender de Silva, a questão ambiental é outro fator limitante ao maior crescimento da indústria de pneus no Brasil. “A difícil eliminação dos pneus inservíveis e os danos que podem causar ao meio ambiente contribuem para que países em desenvolvimento importem pneus para reforma e reutilização. A situação ainda é agravada pelos incentivos concedidos pelos países europeus para a sua exportação. Isso faz com que cheguem ao seu destino com custos reduzidos para os importadores e possam ser comercializados ao equivalente a 60% do preço de um pneu novo”, informou.

Novos controles acionários – Dois fatos marcantes ocorridos em 2007 também deverão influenciar o mercado das borrachas em 2008, segundo assinalou o vice, Tormento. A alemã Lanxess assumiu o controle da Petroflex, maior produtora de borrachas sintéticas da América Latina e uma das dez maiores companhias do mundo em seu setor, destacada pela produção de borrachas de estireno-butadieno (SBR) e polibutadieno (BR), as borrachas de maior consumo pelo mercado de pneus, 80% da produção de borrachas, segundo a ABTB. Outro fato de grande importância se refere à compra da Ipiranga pela Petrobras.

Em 2008, serão previstos pelo setor outros acontecimentos que poderão afetar o mercado, como restrições ambientais surgidas na Europa, com reflexos nas exportações brasileiras de artefatos de borracha. No âmbito das atividades da ABTB, 2007 foi um ano bastante movimentado para o setor. A entidade comemorou trinta anos de existência, período caracterizado pelo apoio ao aprimoramento tecnológico. Também conseguiu realizar 16 palestras e sete cursos, quantidade de eventos que superou as metas anteriormente projetadas. Entre as palestras que despertaram grande interesse das platéias se destacaram os temas: Princípios de Reologia, ministrada pelo atual presidente da ABTB. Outras que também contaram com grande quórum abordaram os temas: Modernas Técnicas de Cura Peroxídica, ministrada por Evandro Falaguasta, da Retilox, e Dyneon THV – Características e Aplicações na Indústria Automobilística, apresentada por Petrus E. Lencione Filho, da 3M do Brasil.

Entre os cursos de maior interesse dos associados se destacaram Gerenciamento do IMDS, ministrado pelo engenheiro Carlos E. Moretti, e por meio do qual foram transmitidos conceitos sobre as normas atuais relativas às substâncias restritas, preparando os participantes para a elaboração e administração de Materials Data Sheet (MDS), bem como Processamento de Elastômeros: Ciência e/ou Prática, ministrado pela consultora Isabela Pedrinha, focalizando conceitos sobre elastômeros, equipamentos, processos de mistura e de caracterização viscoelástica de compostos de borracha.

Em 2007, a ABTB também promoveu as IX Jornadas Latino-Americanas de Tecnologia da Borracha, em conjunto com a Sociedade Latino-Americana de Tecnologia da Borracha, que também elegeu nova diretoria, formada por brasileiros como Fernando Genova e Lucas Leonardo e ainda realizou a 3ª. Edição do Seminário Brasileiro sobre TPE e TPV. No âmbito internacional, a ABTB se filiou ao IRCO, entidade sediada na Inglaterra, que promove a difusão de conhecimentos no setor, e que já programou os próximos eventos internacionais. Em 2008, será na Malásia; em 2009, na Alemanha; e, em 2011, no Brasil. Para 2008, as metas da ABTB são ambiciosas. A associação realizará o 12º. Congresso Brasileiro de Tecnologia da Borracha e pretende trazer renomados especialistas para a apresentação de palestras e conferências. As palestras mensais também terão continuidade e ainda deverão ser realizados dois cursos, um deles focado na injeção das borrachas. Como estímulo a realização de pesquisas, deverão ser ainda criadas bolsas de estudo, incentivando trabalhos nos campos de novos produtos, reciclagem e meio ambiente.

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