ABS: avanço das aplicações técnicas da resina

Recuo de preços internacionais garante avanço das aplicações técnicas da resina no Brasil

Balanço equilibrado de propriedades físicas e químicas, com o diferencial de proporcionar ótimo acabamento superficial, admitindo pintura e metalização, destacam o ABS entre as resinas de engenharia hoje mais utilizadas, presente em inúmeras aplicações: automóveis, eletrodomésticos, embalagens de cosméticos, itens da construção civil, entre muitas outras.

Esse uso disseminado pode ganhar ainda mais impulso pela expressiva queda em seus preços, hoje mais competitivos mesmo no confronto com commodities, a exemplo do polipropileno, com o qual concorre em alguns usos.

O Brasil importa todo o ABS que utiliza. No primeiro semestre deste ano, informa a consultoria MaxiQuim, chegaram ao país 37 mil toneladas de ABS, montante 12% superior ao do mesmo período do ano passado.

Essas importações, ressalta Taís Marcon, diretora de químicos e especialidades da MaxiQuim, aumentaram mais acentuadamente a partir do segundo trimestre, quando, passados os momentos iniciais da transição de governo, foram diminuindo as incertezas e a indústria ensaiou retomar seu ritmo. “Também houve acentuada queda nos preços da resina desde o início do ano, especialmente daquela proveniente da Ásia, de onde provém a maioria do ABS que hoje chega ao Brasil”, indica Taís.

Essa queda de preço pode acelerar projetos de substituição de materiais por ABS em algumas aplicações automotivas, como capas de espelhos retrovisores e grades frontais.

ABS: Avanço das aplicações técnicas da resina ©QD Foto: iStockPhoto
Taís: demanda local por ABS neste ano tende a crescer

“PP e ABS têm índices de contração diferentes, e essa substituição geralmente exige troca de moldes. Daí a necessidade de uma perspectiva a prazos mais longos nesse cenário dos preços para que essa substituição ganhe força”, ressalva Taís.

“Seja pelo preço, seja pela possiblidade já anunciada de estímulos à produção de linha branca, no decorrer deste ano a demanda nacional por ABS pode ser superior à de 2022”, acrescenta.

Normalmente, observa Ramesh Iyer, diretor de resinas de poliamida, ABS, PC e acrilonitrila na consultoria global Icis, a demanda por ABS acompanha o ritmo de evolução da atividade econômica (no caso de um país, da evolução de seu PIB). “Em âmbito global, essa demanda está pouco aquecida este ano”, avalia.

Ele vê possibilidade de ampliação do uso de ABS em novos dispositivos domésticos eletroeletrônicos; em contrapartida, essa resina pode perder espaço para o policarbonato nos veículos elétricos.

ABS: Avanço das aplicações técnicas da resina ©QD Foto: iStockPhoto
Ramesh: mercado pede resina reciclada e de fonte natural

“ABS é um polímero bastante versátil e as demandas da sustentabilidade incrementarão o uso de ABS reciclado e com conteúdo proveniente de fontes renováveis”, destaca o especialista.

A expansão do uso de ABS pode ganhar impulso não apenas pela queda de preço, mas também pela expansão da oferta, decorrente de vários investimentos na capacidade de produção dessa resina. Muitos desses investimentos, realizados na Ásia, mas também em outras regiões, lembra Iyer, citando um projeto de ampliação da capacidade de produção de ASA atualmente sendo implementado nos Estados Unidos, que também resultará em expansão da capacidade de produção de ABS.

Construída no Texas pela Ineos, essa nova unidade de produção de ASA está entrando agora em operação e, paulatinamente, permitirá que uma planta mantida pela empresa no México, hoje produzindo ASA e ABS, dedique-se apenas à segunda dessas resinas (processo que deve estar finalizado em meados do próximo ano).

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Bordin: aumento de oferta no México reduzirá custos aqui

“Quando ele estiver concluído, liberará uma capacidade de cerca de 70 mil toneladas de ABS, praticamente todo o consumo do mercado brasileiro. Será uma grande vantagem competitiva para nós, até porque a logística a partir do México é bem mais simples”, ressalta Fabio Bordin, diretor da Ineos para a América do Sul.


ABS: Preços e projeções

Alçados pela pandemia a patamares bastante elevados, os preços do ABS ingressaram posteriormente em uma trajetória descendente e são hoje, estima Bordin, da Ineos, aproximadamente 45% inferiores aos de 2021 (quando atingiram um pico). São inferiores também, em 23%, àqueles registrados antes mesmo da pandemia (considerando a média de 2018-2019).

Queda, explica Bordin, decorrente de uma oferta superior à procura, pela conjugação de estoques elevados e demanda que não atende às expectativas da época de formação desses estoques. “E não há nada que indique uma elevação abrupta dos preços, até porque existem vários projetos de produção de ABS, especialmente na Ásia, que devem estar operando até 2025”, calcula o executivo da Ineos.

Ele nota efeitos dessa redução de preços. “Peças que durante a pandemia haviam migrado para o HIPS (poliestireno de alto impacto), resina mais barata, porém com menores propriedades mecânicas e de acabamento superficial, estão retornando ao ABS, por exemplo, espelhos de tomadas elétricas”, exemplifica Bordin.

No decorrer deste ano, a demanda brasileira por ABS deve ser ao menos similar, ou até um pouco superior à de 2022, segundo Bordin, pois se há uma tendência de melhora nos fatores macroeconômicos, com redução da inflação e perspectiva de redução das taxas de juros, alguns clientes, da linha branca, por exemplo, que mantinham elevados estoques de produtos prontos e por isso compravam menos resina tendem a mudar de atitude. “A demanda está ainda fraca, mas melhor que no ano passado”, avalia. “Para a Ineos, especificamente, deve ser um ano de crescimento, até porque estamos recuperando mercado que havíamos perdido por problemas de disponibilidade do produto”, acrescenta Bordin.

Felipe Marinho, gerente de marketing e vendas da petroquímica japonesa Toray, crê que, no total deste ano, o volume de ABS comercializado no Brasil deve se manter similar ao do ano passado, ou até registrar um pequeno decréscimo.

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Marinho: outras resinas têm desempenho inferior ao do ABS

“Na indústria de eletrodomésticos, a queda se deve principalmente a uma redução na produção dessa indústria, não porque o ABS esteja sendo substituído por outras resinas”, pondera o profissional da Toray.


“Commodity de engenharia”

Assim como os preços, também caíram bastante as margens de quem negocia ABS, relata César Rodrigues, gerente comercial da Eixo Snetor (joint venture entre a distribuidora de resinas Eixo Brasil e a holding francesa Snetor, que comercializa ABS proveniente da coreana Kumho e, em volumes menores, também da Formosa, de Taiwan, distribuindo ainda PE, PP, ASA, SAN, entre outros produtos).

“Embora não seja igual ao de PE e PP, o ABS hoje gera hoje um bom volume de vendas. Dizemos até que é a maior commodity entre os plásticos de engenharia”, diz Rodrigues, que estima que seus preços caíram em índices até superiores àqueles apresentados por Bordin, da Ineos. “Uns 50% de um ano para cá; até mais que isso, considerando-se o auge da pandemia”.

Quando seus preços estavam altos, o ABS até perdeu algum mercado, diz Rodrigues. “Uma aplicação que sofreu bastante é o painel traseiro de televisores, que começou a usar PP”, destaca. Mas a queda nesses preços leva-o a reocupar seu espaço.

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Rodrigues: alta fluidez torna resina adequada à impressão 3D

“Espelhos, caixas de tomada e outras peças de construção que passaram a usar mais PP, voltam a usar mais ABS agora”, acrescenta Rodrigues, citando saltos de calçados femininos, perfis extrudados para acabamento de móveis, puxadores de móveis, como outras aplicações que começam a utilizar mais a resina.

Nessas e em outras utilizações, o ABS apresenta como diferencias favoráveis “excelente acabamento superficial, alto brilho, boa resistência ao impacto numa ampla faixa de temperaturas, estabilidade dimensional, e baixa absorção de umidade”, detalha Edson Simielli, gerente de resinas engenharia da Piramidal (que distribui ABS e blendas ABS/PC provenientes principalmente da Sabic). Mas tem também, ele ressalta, alguns pontos desfavoráveis, como a baixa resistência química – principalmente a solventes orgânicos –, sensibilidade ao stress cracking e baixa resistência à radiação UV. “Se não adequadamente aditivado, ocorre degradação das propriedades e alteração de cor do produto”, enfatiza Simielli.

Em linhas gerais, o ABS é material bastante versátil e de custo competitivo, principalmente quando comparado aos demais plásticos de engenharia, ressalta Fabio Koutchin, gerente comercial de resinas de engenharia e soluções circulares da Piramidal.

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Koutchin: acabamento superior e resistência garantem vendas

“É normalmente utilizado quando a aplicação exige excelente acabamento superficial, brilho, boa resistência ao impacto, facilidade de pigmentação e pintura”, explica.

Tais características, pondera Koutchin, garantem a ele presença não apenas nas indústrias automobilística e eletrodomésticos, mas também na construção civil, em brinquedos, utensílios domésticos, na indústria das “duas rodas”, que a utiliza não só em componentes das motocicletas, mas também nos capacetes dos motociclistas. “Ele e o PS concorrem em algumas aplicações e nessa disputa o ABS tem hoje preço competitivo”, observa Koutchin. “Seu preço está hoje mais competitivo até em relação ao do PP”, complementa.

Apelo do custo/benefício do ABS

Além de combinar bom acabamento visual com um conjunto de características físico-químicas que lhe franqueia diversos aproveitamentos, o ABS é também resina facilmente moldável, não exige temperaturas muito elevadas de injeção, ressalta Bordin, da Ineos, citando eletroportáteis – como secadores de cabelo e aspiradores de pó –, brinquedos, maletas de ferramentas, entre outras de suas atuais aplicações. “Também é usado em dispositivos médicos, como medidores de pressão e oxímetros”, informa.

Na opinião de Bordin, a resina pode ganhar espaço mesmo nos setores nos quais tem presença estabelecida, como na indústria automobilística. “Vemos uma tendência de expansão do uso do ABS em sistemas de iluminação automotiva, em peças que antes usavam PC/ABS, mas que, com a iluminação LED, que emite menos calor, começam a usar somente ABS, e em alguns casos ABS de uso geral, não necessariamente ABS high heat”, exemplifica.

Capaz de suportar temperaturas mais elevadas – e mais comummente empregado em autopeças –, o ABS high heat ao qual se refere Bordin é um dos quatros principais grupos nos quais ele subdivide essa resina. Os outros três são: uso geral (ou standard), utilizado em brinquedos, linha branca, eletrodomésticos, entre outros artigos; ABS para extrusão, especifico para produção de chapas que serão termoformadas para produzir, por exemplo, componentes de caminhões e ônibus; ABS alto impacto, para aplicações que necessitam resistir mais a impactos, como capacetes.

E os grades desses grupos, ressalta o profissional da Ineos, podem ter características distintas: por exemplo, ABS standard com alta ou baixa fluidez, ou com maior ou menor resistência a impacto; mesmo o high heat é oferecido em grades com resistências a diferentes temperaturas, e com propriedades também distintas. “E temos em nosso portifólio ABS com PCR, na linha Terluran ECO, que tem grades com 50% ou 70% de PCR. Temos também opções com conteúdo bio-based certificado por balanço de massa”, ressalta.

Um ABS de maior resistência ao impacto, diz Marinho, da Toray, pode ser utilizado em peças com mais esforço mecânico, como carenagens de motos e saltos de sapato. “O de maior fluidez é utilizado para peças de menores espessuras, pois tem maior facilidade para completar a cavidade do molde”, especifica.

Marinho também cita o agronegócio como campo no qual vêm surgindo novas aplicações da resina. “São geralmente peças de grandes dimensões, utilizadas como componentes internos de máquinas e equipamentos agrícolas”, aponta. “É uma resina que possui ótima aparência, boa processabilidade, boa resistência mecânica, pode ser submetida à pintura e metalização, além de ter um ótimo custo-benefício. Sua principal desvantagem é a baixa resistência às intempéries, sua resistência ao UV é inferior à de outras resinas”, complementa.

Apesar dessa deficiência, ele não vê nenhum outro plástico capaz de concorrer diretamente com o ABS nas aplicações nas quais ele é hoje utilizado. “E em termos de resistência a intempéries, o concorrente mais forte seria o ASA, que também fornecemos”, ressalta Marinho.

Para Rodrigues, da Eixo Snetor, mantidos os atuais preços, ainda pode crescer o uso de ABS no Brasil, por exemplo, em aplicações como metais sanitários e chuveiros (especialmente quando houver necessidade de cromação). “É uma resina que permite que se trabalhe com aditivos, como antichamas, importantes para a construção civil”, destaca. “Também estamos vendendo ABS para fabricação de filamentos para impressão 3D. O material, de alta fluidez, permite impressão em velocidades mais altas, e possui boa aderência entre camadas”, finaliza Rodrigues.

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Pigmentada e aditivada

Processos nos quais o ABS substitui outras resinas são mencionados também por fornecedores de compostos feitos com ele. “Em alguns casos, hoje indicamos ABS reforçado como substituto de poliamida. Essa substituição gera ganho ambiental, pois o ABS torna mais simples a reciclagem, e também de custos, e já está sendo usada em algumas aplicações, como resistências de chuveiros e componentes para banheiras”, relata Elisangela Melo, diretora comercial da Macroplast.

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Macroplast oferece opções variadas de aditivação

Fornecedora de compostos e masterbatches de resinas de engenharia, a Macroplast, disponibiliza também a chamada resina tingida, ou seja, resina já pigmentada e aditivada de acordo com as solicitações dos clientes, pronta para o processo de transformação.

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Elisangela: resina reforçada pode substituir poliamida

“No ano passado desenvolvemos, entre outros produtos, ABS antirrisco e ABS black piano, um ABS com preto bem intenso e com alto brilho, até então importado”, ressalta Elisangela.

A Dakhia está desenvolvendo um composto com uma blenda de PA e ABS (que conferem, respectivamente, resistência mecânica e melhor acabamento). “Em fixadores de vidros e componentes de boxes de banheiros, esse material consegue substituir metal com a vantagem de maior vida útil”, destaca Josimar Fazolare, diretor comercial e de marketing dessa produtora de compostos com diversas resinas de engenharia.

Compostos de blendas ABS e PC, destaca Fazolare, têm as características visuais da primeira dessas resinas complementadas pela elevada resistência mecânica do policarbonato, sendo hoje utilizados em painéis de veículos e em outras aplicações.

“Carcaças de maquininhas de pagamento instantâneo também usam PC/ABS”, destaca Fazolare, citando uma aplicação que se expandiu bastante nos últimos anos.

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Fazolare: ABS bate PP quando as peças precisam de pintura

“Em alguns casos, o polipropileno pode concorrer com o ABS, mas se for necessária pintura o PP perde totalmente a competividade, pois exige um tratamento térmico na peça”, observa.

A Advanced Polymers produz e distribui resinas e compostos de ABS e também de ASA, PC, POM, PBT, SAN, TPE, PA 6, entre outras resinas de engenharia. O ABS, especificamente, fornece de diversos modos: na forma de resina colorida, em blendas – como ABS/PC e ABS/PA –, com propriedades antichamas ou resistência ao UV, entre outras. “Bastante demandado é o ABS colorido, usado em embalagens de cosméticos e em peças de acabamento automotivo”, ressalta Danilo Kumitake como gerente de desenvolvimento da Advanced Polymers.

Ele relata crescente demanda por ABS em aplicações agropecuárias, nas quais já é utilizado em componentes de semeadeiras e outras máquinas. “ABS composto e suas blendas são ótimas opções para aplicação em peças técnicas que requerem resistência a impacto, resistência térmica, acabamento superficial, brilho, dentre outros benefícios”, argumenta Kumitake.

Fabricação local de ABS supriu emergência

Além de elevar drasticamente seus preços, a pandemia também gerou enorme escassez do ABS resina (e também de outros plásticos, é verdade), especialmente, a partir da segunda metade de 2020.

Visando atender seus clientes nesse contexto de dificuldades, alguns fornecedores nacionais de compostos passaram a produzir eles próprios o ABS, misturando a resina SAN, que contém dois de seus ingredientes – acrilonitrila e estireno –, com o butadieno. Solução apenas temporária, pois, de acordo com Rodrigues, da Eixo Snetor, “cada um desses ingredientes tem hoje custo individual superior ao do ABS, sem contar com o custo de produção do composto”.

ABS: Avanço das aplicações técnicas da resina ©QD Foto: iStockPhoto

A Macroplast é um exemplo de fabricante de compostos que durante a pandemia passou a produzir ABS. “Foi algo emergencial, não havia resina disponível. Mas nos garantiu uma parceria com nossos parceiros, que não ficaram sem produto”, relata Elisangela.

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