|
|
|
A U T O M Ó V E
I S |
 |
Formulações avançadas
esquentam briga do PP
com a PA sob o capô
Texto de Márcio Azevedo
e fotos de Cuca Jorge |
O uso de
plásticos em aplicações próximas ao motor de automóveis já não surpreende
quem acompanha a evolução desses polímeros. Pelas características de
resistência mecânica e térmica exigidas nessas aplicações, as peças sob o
capô se tornaram quase um monopólio da poliamida, um material que consegue
aliar propriedades compatíveis com as exigências técnicas a preços
competitivos. Na metade da atual década, porém, fornecedores de compostos
de polipropileno começaram a cogitar uma possível concorrência desse
material com a poliamida em algumas peças improváveis, próximas ao calor
do motor, sob a incredulidade da maior parte do mercado. O tempo passou e
o ceticismo quanto às possibilidades do composto poliolefínico não pôde
continuar absoluto. O improvável aconteceu.
“Nós estamos muito próximos de nossa matriz e conseguimos antecipar muitas
aplicações que já são realidade na Europa. Então, quando falamos de
tendências e possibilidades que ocorrerão no Brasil, como a substituição
da poliamida por polipropileno, é porque elas já acontecem no mercado
europeu”, diz o gerente de marketing da unidade de negócios Mobility da
Borealis no Brasil, Daniel Bahls. Ele confirma que as substituições do
plástico de engenharia por compostos da poliolefina estão, de fato,
ocorrendo, citando exemplos de aplicações no mercado europeu e no
|
brasileiro. Entre elas, o coletor de admissão de ar,
uma peça de grande massa e com bastante complexidade técnica, típica
do portfólio de aplicações da PA, que vem sendo fabricada de PP no
Velho Mundo. O mesmo poderá ocorrer aqui no médio prazo, pois testes
estão sendo realizados nas fábricas de clientes locais. Não que o uso
do PP seja uma panaceia; há restrições para o emprego do material
nessa aplicação, como o tipo de motor e o espaço interno sob o capô.
Quanto maior a pressão a que está submetido o coletor de admissão de
ar, menores as chances de o PP satisfazer às demandas técnicas da
peça. Dependendo do modelo de carro, motores 1.4 a 1.6, via de regra,
podem ter coletores de PP. Apesar dos limites, no entanto, Bahls é
incisivo: “É uma realidade.” |

Coletor de admissão de ar de PP já é realidade, diz Bahls |
Outro exemplo emblemático é a conquista dos painéis externos da parte
dianteira da carroceria de alguns automóveis, mais conhecida como front
end. Alguns modelos de veículos empregam náilon nessa peça, mas existe um
modelo brasileiro que optou pelo PP reforçado com fibra longa. A ousadia
da resina está tão pronunciada que, na Europa, há carros rodando com front
ends de polipropileno reforçado com fibras convencionais, cena que poderá
ser replicada no Brasil em breve, uma vez que, segundo as informações de
Bahls, projetos locais de novos modelos em andamento já optaram pela
substituição da PA. Algumas peças menores, mas ainda assim relevantes para
as conquistas da poliolefina, também figuram como novas aplicações, caso
da base de bateria e do suporte da ventoinha, o chamado fan shroud, este
último, já devidamente convertido ao PP em alguns modelos de automóveis
brasileiros. Outro ponto de concorrência com a poliamida são os filtros de
ar, uma peça que promete um bom volume de negócios para a Borealis no
mercado brasileiro, e que se beneficiou do desenvolvimento de um composto
híbrido, em cujo seio a combinação de cargas diferentes forjou novas
propriedades. Essa novidade, por sinal, não utiliza nenhuma carga muito
sofisticada ou diferente do que há no mercado, à exceção, talvez, do fato
de serem minerais com propriedades um pouco mais controladas, como o
tamanho de partículas. O “x” da questão está mais no processo de
incorporação e na proporção correta entre determinados minerais, que leva
ao resultado superior.
Todas essas aplicações, genericamente denominadas under the hood, ou under
the bonnet (em ambos os casos, sob o capô), estão no foco dos composteiros
de PP, e já não podem mais ser consideradas fantasias pelos “donos”
tradicionais das peças de plástico próximas ao motor – os fornecedores de
poliamidas.
Trocando, mas nem tanto – Apesar disso, Bahls lembra que a
velocidade com que as substituições ocorrem no mercado do Brasil não
depende apenas dos fornecedores de compostos, pois é preciso equalizar
outras questões, como os investimentos dos OEMs (original equipment
manufacturer, ou fabricantes de equipamentos originais), principalmente
quando sai de cena um metal para a entrada do plástico. Se a troca é de um
polímero por outro, seria normal esperar-se ao menos a troca de molde, em
virtude de comportamentos diferentes durante a injeção dos materiais, mas
o gerente de marketing revela que em diversos casos práticos nem isso é
necessário. Sabendo da resistência dos fabricantes de autopeças à troca de
moldes, cujo preço chega a centenas de milhares de dólares, quiçá a
milhões, a Borealis desenvolve suas formulações levando em conta as
características de contração dos compostos de PP e, em menor conta, sua
fluidez, para que os moldes utilizados na conformação de PAs possam ser
utilizados, sem maiores dores de cabeça, na transformação do PP. A
contração do composto, talvez o fator mais relevante para a manutenção do
molde, é uma variável que pode ser alterada por modificações na composição
do PP como um todo, ou seja, é necessário ajustar a resina, os reforços e
a tecnologia de aditivação. Outros detalhes importantes a se considerar,
na troca de PA por PP sem substituição do molde, são o design e os pontos
críticos da peça, bem como o processo de injeção propriamente dito, que
influenciam fortemente nas chances de sucesso. Essa tática permite que
apenas poucos ajustes sejam necessários, como alguma mudança na região de
solda, sem mexer com o peso pesado do investimento em uma substituição
entre plásticos, o molde. O caso do coletor de admissão de ar, como
exemplo, é um daqueles em que foi viável a troca da matéria-prima sem a
mudança do ferramental.
Mas será que com tantas modificações, esses novos compostos de PP não
estariam se tornando muito caros? Bahls prefere não falar em diferenças de
preços entre grades de PP e PA, e opta pela abordagem dos ganhos
proporcionados pela substituição. Os compostos de PP possuem densidade 15%
menor, em média, que as poliamidas e é preciso lembrar que, no cerne da
utilização de plásticos em automóveis, em detrimento de metais, está o
esforço das montadoras pela redução de peso de seus veículos. Além disso,
a densidade inferior traz ganhos de produtividade ao processo de injeção.
No caso do coletor de admissão de ar, ocorre também a redução no nível de
ruído, da ordem de 5 decibéis, e a soma de fatores como esses apresentados
é que conta para a decisão final nos projetos. Por isso, comparar apenas
os preços por quilo das resinas, diz o gerente, é injusto. Para Liane
Lanzoni, diretora de vendas e marketing da unidade de negócios Automotive
& Appliances, a proposta de substituição se encaixa na filosofia de uma
proposta de valor. “Às vezes a troca diminui o ciclo de injeção, em outras
vezes reduz a densidade da matéria-prima, e a soma das vantagens acaba
sendo benéfica do ponto de vista financeiro, que é o principal apelo da
troca”, explica.
No entanto, nem sempre é fácil mostrar ao produtor local quão vantajosa
pode ser a mudança. Obviamente, quando um vendedor técnico chega ao seu
cliente munido de exemplos de sucesso da nova aplicação, a tarefa é menos
árdua, mas não tanto quanto se poderia supor. O tamanho das
|
montadoras dificulta o fluxo de informações e, dentro
de uma mesma empresa, às vezes é difícil fazer circular exemplos de
substituições já em prática na matriz. Para Liane, dentro da própria
montadora brasileira é complicado fazer a informação circular e, mais
ainda, trazer ao conhecimento da filial local as novidades
desenvolvidas pela matriz no exterior. Como uma consequência até certo
ponto negativa da autonomia conquistada pelos times locais, o
fornecedor da matéria-prima sempre é requisitado a trabalhar em
conjunto com a equipe que a montadora emprega por aqui e, em algumas
vezes, é o composteiro que acaba fazendo referência às aprovações
efetivadas na matriz da montadora em outro país. “Nós levamos essa
informação, mas nem sempre a equipe local se interessa por buscar
esses fatos internamente”, diz Liane. |

Liane: falta de informação atrapalha substituições |
Essa situação contrasta com o panorama de alguns anos atrás, em que as
filiais locais das montadoras recebiam pacotes fechados, com determinadas
resinas especificadas para certas peças sem maior chance de
desenvolvimentos locais. Isso ainda acontece quando a fábrica brasileira é
usada como plataforma de exportação e o veículo vendido ao exterior atende
a especificações globais, ou quando há um projeto global, caso de um
modelo do Polo, da Volkswagen, cuja campanha de divulgação aludia ao fato
de que o Polo comprado no Brasil era igual ao Polo comprado na Alemanha.
Essas duas situações, porém, já não refletem a totalidade do que acontece
nas montadoras instaladas no Brasil.
Um ponto que atrai a atenção, quando se fala na troca de PP por PA em
peças operando sob o capô, é que a poliolefina utilizada nessas aplicações
nem sempre é reforçada por fibras de vidro longas. Bahls e Liane, aliás,
compartilham a opinião de que as fibras longas tendem a perder seu espaço
no mercado, pois a própria Borealis já está conseguindo substituir resinas
reforçadas com esse tipo de material por compostos contendo fibras
convencionais, como no exemplo do front end europeu. O advento das fibras
longas ocorreu na tentativa de aproximar o PP das características técnicas
da PA e, durante algum tempo, essa tecnologia, com seu destacado balanço
de propriedades, foi aquela que mais obteve êxito em tal objetivo. No
entanto, ela apresenta alguns inconvenientes, notadamente uma maior
dificuldade de processamento e restrições à liberdade de design. A injeção
de PP reforçado com fibras longas requer cuidados especiais para que as
fibras não sejam quebradas durante o processamento, visto que suas
propriedades superiores decorrem exatamente de seu comprimento. Além
disso, as linhas mais arredondadas, fluidas, que caracterizam o design
tido como moderno, são muitas vezes inatingíveis quando se usa fibras
longas, pois é necessário facilitar ao máximo o fluxo da resina durante a
injeção, sob pena de quebrar as fibras de vidro. Também são necessários
ajustes dos canais de injeção, que devem ser maiores – a janela de
processo é um tanto reduzida. Mesmo com as precauções, há formas que nunca
serão possíveis com esse tipo de reforço.
Mais simples é melhor – Como nenhum processador se submete a todas
essas exigências de bom grado, a Borealis, após estudar as fibras longas,
continuou pesquisando maneiras de atingir as propriedades de poliamidas
com materiais mais facilmente processáveis e que não exigissem condições
específicas dos transformadores e acabou chegando a resultados adequados
com fibras convencionais. O segredo desse desenvolvimento? Bem, ainda é
segredo! No entanto, Bahls afirma tratar-se de uma combinação de aditivos
e resinas aperfeiçoados, combinados a fibras com melhores interações com
as cadeias poliméricas. Liane destaca o papel das resinas, obtidas pelo
processo Borstar, uma tecnologia proprietária da Borealis, que leva a
poliolefinas muito especiais, e que dá um grande impulso para a obtenção
dos resultados ora apresentados.
O fato é que a tecnologia de fibras longas ainda não vai morrer, pois o
balanço de propriedades que ela oferece ainda não pode ser obtido pelas
fibras convencionais em médio prazo, mas as últimas devem ser a tendência
do futuro, pois estão alinhadas com outras diretrizes importantes, como a
facilidade de processamento em injetoras convencionais, sem a necessidade
de aquisição de equipamentos específicos, e com chance de maior arrojo no
design.
Amparada por suas pesquisas, a Borealis, no Brasil, tem divulgado as
possibilidades de substituição de metais e PA desde 2005. À época, muitos
tratavam as afirmações como absurdas, particularmente nas aplicações under
the hood. Hoje, porém, o mercado de poliamida percebe que o PP começa a
incomodar, mas ainda não acredita que possa haver uma grande evolução em
termos de fatia de mercado. Bahls, opostamente, vê um grande espaço para o
composto crescer. Como lastro de suas palavras ele cita um desenvolvimento
em conjunto com a BMW, no qual a estrutura interna do banco traseiro dos
modelos da Série 7 foi feita de PP reforçado, uma verdadeira ruptura
tecnológica, dado que os assentos são aplicações de alta segurança em
automóveis, e tabu até para materiais como a PA, pois ainda empregam, na
maior parte das vezes, metais. Outra aplicação que corrobora o otimismo do
gerente de marketing é a substituição do SMC (sheet molding compound), um
compósito termofixo, em peças da parte frontal do caminhão
|
Stralis, da Iveco. Algumas peças de grandes dimensões,
principalmente de caminhões, ônibus e implementos agrícolas utilizam o
compósito, um material que não é reciclável e, por isso mesmo, só é
empregado quando não há alternativas. A dependência desse tipo de peça
em relação a compósitos é tão grande que a associação entre essa
matéria-prima e caminhões é imediata. Causa surpresa, desse modo, a
conquista da aplicação pelo PP, visto que nem outros termoplásticos
costumam se aventurar na seara dominada pelos compósitos. |

Frente de Stralis deixou o SMC e
converteu-se ao PP |
Algumas tendências da indústria automotiva, por outro lado, podem
tornar mais difícil ao PP atingir as suas pretensões. Muitas montadoras
lidam com a possibilidade de tornar os motores de seus
|
|