Propeno verde resolve dois problemas
 

Além de produzir polipropileno por uma rota de fonte renovável, a Quattor ainda planeja, por tabela, solucionar uma questão ambiental derivada da utilização obrigatória do biodiesel. A tecnologia em desenvolvimento pela petroquímica propõe unir o ambientalmente correto com o rentável: transformar glicerina, um subproduto do biodiesel, em propeno. Segundo o presidente da empresa, Vitor Mallmann, o seu reaproveitamento atende a uma equação de custo, além de uma demanda de mercado de fontes renováveis.

Desenvolvida em conjunto com um grupo de pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a tecnologia é inédita em âmbito mundial, com processo e catalisadores patenteados e se baseia em um sistema catalítico capaz de promover uma reação que transforma seletivamente a glicerina em propeno.

O projeto se encontra atualmente em estágio final de desenvolvimento, com projetos de montagem de uma unidade piloto em Mauá-SP, de produção diária em torno de uma tonelada de propeno “verde”, já no primeiro trimestre de 2010.

Os planos contemplam a construção de uma planta comercial em 2012, da ordem de 100 mil toneladas anuais de propeno baseado em glicerina. O país deverá gerar da ordem de 260 mil toneladas do subproduto (de uma fabricação anual estimada de 2,5 bilhões de litros de biodiesel), volume que será absorvido na planta comercial da Quattor. O local ainda não foi definido.

Assim, a produção do propeno “verde” contribuiria para evitar um impacto ambiental negativo, já que não há mercado para tal nível de excedente de glicerina. Outra vantagem do processo de propeno “verde” fica por conta da liberação de grande volume de água de boa qualidade, passível de ser usada na etapa de polimerização ou vendida para consumidores próximos.

As pesquisas finais em andamento envolvem testes de avaliação do biopropeno quanto às especificações adequadas para seu uso em reatores convencionais de polimerização. De acordo com o gerente de tecnologia, Pedro Geraldo Bôscolo, a avaliação visa a comprovar que essas especificações do produto de rota renovável serão convertidas nas mesmas propriedades do propeno convencional, de origem fóssil.

Bôscolo: a indústria está disposta a pagar prêmio pelo selo verde

Com o projeto piloto, a Quattor pretende obter dados mais consistentes tanto do processo quanto dos seus custos. De qualquer modo, o gerente acredita que o biopropeno será competitivo e que diversos segmentos da sociedade estariam interessados na solução e dispostos a pagar um prêmio pelo selo verde, de maior valor agregado. A ambição da empresa não chega a ponto de pretender a substituição plena do PP de fonte fóssil pelo de origem renovável. “A proposta seria de atingir em torno de 10% da produção em PP verde.” Segundo a empresa, as indústrias de embalagens, de cosméticos e farmacêuticas já mostraram disposição para investir no produto.
 

Indústria foca os negócios a favor de desenvolvimentos baseados na sustentabilidade
 

Ambientalistas mais intransigentes, os ecochatos estavam com a razão. Só quando a poluição ambiental beira o insustentável, a discussão em torno de como reverter esse quadro começa a tomar vulto. Nunca se falou tanto em desenvolvimento sustentável, com diretrizes para devolver a saúde à atmosfera, ao solo e às águas, e para economizar os recursos naturais. Nesse contexto, a indústria do plástico, em particular as embalagens, mais visíveis porque flutuam nos rios (os vidros e os metais afundam...), enfrenta uma voracidade crítica. Atacados como o maior vilão ambiental, os polímeros ocupam, contudo, apenas uma fatia no universo de embalagens. Segundo estudos, o impacto proveniente delas é menos da metade do provocado pelos descartes orgânicos. Vale lembrar que o lixo brasileiro é riquíssimo em restos de alimentos: representam 30% dos resíduos. Bom ressaltar, também, que a discussão em torno de um desenvolvimento sustentável deve começar no berço do projeto, antes de qualquer produto ganhar forma.

Para entender um pouco da tão propalada sustentabilidade, o programa Atuação Responsável, da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), implantado no país há dezessete anos, a conceitua como parte integrante do ciclo de vida de um produto, abrangendo toda a sua cadeia de valor, até o consumidor final. Termina na reciclagem ou descarte de resíduos.

O programa da Abiquim vincula empresas importantes da indústria do plástico: Braskem, Quattor, Basf, Solvay Indupa, Dow Química e Innova, entre outras, de um universo atual de 139 companhias químicas e outras sessenta parceiras dos setores de transporte, atendimento a emergências com produtos químicos e de tratamento de resíduos perigosos. Diretor-técnico de assuntos industriais e regulatórios, Marcelo Kós ressalta que participar do Atuação Responsável é condição de filiação à Abiquim desde 1998.
Kós planeja inserir no programa 500 pequenas empresas até 2015

Até hoje, o programa contabiliza, entre outros resultados, redução de mais de 30% na emissão de gases de efeito estufa, queda superior a 30% no consumo de água nos processos industriais e da ordem de 50% menos acidentes de trabalho, de acordo com informações de Kós. Um total de 62 diretrizes abarca gestão completa dos processos das empresas nos aspectos de saúde, segurança, ambiental, proteção empresarial, qualidade e social.

Entre as principais metas para os próximos anos, Kós destaca três. Primeiro: implantar o PreparAR, programa baseado no Atuação Responsável para uso por pequenas empresas químicas não associadas à Abiquim, mas filiadas a sindicatos estaduais da indústria química. A intenção dele é estender o programa a 500 pequenas companhias até 2015. Segundo objetivo: reduzir ainda mais as taxas de acidentes nas empresas; e terceiro, consolidar a aplicação do sistema de auditoria de 3ª parte do Atuação Responsável – VerificAR.

Compromisso antigo – Engajada no programa da Abiquim, a Dow se debruça em busca de respostas para questões tais quais como poluir menos, reduzir o consumo de energia ou elaborar produtos mais seguros, desde 1995. “À época já estabelecíamos metas para 2005”, conta Bruno Pereira, gerente de marketing para embalagens de alimentos e sustentabilidade em plásticos básicos para a Dow na América Latina. Naqueles dez anos, a empresa investiu um bilhão de dólares. Em 2005, o fabricante repensou as suas diretrizes e o foco passou a ser: “Como faço menos mal ao planeta?”

Pereira defende os invólucros poliméricos lembrando que, longe de encarnar um vilão, a embalagem plástica desempenha importante papel como ferramenta para a sustentabilidade e contribui para diminuir outro impacto ambiental menos percebido pela sociedade: o gerado pelos alimentos dispensados, constituintes dos resíduos orgânicos. De acordo com dados do gerente, a análise do impacto da embalagem plástica em toda a cadeia do produto aponta que ela representa apenas 10%, em média.

O conceito de sustentabilidade na embalagem envolve n questões, na opinião de Pereira. A começar por conhecer os hábitos dos diferentes tipos de consumidores, para dimensioná-la apropriadamente; os requisitos de proteção e conservação do produto e, nesse contexto, analisar quais as alternativas de embalagem seriam mais amigáveis ao meio ambiente.
Pereira: a disposição final do produto também pesa no projeto

“É preciso avaliar nesse universo de consumo quais embalagens terão menor impacto ambiental possível e que protegerão o produto até o final”, pondera. A análise ainda vai além: o fim de vida dessa embalagem precisa ser adequado.

Após passar pelo crivo de muitas questões complexas, um invólucro para ser sustentável ainda precisa causar menos dano no seu final de vida. Portanto, também a disposição final no local de consumo pesa na concepção do produto. Essa tarefa ainda enfrenta outra ressalva: o projeto deve ser comercialmente viável. “Cada embalagem terá o material ou estrutura de materiais atendendo a todos os critérios avaliados”, explica Pereira.

Ao contrário do que possa parecer, não é uma meta sustentável reciclar mecanicamente 100% do material, na visão do gerente da Dow. No entender dele, a reciclagem energética pode constituir uma boa saída no país, considerando que o lixo brasileiro é rico em material orgânico. “A energia do plástico é ferramenta para livrar o ambiente de malefícios como a contaminação de solos, provocada pela degradação de resíduos orgânicos”, defende Pereira, em sintonia com a proposta encampada pelo Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos – Plastivida (ver PM nº 395, de setembro de 2007, pág. 18).

O plástico biodegradável emerge como uma solução sustentável. Uma solução, sim, entre outras. Transformar tudo em biodegradável também teria reflexos deletérios no meio ambiente. Para se decompor, o material necessita de um meio adequado para isso: a presença de oxigênio, temperatura da ordem de 40ºC e micro-organismos – e esse ambiente ideal seria o da compostagem.

Outro norte conduz a empresa em trabalhos com a sociedade, com o apoio de entidades de classe. “Uma de nossas principais frentes é disseminar esse conhecimento de como fazer a embalagem funcionar como ferramenta para o desenvolvimento sustentável, é divulgar nosso método, que é uma simplificação do estudo de ciclo de vida de um produto, com a vantagem de ser mais rápido”, declara Pereira.

O primeiro passo da Dow para divulgar esse conhecimento foi firmar uma parceria com a Escola Superior de Propaganda e Marketing. Além disso, a empresa incentivou seus clientes a disseminar o conceito entre seus clientes, ainda que o resultado final premiasse embalagens concorrentes do plástico. “O mais importante para a Dow é o desenvolvimento de uma embalagem sustentável, mesmo que não seja de plástico”, prega Pereira.

As metas para 2015 são corporativas e gerais. Instituem planos específicos para cada unidade da empresa nas áreas de segurança, redução de resíduos e geração de emissões, saúde do funcionário e preservação de recursos. Sobre os dados de 2005, estabelece elevadas reduções nos índices de incidentes de trabalho, de ocorrências de derramamento e rupturas, entre outros.

Rotas semelhantes – O comprometimento com práticas de sustentabilidade também é antigo na DuPont, que promove metas de redução no impacto de suas emissões há longa data. Entre 1990 e 2003, a companhia expeliu 72% menos gás de efeito estufa nas suas operações, mesmo elevando em 33% o seu volume produtivo. “Em 2007 já tínhamos atingido os objetivos previstos para 2010, então a empresa decidiu revisar metas e traçar outras mais agressivas”, diz orgulhoso John Julio Jansen, vice-presidente da área de performance polymers - DuPont América Latina e vice-presidente de P&D para a mesma região. Em tempo: a área de plásticos de engenharia passa por um processo de fusão com a de elastômeros, de onde está nascendo a nova unidade polímeros de performance, e Jansen se prepara para substituir o diretor do negócio de polímeros de engenharia da DuPont América do Sul, Horacio Néstor Kantt, que se despede, para se aposentar.

De volta às novas metas, os projetos da empresa envolvem duas frentes. Internamente, inserem planos de operações para cortar em mais 15% a emissão de gás de efeito estufa (sobre o do número já reduzido) e usar 30% menos água por unidade de produção. Além disso, planeja dobrar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento de produtos e soluções sustentáveis para o mercado.

Pelos desígnios da companhia, projetados até 2015, produtos que auxiliem os clientes a reduzir seus impactos ambientais e emitir menos dióxido de carbono deverão gerar uma receita de dois bilhões de dólares. “Esses produtos equivaleriam a 40 milhões de toneladas de CO2”, compara Jansen. A Dow também promoveu mudanças em seus processos internos. Ainda segundo o executivo, o conceito introduzido em todas as unidades fabris conduz a medidas que visam pôr um termo à geração de efluentes.
Jansen aposta em produtos com impacto ambiental positivo

Voltadas para o segmento do plástico, em particular, as estratégias da Dow focam o desenvolvimento de produtos que embutem fonte renovável ou que causem impacto ambiental positivo. “O importante é gerenciar o impacto total da solução oferecida, desde a sua geração até o seu descarte final”, ressalta Jansen.

Também signatária do programa da Abiquim, a Braskem divulgou em 2002 um compromisso público de sua contribuição para o desenvolvimento sustentável. Três anos depois, foi listada no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bovespa. Todas as suas plantas industriais têm a certificação ISO 14001. Ainda alinhada com esse movimento contra as mudanças climáticas, a empresa assinou o Copenhagen Communiqué on Climate Change.



 

 
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