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Em prol da saúde do Planeta,
a indústria do plástico injeta recursos em fontes renováveis
Maria Aparecida de Sino Reto - Fotos: Cuca Jorge, exceto * divulgação
Sob o mote do desenvolvimento sustentável,
projetos envolvendo investimentos na produção de resinas plásticas por rotas
renováveis – os chamados biopolímeros, como os derivados do etileno obtido
do álcool da cana-de-açúcar –, ganharam corpo nos últimos anos. Segundo
especialistas, uma tonelada de resina verde captura da atmosfera 2,5
toneladas de carbono. O maior comprometimento da indústria em gerar menor
impacto ambiental também estimulou o avanço de produtos biodegradáveis.
Quem saiu à frente nos negócios dos bioetilenos via rota alcoolquímica foi a
Dow, em meados de 2007, quando anunciou com pompa e circunstância a formação
de uma sociedade compartilhada (50% cada) com o grupo nacional
sucroalcooleiro Crystalsev para a criação de um polo alcoolquímico
integrado, destinado a produzir 350 mil toneladas anuais de polietileno
linear de baixa densidade com etileno obtido do etanol da cana-de-açúcar.
Prevista para começar em 2008, a construção do polo ainda não saiu do papel.
Pouco tempo depois do anúncio da Dow, a Braskem obteve certificado
internacional para fabricar polietileno de alta densidade também pela rota
do etanol de cana-de-açúcar. O projeto andou e a previsão de start-up da
planta de 200 mil t/ano, a ser instalada em Triunfo-RS, é o final de 2010.
Antes de comemorar a chegada de 2008, foi a vez da Solvay declarar sua
intenção de produzir PVC igualmente pela rota alcoolquímica. O projeto
consiste numa unidade de 60 mil t de etileno, integrada ao seu parque
industrial em Santo André-SP, capacitando uma produção de 120 mil t de PVC
com essa tecnologia. Inicialmente prevista para 2010, a partida da nova
planta foi adiada para entre 2011 e 2012, em razão da crise econômica
global.
O marketing é forte, mas as resinas “verdes” não constituem exatamente um
ineditismo, como propalado aos quatro ventos, a não ser pela nova conotação
ecológica embutida no termo. A bem da verdade, a produção de resinas
termoplásticas com etileno derivado do álcool da cana-de-açúcar remonta à
década de 60, primeiro com a Union Carbide (adquirida pela Dow). Mais tarde
veio a Eletrocloro, que inaugurou no país, em 1962, uma das primeiras
plantas mundiais de etileno com base no etanol, transformado depois em PVC.
Nesse período, a Solvay produzia polietileno de alta densidade pela rota
alcoolquímica. A matéria-prima vegetal supria a indústria do plástico diante
do minguado e caríssimo eteno petroquímico. A olefina procedente do etanol
deriva de uma reação química – desidratação catalítica –, pouco complexa e
de alto rendimento.
Os primeiros reveses sofridos pela alcoolquímica começaram na década de 70,
com crises de escassez e alto custo para o álcool contra o eteno
petroquímico, já abundante e barato, graças à entrada em operação da
Petroquímica União (PQu). Logo depois, a primeira crise do petróleo injetou
novo fôlego na alcoolquímica. Além de servir à indústria química,
propriamente dita, a rota abastecia na indústria do plástico a produção de
etileno notadamente para a fabricação de PEBD, PEAD e PVC. A indústria
alcoolquímica registrou razoável expansão de seu parque até 1984, sustentada
por um insumo nacional e por preços favorecidos, competitivos com a nafta
petroquímica. Depois disso, o álcool perdeu os subsídios e deixou de ser
financeiramente atrativo.
Hoje, as empresas envolvidas com os projetos de etileno batizado “verde”,
por sua origem vegetal, explicam que o processo avançou na catálise e na
conservação de energia, alcançando melhores índices de conversão e de
escala.
Questão de apuração – No caso da Solvay Indupa, o investimento na
produção do PVC via rota etanol contempla uma nova tecnologia de
desidratação, mais eficiente energeticamente e com melhor rendimento em
etileno, informa Édison Carlos, da comunicação e assuntos corporativos.
“Ainda não definimos qual volume efetivamente produziremos no início. Vai
depender das negociações com clientes e da aceitação pelo mercado.” Clientes
ligados à construção civil, à indústria automobilística e à de bens de
consumo já mostraram interesse no produto.
A Braskem aproveitou parte do conhecimento tecnológico advindo da antiga
instalação (já desmontada) de etileno da Salgema, uma das empresas
incorporadas pelo grupo, e adicionou os aperfeiçoamentos obtidos em seu
próprio laboratório. “Essa tecnologia foi modernizada e melhorada para
garantir, primeiro, que o eteno possa ser polimerizado em qualquer das
tecnologias existentes atualmente para a produção de polietileno e, segundo,
para que a produção seja em escala industrial”, explica Leonora Novaes,
gerente-comercial do projeto PE verde da Braskem.
A empresa recebeu no começo deste ano, da Fundação de Proteção Ambiental (Fepam),
a licença de instalação (LI) autorizando o início do processo de construção.
Os equipamentos críticos do projeto, como compressor de gás de carga e
compressor de trem frio, já foram encomendados, a fim de garantir o
cumprimento do cronograma. A estrutura de concreto (pipe rack) que suportará
toda a tubulação da planta também foi concluída. “A finalização dessa
estrutura é um marco importante para a continuidade das instalações da
unidade no polo”, comemora Leonora. Segundo ela, nos próximos meses, serão
adicionadas as tubulações e também outros equipamentos que permitirão o
processo de conversão do etanol em eteno “verde”, mediante uma reação de
alta temperatura e pressão.
Se tudo correr conforme programado, a planta entra em operação no último
trimestre de 2010. Os recursos destinados ao projeto somam aproximadamente
R$ 500 milhões e asseguram linhas diferenciadas de produtos, que já
conquistaram, antecipadamente, alguns contratos de fornecimento. Brinquedos
Estrela, Shiseido, Petropack, Johnson & Johnson, Acinplas e Tetra Pak já
fecharam negócios com a Braskem.
A empresa argentina Petropack, atuante na área de filmes flexíveis, pretende
empregar a resina verde em toda a sua linha de produção. A Tetra Pak
aplicará o novo polímero na fabricação de tampas e lacres. Em volume
equivalente a 5% de sua demanda total de polietileno de alta densidade, a
conhecida empresa de embalagens longa vida irá adquirir 5 mil toneladas
anuais da resina obtida de fonte renovável.
A fábrica de Triunfo deverá entrar em operação com cerca de 70% da
capacidade já contratada, mesmo com o pagamento de prêmio, um adicional no
preço. “Graças à sua origem renovável, o PE verde agrega valores
sustentáveis aos produtos com ele elaborados”, justifica Leonora. Na
avaliação dela, as resinas fabricadas pela rota alcoolquímica são
competitivas em termos de custos e comercialização, nos cenários atuais de
economia, tecnologia e legislação, com a cotação do petróleo acima de US$ 45
o barril.
A Braskem divulgou recentemente ter identificado demanda de 600 mil
toneladas anuais para o PE verde. As projeções alentadoras levaram a empresa
a cogitar a hipótese de construir uma segunda fábrica pela rota
alcoolquímica, em escala mundial, entre 350 mil e 450 mil toneladas anuais,
antes mesmo de viabilizar a produção de PP ou PVC via etanol.
A propósito, a empresa divulgou nota informando sobre nova parceria com a
Novozymes, considerada líder mundial na produção de enzimas industriais, no
campo de estudos para o desenvolvimento de polipropileno também com base na
cana-de-açúcar.
A intenção da Braskem e da Novozymes é desenvolver uma alternativa verde
para o polipropileno, baseada na tecnologia de fermentação da Novozymes e na
expertise da Braskem em processos químicos e termoplásticos. Os resultados
iniciais são esperados em prazo mínimo de cinco anos.
Segundo dados da Braskem, o polipropileno é a segunda resina termoplástica
mais utilizada em âmbito mundial: o consumo atingiu 44 milhões de toneladas,
em 2008. O mercado é estimado em US$ 66 bilhões, com um crescimento anual de
4%.
A Novozymes já é parceira da Braskem na produção de enzimas para transformar
resíduos agrícolas em biocombustíveis avançados e firmou acordo também para
fazer ácido acrílico com matérias-primas renováveis.
Em prol do álcool – Em décadas passadas, a falta de competitividade
do álcool em relação à nafta petroquímica levou a indústria a deixar de lado
a biotecnologia e optar pela nafta. O setor acredita que não corre mais tais
riscos, mesmo perante as oscilações no preço do petróleo.
| A finitude do
insumo fóssil, a preocupação global com as emissões no meio ambiente e a
larga escala que alcançou a atual produção brasileira de álcool conferem às
indústrias segurança para investir nos projetos baseados no bioetileno. “O preço do petróleo nunca mais será de 20 dólares o barril; há
sustentabilidade da rota”, pondera Carlos, da Solvay. Ele ainda lembra que,
diferente dos dias atuais, a competitividade do etanol no final da década de
70 e início da de 80 se sustentava em subsídios governamentais (programa
Proálcool). Na opinião dele, o desenvolvimento de tecnologias mais
eficientes e alternativas aumenta a disponibilidade de energia e etanol a
custos mais atraentes. “A sustentabilidade desta rota, sobretudo no Brasil,
é uma das principais vantagens e, no caso da Solvay, é também uma decisão
estratégica, pois nos permite aumentar a capacidade sem depender da rota
petroquímica”, declara. |
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| Carlos: o volume de produção inicial ainda não foi
definido |
Além de oferecer insumos baseados em fontes renováveis, a rota alcoolquímica
embute outro benefício de peso: “O carbono que compõe um polímero produzido
com base no etanol procede da atmosfera, enquanto o da rota petroquímica
veio do subsolo; ao final do ciclo de vida, o carbono emitido pelo primeiro
não será adicional ao que existia na atmosfera antes do polímero ser
produzido, bem diferente do caso da resina obtida do petróleo”, compara
Carlos.
Leonora valoriza igualmente a contribuição da resina de origem alcoolquímica
para a captura de carbono do ambiente. “Os esforços da Braskem para o
desenvolvimento sustentável estão alinhados com os conceitos da economia de
baixo carbono, que valoriza iniciativas e negócios de baixa emissão como
forma de colaborar na redução dos efeitos de mudança climática.” Ela ainda
lembra outro ponto a favor das resinas ditas verdes: o fato de esses
produtos possuírem as mesmas características dos de origem fóssil, isentando
o transformador de mudanças em seus equipamentos. “Não exige qualquer
adaptação da cadeia produtiva.”
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