Ácido poliláctico compõe novo pote biodegradável

A Bunge reforça a onda verde e lança embalagem feita de resina biodegradável proveniente de fontes renováveis. A multinacional alega ser a primeira desse tipo no mercado brasileiro de alimentos industrializados.

O material escolhido para a novidade é o ácido poliláctico (PLA), um poliéster termoplástico obtido da fermentação de polissacarídeos, ainda pouco conhecido no Brasil, mas já utilizado com sucesso em outros países, em particular nas embalagens japonesas de ovos. Por aqui, o PLA será utilizado na embalagem do creme vegetal Cyclus Nutrycell, e a Bunge pretende empregar o biopolímero em todos os recipientes dessa linha de produto.

Cuca Jorge

Creme vegetal estrela embalagem diferenciada

O parceiro da multinacional dos alimentos na empreitada é a NatureWorks LLC, uma empresa pertencente à Cargill que fabrica o PLA Ingeo, obtido de amido de milho. Apesar das aplicações para o ácido poliláctico estarem lentamente penetrando no mercado mundial, o polímero peca pela rigidez um pouco alta. A Bunge até chegou a considerar outros materiais para a aplicação na embalagem de seu creme vegetal, incluindo o poliidroxibutirato (PHB), que conta com produção local, mas as alternativas se mostraram inviáveis por sua baixa escala de produção.

Segundo Hélio Issamu Kinoshita, dá área de pesquisa e desenvolvimento em embalagens, a Bunge e seu parceiro ainda devem tentar melhorar a flexibilidade do PLA, que, na aplicação idealizada pela empresa de alimentos, substitui o PP. A mudança requer algumas modificações dos parâmetros de operação, porém sem alterações drásticas no maquinário utilizado na produção da embalagem.

Controvérsia – Conforme as palavras de Adalgido Telles, diretor de desenvolvimento sustentável e marketing corporativo e comunicação da Bunge, a companhia buscava formas de melhorar seu desempenho socioambiental, e se concentrou em quatro áreas em que poderia ser mais efetiva: agricultura sustentável, efeitos climáticos, dietas saudáveis e disposição de resíduos. Dentro da iniciativa, surgiu o interesse pelo biopolímero biodegradável. Sob esse prisma, é indiscutível a importância da busca por matérias-primas com base em fontes renováveis, caso do PLA. Pela análise de ciclo de vida do PLA produzida pela NatureWorks, o biopolímero, em sua caminhada “do berço ao túmulo” (isto é, desde a extração de suas matérias-primas até sua disposição final), consome entre 62% e 68% menos recursos de origem fóssil que plásticos tradicionais.

O uso de polímeros biodegradáveis como alternativa para o problema de resíduos sólidos, no entanto, está muito longe de ser uma unanimidade nos meios acadêmicos.

Embora o PLA possua biodegradabilidade certificada segundo as normas ASTM D-6400 e EN-13432, essas diretrizes apenas garantem sua degradação (no espaço de 180 dias) em condições de compostagem. Em um lixão a céu aberto, destino mais provável de uma embalagem no Brasil, há muitas dúvidas se o material realmente se degradaria. Além disso, nos aterros costuma ocorrer a degradação anaeróbica, que, em vez do gás carbônico (CO2) gerado na degradação aeróbica, produz metano (CH4), cuja contribuição para o efeito estufa é muito mais intensa. Adicionalmente, muitos acreditam que a reciclagem dos plásticos, prolongando o uso dos materiais, seria uma alternativa melhor que sua degradação. Kinoshita, da pesquisa e desenvolvimento da Bunge em embalagens, lembra que o PLA é reciclável. Sobre a questão das embalagens produzindo metano em lixões, ele afirma que isso já acontece com o material orgânico hoje disposto nos aterros. Aumentar essas emissões adicionando embalagens biodegradáveis ao lixo seria, na visão dele, uma forma de pressionar o poder público a regularizar os aterros.

Outro ponto importante que o marketing verde da Bunge não destaca é o fato de a embalagem de PLA usar tintas não-degradáveis, pois as que se biodegradam são pouco estáveis. O revestimento, desse modo, remanescerá no solo, mesmo após a biodegradação da embalagem, embora a tinta seja atóxica, como diz Kinoshita, da área de P&D.

Márcio Azevedo

 

 

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