Fabricantes investem em inovações para impor alto padrão
de qualidade ao setor


Renata Pachione

S
er um mero fornecedor de commodities parece não estar nos planos de alguns fabricantes de masterbatch, pelo menos daqueles interessados em mostrar seu comprometimento com o fomento do mercado. Essas empresas buscam ir além do básico e

profissionalizar o setor, impondo um alto padrão de qualidade. Os números dizem pouco sobre a produção nacional, porém, mais do que toneladas ou porcentagens, os desenvolvimentos inovadores de cada companhia refletem aonde se quer chegar e ajudam o consumidor a distinguir o joio do trigo.

A receita para o desenvolvimento de um masterbatch pode até ser simples, como a de um bolo. Em meio a uma infraestrutura mínima de extrusora e peletizadora, a adição de agente dispersante e pigmento ou aditivo a uma resina veículo parece ser o suficiente. Até seria, se o produto escolhido fosse commodity. No entanto, ser mais um não tem interessado tanto. Quem dispõe de recursos, não hesita em focar a fabricação de produtos técnicos, a fim de fazer a efetiva diferença.

Qualidade à prova – O cliente hoje demanda o desenvolvimento de masterbatches avançados para atender a todos os requerimentos, e ainda com propriedades capazes de tornar o processo mais robusto e rápido. Por isso, os esforços dos industriais passam pela criação de um master que contemple os requisitos de cor, mas também de dispersão, homogeneidade e estabilidade dimensional, além de alto desempenho no processo e consistência lote a lote. Isso sem contar itens mais difíceis de mensurar como a confiabilidade, a agilidade e a compreensão exata das reais necessidades do comprador.

Uma parcela, estimada em menos de 10% de um universo de cerca de 150 fabricantes, se concentra na formulação de inovações, produtos que não se restringem a conferir só cor ao transformado, mas também a agregar tecnologia. Porém, independentemente desse item a mais, as indústrias, de modo geral, têm a obrigação de abastecer o mercado com concentrados de qualidade. De acordo com o gerente de marketing da Divisão de Masterbatches para América Latina da Clariant, Roberto Guzmán, no mínimo, o master tem de entregar a cor desejada ao cliente, evitando os problemas potenciais, como a falta de cobertura, linhas de fluxo, pontos, variação da cor, subtons e metamerismo. A seleção dos pigmentos também é muito importante e reflete a ética e a responsabilidade de cada fabricante de masterbatch no sentido de evitar produtos com metais pesados. Em outros níveis, está a questão da aparência em relação a brilho, textura, transparência e efeitos especiais.

Cuca Jorge

Guzmán emprega recursos em formulações diferenciadas

Além disso, como a transferência de cor representa apenas uma das interferências do master em uma resina, ou seja, no processamento, podem ocorrer possíveis alterações nas propriedades físicas e químicas da resina e do produto final, mesmo que o veículo seja compatível com a resina principal, torna-se fundamental que o concentrado tenha a capacidade de não provocar contração, empenamento ou perdas de propriedades mecânicas, como impacto e flexibilidade. “Adequar a formulação para a resina ou processo específicos e, às vezes, até para a máquina específica, é um grande desafio, que se torna ainda maior quando consideramos as necessidades da indústria de reduzir custos e aumentar a produtividade”, explica Guzmán.

Em suma, em algumas aplicações, exige-se também uma consideração especial do fabricante em relação ao uso final da parte feita com o masterbatch, para se evitar possíveis efeitos negativos. Guzmán exemplifica: “A compatibilidade química do master com um produto de limpeza envasado em garrafa de plástico colorido, a migração de um aditivo para a superfície de um filme que afeta a impressão, ou ainda, a presença de ingredientes que transferem gosto a bebidas e alimentos são problemas que podem ser evitados com a correta formulação do concentrado”.

O conhecimento técnico dos seus profissionais e uma detalhada avaliação para o uso de resinas veículo compatíveis com as características das resinas de aplicação auxiliam a Cromex na oferta de produtos capazes de não alterar, negativamente, o produto final. Na empresa, a qualidade é vista com base em dois quesitos: a homogeneização e a dispersão. O primeiro item significa ter boa distribuição de cor e, portanto, uniformidade na peça transformada, enquanto a dispersão se refere à quebra de partículas no pigmento. “Uma boa homogeneização, mas com dispersão inadequada resulta em uma peça homogênea em cor, porém com pontos visíveis. Uma dispersão ruim, mas com uma homogeneização adequada, em manchas ou marcas de fluxo”, diz o diretor-comercial da Cromex, Cesar Ortega.

Para minimizar as alterações nas propriedades físicas da resina e do produto final, faz-se necessário compreender as necessidades dos clientes, o tipo de resina e qual a composição e destinação do transformado. Assim, em linhas gerais, o fabricante precisa oferecer um masterbatch em condições de se enquadrar perfeitamente ao uso pretendido pelo usuário. Outro desafio é o de manter uma política de lançamentos constantes de linhas com benefícios superiores aos da média. Para a analista de marketing da Ampacet, Debora Cecília Costa, a produção de masterbatches com altas concentrações reflete essa postura. “Significaria que os clientes usariam menos produtos para conseguir os mesmos resultados”, diz.

Automação no setor - Processos cada vez mais controlados e limpos sustentam as perspectivas de que o mercado está interessado em qualificar melhor a sua produção. Os fabricantes procuram se munir de bons fornecedores, tanto de matéria-prima quanto de maquinário. E a escolha da extrusora e dos periféricos tem sido fundamental. Nesse caso, descontando o design e a configuração da rosca, para Guzmán, a confiabilidade e a durabilidade são as características que fazem uma grande máquina. “Não tem nada pior do que um modelo que não consiga reproduzir um ótimo desempenho, lote por lote, ou que quebre no meio da produção”, explica.

Na norte-americana Techmer - Polymer Modifiers, a extrusora precisa ter sido projetada para ser versátil. Às fabricantes de masters, são solicitados desenvolvimentos de produtos diferentes e, sem uma extrusora com estrutura para diversificar sua produção, não há como maximizar o carregamento e oferecer a variedade exigida. No entanto, para o gerente de produção da Techmer PM, Craig Burnett, não depende da extrusora o sucesso do negócio. “O nosso produto é diferenciado pela metodologia de formulação”, comenta. Na brasileira Cromex, a automação é ponto-chave na aquisição das máquinas. Os projetos priorizam desde abastecimento, dosagem, extrusão e sistema de corte, até ensaque/peletização. “Tentamos maximizar a produtividade e a qualidade, com custos reduzidos”, afirma Ortega. No geral, o bom desempenho de um modelo tem a ver com sua produtividade, qualidade em incorporação e dispersão, alta velocidade de rosca, alto torque e resistência ao desgaste, além de segurança e ergonomia, controle de processo (CLP)

Cuca Jorge

Ortega: automação dos processos é fundamental

e mínimo consumo energético. Segundo Burnett, tão importante quanto a extrusora, se não mais, são os equipamentos periféricos como misturadores e granuladores, pois podem destruir o produto ou transformá-lo em sucesso.

Quanto à nacionalidade das máquinas, há unanimidade: a tecnologia europeia, sobretudo a alemã, ainda está à frente das outras. Para o diretor-executivo da Mash Compostos, Sérgio Dulcini, os grandes produtores nacionais se voltam mais para a transformação e não para a produção de matéria-prima. “Há pouco interesse nacional na fabricação de máquina para a produção de master e composto, porque a manufatura é um mercado maior e por consequência mais rentável”, observa Dulcini. Em tempo, a escolha da Mash se dá por modelos europeus.

Inovação em foco – O caminho para a formação de companhias sérias e comprometidas com o setor, como se nota, tem a ver com a busca por tecnologia e produtos de qualidade, além de uma infraestrutura de ponta. O discurso impressiona, porém é preciso levá-lo à prática. A suíça Clariant tem um exemplo com sua linha de masterbatches antimicrobiais. A crescente preocupação da sociedade em relação à disseminação de doenças por contágio suscitou a companhia a desenvolver esses produtos. A criação se baseou no entendimento do tipo de proteção solicitada, do nível de uso recomendado, das provas microbiológicas para demonstrar como o produto funciona e dos testes de aplicação final.

Em outras palavras, esse tipo de desenvolvimento embute investimentos muito substanciais – não revelados pelo fabricante – e vai além da intenção de somente angariar cifras ao faturamento da empresa, pois transmite a perspectiva de efetivamente trazer inovações à indústria de masterbatches. “Para isso, foi preciso investir em um laboratório microbiológico, contar com pessoal capacitado, trabalhar com o cliente no desenvolvimento e criar os métodos para validar os resultados”, afirma Guzmán. Ou seja, uma boa ideia não é suficiente: os investimentos precisam ser constantes e estar em sintonia com o mercado.

A Clariant só no último ano montou três plantas de masterbatches líquidos na América Latina, comprou sopradora para embalagem de multicamada, e extrusora dupla-rosca para seu laboratório de desenvolvimento, além de ter lançado uma série de masters de origem natural. A Techmer PM também adotou uma política agressiva de investimentos. Funcionários estão sendo contratados e soluções específicas para cada cliente são apresentadas ao mercado. A norte-americana Ampacet tem apostado suas fichas em equipamentos industriais de vanguarda bem como em semi-industriais. No âmbito nacional, a história não é muito diferente. A líder de mercado Cromex assumiu como estratégia recorrente investimentos em sistemas, maquinário e pessoal capacitado. Há pouco tempo elevou a capacidade de 1,2 mil t/mês na fábrica de masterbatch preto para 2 mil t/mês. Nem precisa estar no topo do ranking para focar a diferenciação: outros fabricantes, como a Cristal Master, a Mash Compostos, a Pro-Color e a Colorfix, cada um à sua maneira, tentam concretizar as vendas com argumentos pautados nos benefícios de seus produtos e não somente nos preços.

“Inovação é a invenção levada à prática”, assim define Guzmán. Também por isso, a Clariant dispõe do ColorForward 2010, recurso com o qual é possível antever as tendências de cores a ser utilizadas no próximo ano, e, há algum tempo, adotou o ColorWorks, uma ferramenta para apoiar projetos de desenvolvimento de soluções, desde a definição do conceito até a fabricação do produto final, hoje integrada a outros centros existentes na Itália, Taiwan, Cingapura e Estados Unidos.

 

 

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