Cuca Jorge


Setor reagiu rápido aos reflexos
da crise e já arquiteta saídas
para robustecer toda a cadeia


Maria Aparecida de Sino Reto

Sem suspeitar da imensa tempestade que avassalaria a economia do planeta pouco tempo depois, a indústria petroquímica brasileira fez a lição de casa, como dizem os especialistas, e concluiu, no ano passado, o seu processo de consolidação, que conferiu ganhos de escala e maior musculatura competitiva em âmbito global aos fabricantes de resinas termoplásticas. O momento não poderia ter sido melhor. Fortalecida, a cadeia ganhou flexibilidade e fôlego para uma reação rápida perante os reflexos do que supostamente seria uma “marolinha”, mas virou um vagalhão.

Ainda que favorecido pela desvalorização da moeda brasileira, em dezembro o setor já escoava para o mercado internacional volume acentuado do seu excedente produtivo, gerado pelo forte recuo na demanda doméstica, conseguindo manter o nível de sua capacidade instalada. O patamar de exportação de resinas em setembro era de quase 71 mil toneladas, segundo os dados da Comissão Setorial de Resinas Termoplásticas (Coplast) da Abiquim. Caiu para cerca de 45 mil t em outubro, subiu para algo em torno de 50 mil t em novembro e deslanchou para 79 mil t em dezembro.

O processo, necessariamente, contínuo e a larga escala das petroquímicas dificultam o ajuste de produção ante as baixas acentuadas na demanda, como ocorreu com as resinas brasileiras. Despencou mês a mês, após o fatídico setembro. Só deu sinais de recuperação em fevereiro, quando a queda se revelou menos brusca. Na comparação com iguais meses do ano anterior, o consumo recuou 5% em outubro, 19% em novembro, 24% em dezembro e 26% em janeiro, na avaliação do presidente do Sindicato da Indústria de Resinas Plásticas (Siresp) e também presidente da Quattor, Vítor Mallmann. Em fevereiro, o tombo foi menor: 12%. Ele agora começa a vislumbrar um novo patamar de demanda a partir de março e abril, com um outro nível de atividade econômica, sem a contaminação pela realização de estoques.

“A crise global e a escassez de crédito provocaram um efeito de forte desestocagem na cadeia do plástico no Brasil e no mundo”, ressalta Luiz de Mendonça, vice-presidente-executivo e responsável pela unidade de polímeros da Braskem.

As discussões na feira – É um consenso que o tom da feira será dado em torno de como fortalecer todos os elos da cadeia produtiva do plástico. Esse novo patamar de demanda e um novo balizamento de preços, mencionados pelo porta-voz do setor, devem conduzir os debates nos corredores da Brasilplast, uma oportunidade para intensificar a relação entre fornecedores e clientes. O presidente do Siresp acredita que a feira servirá de palco para entabular conversas com a transformação em torno de como superar a crise e criar oportunidades de negócios, e ainda, em como manter toda a cadeia produtiva competitiva e assegurar as exportações dos produtos transformados.

Pensam como Mallmann os principais atores da segunda geração petroquímica, entre eles Mendonça. Na visão do vice-presidente-executivo da Braskem, o tema predominante será o fortalecimento da cadeia brasileira do plástico. Em segundo plano, estará em pauta a competitividade das exportações brasileiras. Além disso, os corredores da Brasilplast também servirão de palco para discussões sobre a sustentabilidade, com foco nos desenvolvimentos “verdes”.

Na opinião de Mendonça, assim como a indústria petroquímica buscou a consolidação, a transformação também tem oportunidades em sua reestruturação de operar com maior eficiência e ocupação de suas capacidades. “Pode atender com inovação e serviços os seus clientes no mercado interno, e ser competitiva para aproveitar oportunidades na exportação.”

Na opinião de Rui Chammas, integrante da Coplast e também diretor (do negócio de PE) da Braskem, os empresários do setor comparecerão a esta Brasilplast com uma visão mais integrada da cadeia, com foco em buscar novidades e diferenciações. “Precisamos sair dessa crise mais fortes do que quando entramos; os empresários devem buscar ações para sair mais fortalecidos”, declara. Ele acredita ser fundamental a discussão entre todos os elos do setor, uma maior proximidade com o transformador, com a Petrobras e com o governo, a fim de tornar a indústria do plástico mais competitiva. “É preciso criar valor, diferenciais que gerem riquezas para a cadeia como um todo.”

Claro que a crise será o pano de fundo de todas as discussões. “A volatilidade de preços, capital de giro e ações governamentais para aquecer a economia deverão estar em alta durante o evento, que é muito esperado em toda a América Latina”, concordam Jose Manuel Sanchez e Eide Francisco Garcia, o primeiro, gerente da área Product & Marketing para a América Latina da Americas Styrenics, e o segundo, da Product

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Chammas: empresários devem sair mais fortalecidos da crise

& Marketing de PEAD Slurry/Gas Phase da Dow para a América Latina. A Americas Styrenics é uma joint venture entre a Dow Chemical e a Chevron Phillips, constituída em maio do ano passado. A nova empresa soma a maior produção de poliestireno do hemisfério ocidental.

Atuante nesse mesmo segmento de mercado, o diretor da divisão de estirênicos para a América do Sul da Basf, Andreas Fleischhauer, participa da feira com expectativas de discussões também mais direcionadas ao seu setor: o impacto da crise nas indústrias, em particular os fabricantes de bens duráveis; as perspectivas para os próximos anos do setor automotivo; além da apresentação de novidades nanotecnológicas pertinentes à área. “Toda crise gera oportunidades de negócio e, afinal, as empresas precisam encontrar opções mais competitivas para sobreviver neste novo ambiente”, avalia.

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Fleischhauer vê na crise oportunidade de negócios

Novos parâmetros – A crise fez evaporar as referências do mercado. A cotação do barril de petróleo retomou níveis abaixo dos US$ 50, os preços das resinas despencaram e o mercado partiu para o estoque. “Ao mesmo tempo, houve um impacto efetivo na demanda, o que caracterizou um novo patamar, ainda indeterminado”, afere Mallmann.

Na mesma sintonia do presidente do Siresp, o coordenador da Coplast, Alfredo Tellechea, pondera que a crise financeira operou como um redutor na economia e estabeleceu novos patamares. “Com a regularização dos estoques na cadeia produtiva, percebemos uma leve reação em alguns setores. Nossa expectativa é de que esse movimento cresça nos próximos meses.”

Após os efeitos mais agudos da crise, as vendas de resinas no mercado interno reagiram. O volume comercializado internamente totalizou 438 mil toneladas no primeiro bimestre deste ano, quantidade 2,5% maior sobre a soma de novembro e dezembro de 2008, de acordo com levantamento da Coplast. Quando comparado o primeiro bimestre de 2009 a igual período do ano passado, porém, o resultado é de recuo: 21,6%.

As exportações aliviaram o problema do excedente doméstico e totalizaram 242 mil toneladas nos dois primeiros meses de 2009, uma expansão de 86,4% na comparação com o último bimestre do ano passado e de 80,2% ante o mesmo período de 2008. As importações cresceram 1,3% em relação aos dois últimos meses do ano passado, porém, encolheram no comparativo com janeiro/fevereiro (9,6%). Comparada ao mesmo período de 2008, a produção declinou 20%, mas, em relação a novembro e dezembro, cresceu 3%, atingindo volume de 640 mil toneladas.

A aferição efetuada pela Coplast no acumulado de janeiro a dezembro do ano passado revelou um consumo aparente acima de 4,7 milhões de toneladas de resinas termoplásticas, um salto de 8% comparado a 2007. As paradas programadas para manutenção e ampliações de capacidades em todos os polos produtivos incidiram na redução de 6,9%, registrada na produção sobre os períodos confrontados. Por conta do mesmo motivo principal, também as exportações deprimiram 31,8%, enquanto as importações expandiram 47,4%.

 

 

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