Seminário traça panorama e tendências do compósito

A Associação Brasileira de Materiais Compósitos (Abmaco) aposta na propagação de conhecimento para aprimorar esse setor. Prova dessa postura se concretizou em 18 de março com a realização, em São Paulo, do seminário Cenário Brasileiro: Desafio e Perspectivas sobre Gestão de Crise. As palestras abordaram o desempenho da indústria de compósitos em 2008 e as tendências dos mercados nacional e mundial para este ano. Na ocasião, foram discutidos ainda os segmentos de transportes e o da construção civil, além de temas econômicos, como métodos para obtenção de financiamento no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e na Financiadora de Estudo e Projetos (Finep) e formas de planejar a empresa para 2009 e 2010.

O seminário começou com o gerente-executivo da Abmaco, Paulo Camata. Ele ressaltou alguns feitos recentes do setor, como o avanço das aplicações do compósito na construção civil, citando a fabricação de casas populares e de postos policiais, instalados em Brasília. A aprovação, em 2008, de três normas na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) em tubulação também foi encarada como comprovação do crescimento do material. Em relação às oportunidades de mercado, destacou a bioengenharia, a indústria naval e a energia eólica – no caso desta última, enfatizou que o Brasil é um dos maiores exportadores de pás eólicas. O gerente falou ainda sobre o interesse da entidade em investir no conhecimento. Como exemplos, apontou a atuação do Centro Tecnológico de Compósitos (Cetecom), que promove aulas de capacitação profissional; os cursos de especialização em compósitos adotados por três faculdades brasileiras e o lançamento do livro “Compósitos 1 - Materiais, Processos, Aplicações, Desempenhos e Tendências”. Sobre o último tema, aproveitou para divulgar que uma segunda obra está sendo preparada e terá como foco processos e cases de sucesso.

Ao vislumbrar o futuro, enfatizou os planos da associação de ter representatividade em nível nacional, e o lançamento do primeiro Programa Abmaco de Qualidade. Camata entende que um dos principais objetivos para os próximos anos se dará quanto à reciclabilidade do compósito. “O projeto reciclagem é o grande desafio para nós”, comentou. Segundo ele, hoje o setor perde R$ 90 milhões por ano, por causa do desperdício do material. Por enquanto, dezessete empresas já fazem parte do Programa Nacional de Reciclagem, que prevê investimento de R$ 2 milhões. Outro destaque da palestra se referiu ao PAQ Telhas, programa responsável pela certificação das telhas, conforme a norma ABNT NBR 140115. “Nosso objetivo é elevar a qualidade do produto, com a implantação de um selo”, disse. Ao todo, também são dezessete empresas participantes.

Representando a diretoria da Abmaco, Luiz Orro discorreu sobre o mercado de transporte. Ele se recusou a dar os números de 2009. “É difícil falar, é tudo observação e tendência, com a possibilidade de falhas”, afirmou. No entanto, está certo de que os dois anos anteriores foram bons parâmetros para o setor, sobretudo por causa do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), responsável por 80% do crescimento de 2007 e 2008, e porque o crédito sustentou os investimentos. “A população C/D teve acesso ao crédito e movimentou o consumo”, completou. Na visão de Orro, porém, o cenário econômico global não irá melhorar até 2010, haverá redução de linhas de crédito e desaceleração do mercado mundial. No caso brasileiro, o PAC deverá continuar funcionando como mola propulsora. “O PAC é uma possibilidade de solução para os próximos anos”, anunciou.

De acordo com ele, há um cenário vasto de oportunidades de negócios para o mercado dos compósitos. O sistema metroviário de São Paulo, por exemplo, apresenta o maior nível de ocupação do mundo, com 10 milhões de passageiros por linha. No caso dos ônibus, esse é o sistema de transporte mais utilizado nas cidades brasileiras de grande e médio porte. Para se ter uma ideia do potencial do mercado, em unidade de ônibus, entre 2007 e 2008 houve crescimento de 12%.

Waldomiro Moreira, coordenador de vendas e marketing da divisão de resinas da Elekeiroz, optou por trazer à tona os temas tecnologia e sustentabilidade. Para tanto, escolheu um case vencedor: o do Cenpes Petrobras, na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro. Trata-se do projeto de um pavilhão para laboratório de realidade virtual – CRV - prospecção, extração e logística de transporte de óleo e gás em plataformas petrolíferas de alta profundidade. De acordo com ele, os compósitos se mostraram a melhor alternativa, no quesito eficiência ecológica, como o material de menor consumo de energia e reduzida emissão de poluentes ao ambiente. O projeto existe há mais de dez anos, no entanto, agora está em fase de execução.
Para falar de financiamentos, a Abmaco chamou Flávio Fachinelli, da Intelligenza – Consultores Associados. Segundo ele, independentemente de se tratar do BNDES ou da Finep, o projeto deve conter uma boa ideia, expressa de forma clara e adequada. Os itens parecem óbvios, mas o consultor enfatizou que muitos se esquecem de detalhes fáceis de serem percebidos. Também explicou ser importante saber quem o analisará, pois de acordo com o profissional em questão a linguagem varia. É importante voltar atenções especiais ao balanço e aos balancetes, explicar as contas que apresentarem números fora do padrão e registrar projeções baseadas em dados confiáveis. Em sua palestra, ele ofereceu ao público o que denominou de “Big Dicas”, como: reunir o máximo de informações possíveis no momento de formatar o projeto; conversar com o gerente da conta e solicitar informações sobre os itens financiáveis, e pensar no financiamento como um projeto de longo prazo, entre outros.

O consultor Marcio Danielewicz, da Analystem - Gestão em Produtividade, proferiu a palestra: Repensando sua empresa para 2009/2010”, na qual refletiu sobre a postura das empresas dentro do cenário econômico mundial e nacional. Ele discorreu acerca da necessidade de a indústria rever e implantar um modelo de gestão eficaz, direcionado a resultados. Como síntese, deixou a mensagem: “Não podemos esquecer que, em toda crise, os vencedores serão aqueles empresários e executivos antenados, que aproveitarão as oportunidades que, mesmo sendo poucas, existirão.”

Mercado – Mesmo com a proposta da Abmaco de manter contínuo o programa de disseminação do conhecimento sobre o compósito, esse setor não passou incólume à crise. Essa indústria iniciou o ano com produção 30% abaixo da média do ano passado, mas para o presidente da Abmaco, Gilmar Lima, o mercado irá crescer a partir do segundo trimestre e deverá chegar a 190 mil toneladas até dezembro. Segundo dados da associação, o segmento de materiais compósitos, no entanto, encerrou 2008 com crescimento de 13,3% em relação a 2007. O faturamento do setor foi de R$ 2,22 bilhões perante R$ 1,96 bilhão no ano anterior, e a produção atingiu 184 mil toneladas, contra 158 mil toneladas. De acordo com o gerente- executivo Camata, a previsão era de avançar 18%, porém a estimativa foi afetada pela crise. Para encerrar 2009, ele é um pouco mais conservador, pois estima aumento de 4,8% em faturamento. Até porque o desempenho do setor no primeiro trimestre de 2009 será 25,9% menor em relação a igual período do ano passado. Ele previu que o setor de transporte pouco empolgará neste ano, com queda de 8%. A construção civil e a energia eólica, segundo projeção, tendem a manter os mesmos níveis.

O setor de transporte (automotivo, aéreo, marítimo e ferroviário) liderou a aplicação de compósitos, com 30%, em 2008. Em segundo lugar, figurou a construção civil, com 26%, que usa o compósito na produção de coberturas, perfis, tanques, piscinas, caixas-d’água, banheiras e telhas, seguido por energia eólica (18%), náutico (9%), corrosão (8%), lazer (5%), elétrico (2%) e outros com 2%, de acordo com dados da Abmaco.

Renata Pachione

 

 

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