Essa ideia embute outra questão: pelo menos por enquanto, as embalagens cosméticas estão fadadas aos processos de um estágio (ciclo quente), em que a máquina injeta a pré-forma, que é soprada em seguida. Os processos de dois estágios (ciclo frio – a pré-forma é produzida numa injetora e soprada em outra máquina) ainda não são usuais por parte da indústria de cosméticos. “Os volumes desse segmento são pequenos comparados aos do refrigerante, do óleo comestível e da água, além disso, trata-se de um mercado fragmentado”, explica Contesini. De qualquer maneira, tanto o mercado do PET como o do cosmético têm muito a ganhar com o fortalecimento dessa relação. Apesar do molde não ser barato e ser necessário justificar o investimento, o mercado cosmético, para Contesini, é de alto valor agregado. Ou seja, no caso de uma categoria de produtos premium, por exemplo, a embalagem pode ter um custo superior.

A Amcor PET Packaging, de Jundiaí-SP, atua em setores de grandes volumes. De alguma maneira, a empresa tem participação no mercado de higiene pessoal – vende para os líderes de mercado de antisséptico bucal e para a Johnson & Johnson (todos os frascos de PET da companhia são da Amcor). Para Leite, de forma geral, ainda há muitas oportunidades no mercado brasileiro. “O PET é uma das resinas mais atraentes entre os termoplásticos”, explica. Ele afirma também que ainda existe um preconceito injustificável acerca do impacto ambiental do PET, o que prejudica, no entanto, o avanço da resina. Outro aspecto a ressaltar se trata dos hábitos dos consumidores. Em outros países, as indústrias de alimentos e bebidas consomem muito mais PET do que no Brasil. “O mercado de cosméticos virá numa segunda onda de consumo, a primeira será de alimentos, como molhos, e bebidas, como suco e leite”, exemplifica. O PET conta com algumas características bastante convidativas: além daquelas já amplamente divulgadas, no caso da perfumaria, garante a não-oxidação da fragrância.

Sofisticação – Outras oportunidades para os termoplásticos nesse mercado estão despontando em áreas antes dominadas por outros materiais. De forma geral, o plástico está penetrando em redutos do vidro, como a perfumaria de alto padrão. Por isso ou por causa disso, a DuPont aposta as suas fichas no polímero Surlyn, da classe de ionômeros de moldagem e de extrusão, criados de copolímeros ácidos da própria DuPont. De acordo com a empresa, a partir de graus de copolímeros de peso molecular selecionado, como ácidos de etileno/metacrílico, a DuPont adiciona zinco, sódio, lítio ou outros sais de metais. A neutralização ácida resulta na formação de agrupamentos de íons (daí o termo geral “ionômero”) dentro da matriz do polímero resultante. Por isso, as resinas Surlyn incorporam muitas das características de desempenho dos copolímeros originais baseados em etileno, como a resistência química, a faixa de fusão, a densidade e características básicas de processamento.

A aparência é a do vidro, com a vantagem de ser leve e resistente. Além disso, possibilita a produção de peças com paredes grossas, sem bolhas e sem variações dimensionais. “Uma grande vantagem é que o convertedor pode fazer peças com formas bastante complexas”, afirma o diretor de vendas – América Latina na área de Embalagens e Polímeros Industriais da DuPont, Silvério Giesteira. A principal aplicação se vê em tampas, no entanto, um dos cases da companhia se refere ao pote de um produto da linha VitActive, para a linha anti-idade de O Boticário. O Surlyn foi

Cuca Jorge
   

Giesteira: o plímetro Surlyn permite a fabricação de peças complexas, resistentes e leves

desenvolvido, inicialmente, para agir como selante. A área de cosméticos é uma das mais recentes para a resina e hoje o produto é o carro-chefe do segmento para a DuPont.

A companhia ambiciona ampliar as aplicações do Surlyn para os frascos. A intenção tem um porquê. As embalagens em formato de frascos são as mais populares no mercado cosmético. “Pretendemos entrar nesse segmento no ano que vem, transferindo a elegância que existe na tampa para o frasco ”, exemplificou Giesteira. A ideia é expandir a participação no setor, hoje a DuPont cresce cerca de 25% ao ano no mercado de cosméticos.

A Eastman Chemical também busca conferir sofisticação às peças, com as resinas Eastar, que transmitem o conceito Glass Polymer: de altas resistência e transparência, assemelhando a embalagem plástica ao vidro. Formado por famílias de resinas copoliésteres e celulósicas, o Glass Polymer é um conceito que propicia ao setor a produção de peças com espessuras altas, como, por exemplo, com 40 mm ou ainda  mais espessas e com boa resistência química.  “Este leque de características o habilita a ser aplicado em

Cuca Jorge

Divulgação

Ribeiro: conceito Glass Polymer oferece o luxo do vidro com benefícios

vários subsegmentos do mercado de cosméticos”, comenta o gerente de vendas Ribeiro. Para ele, outra vantagem salutar é a possibilidade de se produzir lotes econômicos, com custos bem menores do que os de vidro, considerando até mesmo a pigmentação das peças. Segundo Ribeiro, o Glass Polymer tem muito a oferecer, porém, até o momento, foi muito pouco utilizado.

A quebra de frascos durante a fabricação, se forem de vidro, pode acarretar às empresas grandes perdas e/ou prejuízos. Esse é um dos motivos pelos quais o Glass Polymer pode fazer a diferença, segundo a própria Eastman. A companhia possui projetos em andamento para lançamentos, em curto prazo no Brasil e no exterior, de produtos que imprimem o conceito. “Infelizmente, não poderemos dar maiores detalhes por razões de sigilo industrial”, explica Ribeiro. Algumas referências do passado demonstram a força dessa ideia: os laboratórios Lancôme, da L´Oréal, selecionaram o Glass Polymer para sua utilização em embalagem moldada por injeção do Secret de Vie, produto para cuidados do rosto. A marca de origem francesa Anna Pegova, por sua vez, usou a resina Eastman Eastar GN 046, integrante da família de produtos Eastman Glass PolymerTM, por meio do processo de sopro convencional, conhecido no mercado como EBM (Extrusion Blow Molding). A criação dessas embalagens passou pela possibilidade de fabricar produtos luxuosos, com detalhes que lembrassem estilhaços de vidro. No entanto, os frascos deveriam ter leveza e inércia química; por isso, o designer optou por utilizar a família da Eastman.

A sofisticação está em alta e rende diversos desenvolvimentos das indústrias de transformação. Apesar de não serem recentes, a MBF Embalagens (ex-Augros) tem alguns cases de sucesso, como a linha Fotoequilíbrio, da Natura. Trata-se de um item chamado bag on valve, que tem o conceito de spray contínuo. “É como no aerossol: enquanto mantemos o atuador pressionado, o produto permanece sendo dispensado e conserva o material puro dentro da lata”, explica a gerente de marketing da Aptar B&H Embalagens e MBF Embalagens, Fabiane Nunes. Segundo ela, para o envase, não são necessários cuidados tão especiais quanto os destinados ao aerossol, já que não tem o gás propelente como ingrediente.

Outra inovação diz respeito ao Sérum Akinésine Combleur Rides, da Anna Pegova. Trata-se de uma embalagem airless que protege o conteúdo, sem precisar acrescentar conservantes à formulação. “Essa embalagem mantém a pureza e a integridade da fórmula, além de oferecer maior eficácia ao resultado”, exemplifica Fabiane. Ela cita também alguns lançamentos que embutem o conceito de “solução completa”, como a tampa MBF e a bomba Aptar, desenvolvidas para os produtos Glamour (de O Boticário), Seda Serum (da Unilever) e Liiv Bothanicals (da Avon), entre outros.

Desde 2007, a Augros mudou de nome para MBF Embalagens, no entanto, sua história remonta outra época. A multinacional norte-americana AptarGroup adquiriu em 2006 a Augros do Brasil, a fim de oferecer uma solução completa ao mercado, junto à Aptar B&H Embalagens, a plataforma de serviços do grupo para as fábricas de dispensadores das marcas: Airless Systems, Emsar, Indigo, MBF Plastiques, Pfeiffer, Seaquist Perfect, e Valois. A AptarGroup, líder em design e na fabricação de sistemas dispensadores, possui um portfólio de cerca de 250 itens somente em bombas, válvulas e dispensadores, em geral, destinados às indústrias de cosméticos, perfumaria, higiene pessoal, limpeza e farmacêutica.

A companhia transforma resinas diversas: em injeção, PS, PP, PE, Surlyn, ABS e PCTA; e no sopro, PE, PP e PETG. O Surlyn, da DuPont, e a resina da família Eastar, da Eastman, são matérias-primas bastante utilizadas na MBF Embalagens. “O Surlyn é uma resina com uma transparência cristalina, toque aveludado, agradável e que permite total liberdade ao designer no momento da criação do produto, enquanto a resina da Eastman é um material pouco visto, desafiador, que traz transparência e elegância únicas ao produto”, comenta a gerente de marketing. O Surlyn é empregado em tampas de perfumes de luxo e a família Eastar, da Eastman, na fabricação de potes de tratamento da linha facial da Natura.

Balanço - Nem é preciso ser adepto da tradição budista para saber que tudo tem um lado bom e um ruim, portanto, representantes da indústria, como Silvério Giesteira, da DuPont, acreditam que a crise mundial pode representar boas oportunidades para os fabricantes nacionais de cosméticos. Para o diretor, o consumidor brasileiro vai evitar os importados, sobretudo porque a indústria nacional de cosméticos não deve nada para a estrangeira, em quesitos de qualidade e de inovação. Márcia, da Dixie Toga, também está otimista quanto aos novos rumos do setor. “Mesmo com a crise, o consumidor não para de comprar cosméticos, o que pode acontecer é preferir um produto mais barato”, ela afirma.

Esse mercado não se resume à beleza aparente de suas embalagens, pois embute também cifras numerosas. Em meio à crise econômica mundial, o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos deverá, em 2008, apresentar faturamento 8,6% superior ao do ano anterior, o que totalizará R$ 21,2 bilhões. Apesar de essa indústria estar acostumada a avançar mais (no acumulado de doze anos, houve crescimento médio deflacionado de 10,9%), esses números estão acima de outros setores. De acordo com estimativas da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), esse mercado é o único do complexo químico – que inclui as indústrias de produtos de limpeza, farmacêuticos, tintas e fertilizantes – a apresentar superávit em sua balança comercial. O ano será encerrado com exportações no valor de US$ 650 milhões versus US$ 450 milhões em importações, ou seja, uma balança comercial positiva de US$ 200 milhões.

 

 

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