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Fábrica transforma pneu descartado em calçados

As toscas alpercatas feitas pelos vietnamitas durante a Guerra do Vietnã com os restos dos pneus de veículos destruídos em combate inspiraram o vietnamita naturalizado brasileiro Thai Quang Nghia a criar a marca Goóc de sapatos, alpercatas, chinelos e sandálias com solado confeccionado com

“regenerado de pneu”, a matéria-prima reciclada de pneus descartados. “Não fazemos apenas calçados, agregamos um conceito ambiental ao pneu descartado”, explica o empresário. Em média, um pneu descartado dá matéria-prima para cinco pares. “Em quatro anos, desde que começamos a produzir, já reciclamos mais de 2 milhões de pneus”, festeja.

Na fábrica instalada em Feira de Santana-BA, a gerente Maria Djanira Toscano exibe uma histórica “dep”, nome das originais alpercatas vietnamitas no tempo da guerra, composta por um grosso solado esculpido de um pneu avariado, com perfurações onde

Fred Passos

Em quatro anos, empresa reciclou mais de 2 milhões de produtos

são presas as tiras, estas feitas com a borracha da câmara de ar. “Era tempo de guerra e os camponeses em armas não desprezavam nenhuma possibilidade de andar calçado,” justifica. Ela compara essa versão inspiradora com a resultante bem mais evoluída, a sandália básica de duas tiras, um artefato com solado prensado, fino e bem mais leve, marcado na superfície que entra em contato com o chão por relevos em ziguezague que imitam os sulcos dos pneus. As tiras de PVC, também reciclado, são injetadas na própria fábrica.

O regenerado, produzido em fábricas do sul e sudeste do país, chega a Feira de Santana em pó ou placas prensadas e de acordo com os testes de abrasão, viscosidade e elasticidade, é acrescido de quantidades corretoras de borrachas, sintética ou natural, e de agentes químicos – óleo e aceleradores. E assim é preparado o mix, a massa porosa e quebradiça que depois passa entre cilindros e forma uma manta. “Quando compramos o regenerado não sabemos precisamente o que vem, pois não há uniformidade, as diferentes marcas e tipos de pneu seguem diferentes formulações de borrachas, natural e sintética”, esclarece a gerente. “Se o regenerado vem com excesso de óleo, não posso evidentemente corrigir com mais óleo”, arremata. No produto acabado, pelo menos 70% corresponde em peso ao regenerado de pneu, assegura.

Na seqüência, a manta de borracha é cortada manualmente em retângulos que excedem a cavidade do molde, onde os solados são prensados e vulcanizados, com uso de peróxido de zinco, a temperaturas que variam de 160 a 170 graus Celsius, por tempo entre dois a nove minutos, a depender do tamanho e modelo. Depois, também manualmente, as rebarbas, causadas pelo excesso da matéria-prima, são aparadas e as tiras colocadas. As rebarbas voltam para a produção.

Embalados em caixas feitas com celulose reciclada, 200 mil a 300 mil pares de sandálias e alpercatas são enviados mensalmente para destinos variados, que incluem compradores famosos pinçados em feiras internacionais, como a Galeria Lafayette de Paris, onde, segundo o empresário, os modelos mais sofisticados, os revestidos com “tons cintilantes em berinjela, pérola, rosa, prata, lilás, bronze e preto”, são vendidos a 35 euros. Só cinco em cada cem pares dessa linha, “sucesso no verão europeu”, ressalta, são vendidos no Brasil, onde são encontrados, revela, em 3,5 mil pontos-de-venda. Em Salvador, o modelo básico, a sandália de dedo sem qualquer revestimento, na cor do pneu, ganhou a preferência dos surfistas, que o compram por R$ 15 a R$ 25, por causa da alta resistência.

Parte da produção, a que corresponde justamente aos ditos solados com tons cintilantes e detalhes delicados é produzida em outra fábrica de artefatos para calçados, a Amazonas, mediante

terceirização. Segundo Nghia, independentemente de a Amazonas deter a tecnologia do revestimento, a terceirização é uma tendência em sua empresa, que agrega valor valendo-se principalmente do conceito ambientalista, presente nos estandes de feiras internacionais. Na Francal 2008, foi exibida uma escultura de ferro, “simbolizando o reaproveitamento de matérias-primas,” em meio ao cenário marcado por um córrego com água corrente e muitas flores.

Thai Quang Nghia ressalta os valores da Goóc, palavra que em vietnamita significa raiz: “alma oriental, mente ocidental e corpo brasileiro”. E a missão: “tornar o Brasil a referência do mundo em sandália de pneu reciclado.”

Fred Passos

Nghia anseia tornar a produção brasileira
referência mundial

Refúgio – O vietnamita-brasileiro Thai Quang Nghia conta que em 1978, aos 19 anos, fugiu do seu país em um barco de pesca e foi resgatado em alto-mar por um navio da Petrobras. Aceito como refugiado, comprou um dicionário para aprender português e passou a vender, de porta em porta, bolsas fabricadas pela família que o recebeu. Quatro anos depois, foi aprovado no vestibular da USP. Decorridos mais três anos, desistiu da matemática e transferiu-se para a Faculdade de Administração do Mackenzie, onde se graduou.

Em 1987 passou a fabricar suas próprias bolsas: a noite cortava o tecido e imprimia as estampas e de dia vendia a produção. Foi o início de um negócio que em 2004 começou a produzir calçados. Na seqüência, construiu a fábrica de Feira de Santana.

José Valverde

 

 

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