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Fábrica transforma pneu descartado em calçados A s toscas alpercatas feitas pelos vietnamitas durante a Guerra do Vietnã com os restos dos pneus de veículos destruídos em combate inspiraram o vietnamita naturalizado brasileiro Thai Quang Nghia a criar a marca Goóc de sapatos, alpercatas, chinelos e sandálias com solado confeccionado com
são presas as tiras, estas feitas com a borracha da câmara de ar. “Era tempo de guerra e os camponeses em armas não desprezavam nenhuma possibilidade de andar calçado,” justifica. Ela compara essa versão inspiradora com a resultante bem mais evoluída, a sandália básica de duas tiras, um artefato com solado prensado, fino e bem mais leve, marcado na superfície que entra em contato com o chão por relevos em ziguezague que imitam os sulcos dos pneus. As tiras de PVC, também reciclado, são injetadas na própria fábrica. O regenerado, produzido em fábricas do sul e sudeste do país, chega a Feira de Santana em pó ou placas prensadas e de acordo com os testes de abrasão, viscosidade e elasticidade, é acrescido de quantidades corretoras de borrachas, sintética ou natural, e de agentes químicos – óleo e aceleradores. E assim é preparado o mix, a massa porosa e quebradiça que depois passa entre cilindros e forma uma manta. “Quando compramos o regenerado não sabemos precisamente o que vem, pois não há uniformidade, as diferentes marcas e tipos de pneu seguem diferentes formulações de borrachas, natural e sintética”, esclarece a gerente. “Se o regenerado vem com excesso de óleo, não posso evidentemente corrigir com mais óleo”, arremata. No produto acabado, pelo menos 70% corresponde em peso ao regenerado de pneu, assegura. Na seqüência, a manta de borracha é cortada manualmente em retângulos que excedem a cavidade do molde, onde os solados são prensados e vulcanizados, com uso de peróxido de zinco, a temperaturas que variam de 160 a 170 graus Celsius, por tempo entre dois a nove minutos, a depender do tamanho e modelo. Depois, também manualmente, as rebarbas, causadas pelo excesso da matéria-prima, são aparadas e as tiras colocadas. As rebarbas voltam para a produção. Embalados em caixas feitas com celulose reciclada, 200 mil a 300 mil pares de sandálias e alpercatas são enviados mensalmente para destinos variados, que incluem compradores famosos pinçados em feiras internacionais, como a Galeria Lafayette de Paris, onde, segundo o empresário, os modelos mais sofisticados, os revestidos com “tons cintilantes em berinjela, pérola, rosa, prata, lilás, bronze e preto”, são vendidos a 35 euros. Só cinco em cada cem pares dessa linha, “sucesso no verão europeu”, ressalta, são vendidos no Brasil, onde são encontrados, revela, em 3,5 mil pontos-de-venda. Em Salvador, o modelo básico, a sandália de dedo sem qualquer revestimento, na cor do pneu, ganhou a preferência dos surfistas, que o compram por R$ 15 a R$ 25, por causa da alta resistência. Parte da produção, a que corresponde justamente aos ditos solados com tons cintilantes e detalhes delicados é produzida em outra fábrica de artefatos para calçados, a Amazonas, mediante
Refúgio – O vietnamita-brasileiro Thai Quang Nghia conta que em 1978, aos 19 anos, fugiu do seu país em um barco de pesca e foi resgatado em alto-mar por um navio da Petrobras. Aceito como refugiado, comprou um dicionário para aprender português e passou a vender, de porta em porta, bolsas fabricadas pela família que o recebeu. Quatro anos depois, foi aprovado no vestibular da USP. Decorridos mais três anos, desistiu da matemática e transferiu-se para a Faculdade de Administração do Mackenzie, onde se graduou. Em 1987 passou a fabricar suas próprias bolsas: a noite cortava o tecido e imprimia as estampas e de dia vendia a produção. Foi o início de um negócio que em 2004 começou a produzir calçados. Na seqüência, construiu a fábrica de Feira de Santana. José Valverde |
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