13º  Congresso Brasileiro de Embalagem

Embora o volume global permaneça constante em relação à 2007, dentro do panorama das mais de 150 categorias de produtos que a Nielsen Brasil audita regularmente, percebe-se o crescimento do volume de bebidas alcoólicas (3,9%) e não-alcoólicas (2,2%) em cima de bases já positivas, respectivamente de 8% e 5,5% (em comparação a 2006). Na cesta de bebidas não-alcoólicas, aquelas à base de soja assumem grande destaque, com alta de 19,2%, seguidas por bebidas energéticas (17,9%). Refrigerantes, um segmento mais maduro, e sucos prontos para consumo, os quais tiveram aumento de volume muito alto nos últimos anos, obtiveram taxas bem mais modestas (1,6% e 2,45%), mas, mesmo assim, permanecem com tendência de expansão.

O crescimento das bebidas com base em soja, segundo a responsável pelo painel domiciliar, decorre da mudança de comportamento do consumidor, mais interessado em produtos saudáveis, e do grande destaque dado a essas bebidas, principalmente nos programas matinais de televisão dedicados ao público feminino.

Como um todo, o faturamento da venda de bebidas não-alcoólicas também se elevou nos doze meses anteriores a junho de 2008 (8,6%). Entretanto, Pestana ressaltou que a “guerra” entre as marcas do setor implicou queda de 73% dos preços dos não-alcoólicos, cujas vendas cresceram no mesmo período.

Os refrigerantes continuam respondendo por mais da metade do consumo do segmento, com 62,4%, seguidos de suco em pó (19,3%) e água mineral (10,7%). Nesse quesito, as bebidas de soja reaparecem em destaque, pois sua fatia na divisão entre os diversos tipos de bebidas foi a que mais cresceu no ano anterior a junho de 2008, acima de 20%.

O comportamento em relação à distribuição das bebidas entre os diversos materiais de embalagens, no entanto, não se alterou. Os plásticos dominam amplamente a classe mais importante, a de refrigerantes, integrando 80% das embalagens. As resinas também têm boa penetração nos sucos concentrados, dividindo o mercado com o vidro, e monopolizam o mercado de água integralmente. Das bebidas à base de soja, que possuem os números de expansão mais destacados, porém, os termoplásticos estão alijados, pois todos os produtos são embalados em cartonados.

Importância do design – O diretor-global de embalagens da Reckitt Benckiser, Arno Melchior, reforçou nos congressistas a idéia de que o design das embalagens é fundamental para a decisão de compra do consumidor. Falando sobre tendências para produtos de limpeza (a Reckitt Benckiser é a líder global em diversos produtos de higiene pessoal e do lar, e vende algumas marcas bem conhecidas no Brasil, como Vanish e Veja), Melchior afirmou que, em termos de embalagens, a introdução de produtos nos mercados em desenvolvimento acontece em fases.

No estágio inicial, os bens de consumo são vendidos em mercados livres e, portanto, não possuem embalagem. No segundo, os produtos são vendidos em embalagens com custo muito competitivo, e elas não desempenham outra função (como conveniência) senão proteção, durante o transporte. Esse estágio predomina nos mercados da Ásia. Ele se caracteriza por vendas em pequenos estabelecimentos cujo proprietário também é o vendedor. Nesses casos, a venda é decidida, muitas vezes, pelo proprietário, que influencia a decisão de compra. O terceiro estágio, predominante no Brasil, é constituído por embalagens de tamanho regular, para armazenamento em casa, e que por isso demandam facilidade de aplicação do produto e possibilidade de refechamento. Os produtos desses estágios são vendidos principalmente em supermercados; então a embalagem também tem a função primordial de, na ausência da figura do vendedor, conquistar o consumidor, seja pela cor, pela forma ou pelo design gráfico.

Na Europa e nos Estados Unidos, predomina o quarto estágio, em que se encontram pessoas com alto poder aquisitivo, pouca disponibilidade de tempo e preocupadas com o impacto ambiental dos produtos que consomem. Para esse grupo, explicou Melchior, as embalagens precisam oferecer conveniência e funcionalidades adicionais. Ele apresentou o caso do conhecido aerossol Bom Ar, que na Europa já é vendido em embalagem própria para uso em um aplicador automático, que borrifa uma pequena quantidade do produto no ar em intervalos regulares, sem a necessidade do acionamento manual. Outra preocupação é a adequação às necessidades especiais de pessoas idosas ou doenças que limitem seus movimentos, como artrite, e nesses casos assumem importância designs que facilitem a abertura, o manuseio e o fechamento.

As embalagens para os consumidores do quarto estágio também devem ser detectadas prontamente pelo consumidor, quando em frente da gôndola. “O produto precisa ser facilmente reconhecível, para tornar a duração da jornada de compra menor”, disse o diretor. Os fabricantes de produtos que dominam as maiores fatias do mercado ainda precisam ser originais na renovação dessas embalagens, pois elas costumam ser copiadas pelo resto do mercado depois de algum tempo.

Apesar da importância do design das embalagens, Melchior disse que é sempre muito difícil convencer os parceiros comerciais a investir nesse tipo de desenvolvimento porque é igualmente difícil quantificar seu retorno em dinheiro. O lançamento de um produto também é acompanhado por publicidade e promoções, que mascaram o efeito individual de cada ação.

Mas o diretor apresentou o caso de um novo produto para máquinas lava-louças que representava uma grande oportunidade de comprovação do investimento em design: depois de quatro semanas do lançamento do Calgonit, da Reckitt Benckiser, a Henkel lançaria um concorrente, o Somat. Ambos utilizavam embalagens plásticas de semelhantes capacidades, compartilhavam um mercado parecido e contavam com a confiança dos clientes e a quantidade de propaganda na televisão era a mesma. O Calgonit, porém, possuía preço por peso de lavagem 12% superior, mas alcançou um market share consideravelmente maior (70% a 22%).

“Por que as pessoas compram um produto que é mais caro, mas possui desempenho semelhante ao concorrente? Será pelo design da embalagem diferente do padrão? Será pela tampa de rosca grande, muito mais fácil de abrir que a tampa de pressão da embalagem do Somat? Obviamente, em minha opinião, a embalagem fez a diferença”, cravou Melchior.

Segurança alimentar – O dr. Hans-Georg Kinzelmann, diretor-corporativo da Henkel, iniciou sua apresentação sobre tendências do desenvolvimento de adesivos e revestimentos citando alguns casos de contaminação de alimentos com repercussão na mídia internacional. Ele lembrou do leite para bebês, na Itália e em Portugal, contaminado por isopropiltioxantona (ITX), proveniente da migração de componentes de tintas de impressão de embalagens Tetrapak, e alimentos contaminados por aminas aromáticas primárias derivadas de adesivos de PUR (poliuretano reativo), na Alemanha. Esses episódios deixaram um aprendizado que levou empresas de grosso calibre, como a Nestlé (produtora do leite com ITX), a adotar 

políticas globais de monitoramento das embalagens, que passaram a se submeter a controles tão rígidos quanto os impostos aos próprios alimentos. Ainda que tardiamente, é lícito à audiência depreender.

Para ilustrar como a Henkel está lidando com essa demanda, Kinzelmann apresentou alguns produtos já oferecidos ao mercado, como um novo PUR bicomponente base solvente para a laminação de filmes plásticos com outros filmes plásticos ou folhas metálicas. O adesivo é fornecido com teor de sólidos entre 72% e 100%. A aplicação ocorre à porcentagem de sólidos de 45%, maior que os 35% típicos do mercado, ocasionando boas propriedades de liberação do solvente e baixa retenção. Essa tecnologia já possui uma versão mais avançada, representada por um PUR de 4ª geração com menos de 1% de monômero isocianato livre. O produto possui comportamento de cura diferenciado, uma vez que a vulcanização ocorre em intervalo de tempo muito inferior, mesmo se comparado a sistemas de cura inteligente, reduzindo a janela em que ocorre a migração. “A contaminação potencial de alimentos é dramaticamente reduzida”, disse o diretor da Henkel.


Kinzelmanm apresentou protótipos de adesivos livres de isocianato

O adesivo baseado em PUR de 4ª geração é fornecido com teor de sólidos entre 70% e 80%, sendo adequado à laminação convencional, mas também àquelas de médio a alto desempenho (alta velocidade). A aplicação ocorre com teor de sólidos de até 52%, o que contribui para a redução dos VOCs (compostos orgânicos voláteis; em inglês, volatile organic compounds). Figuras exibidas pelo diretor revelaram que o PUR de 4ª geração, mesmo em linhas de laminação com velocidade de 500 m/min, possui aparência óptica muito superior à de adesivos base solvente convencionais, aplicados em linhas com velocidades de 300 m/min e 400 m/min.

Outra alternativa menos danosa seriam as formulações livres de solventes. Elas apresentam, no entanto, algumas desvantagens. Os adesivos monocomponentes desse tipo precisam ser preaquecidos, não funcionam bem com estruturas sem papel e podem criar problemas relacionados à migração. Já os adesivos bicomponentes sem solventes requerem investimento em equipamentos de dosagem. Combinar as vantagens de ambos os tipos e suprimir os respectivos pontos fracos resultaria no “adesivo ideal”, cujo protótipo foi introduzido em primeira mão para a audiência brasileira.

A Henkel desenvolveu uma variedade hotmelt de PUR monocomponente com teor de isocianato livre inferior a 0,1%, qualificado como não-nocivo, aplicado sob temperaturas baixas, ao redor de 40ºC a 50ºC. O tempo de cura é muito curto e atinge os limites impostos à migração de aminas aromáticas primárias, fato que torna o adesivo ideal para operações de laminação e impressão em linha. Esse primeiro protótipo, porém, até o momento só atende estruturas do tipo filme/filme.

Seguindo a lógica de obter adesivos com teores de monômero livre decrescentes, a empresa alemã partiu para o próximo passo óbvio: obter um adesivo sem qualquer resquício de isocianato. O protótipo é um material monocomponente base acetato etílico. Uma vantagem desse produto interessante para os brasileiros, na visão de Kinzelmann, é o fato de ele também poder ser diluído em etanol, abundante por aqui, e muito mais barato que o acetato etílico. Além disso, como o adesivo não possui componentes monoméricos, o teste de migração global é suficiente para atestar a complacência do produto. A cura se dá, sob temperatura ambiente, em cinco a sete dias, e as aplicações sugeridas são a laminação de estruturas filme/filme e filme/folha metálica.

O desenvolvimento dessa tecnologia ensejou um passo adiante: outro protótipo monocomponente, com base em água, mas que pode ser revestido com PP orientado (OPP) ou PET e armazenado em bobinas, para posterior laminação a frio em estruturas filme/filme ou filme/metal, tipicamente utilizadas em embalagens de salgadinhos e massas.

O diretor, em seguida, abordou um segundo tema: a agregação de valor aos adesivos por meio da incorporação de propriedades de barreira. O principal desafio para esse tipo de desenvolvimento é a obtenção do equilíbrio entre as propriedades de permeação e a aderência. Um primeiro desenvolvimento com base em água revelou propriedades de barreira muito interessantes (redução da permeabilidade a oxigênio por fator de 200, em estrutura de PET/PE, e de 125, em OPP/OPP), mas decepcionou nas propriedades de selagem, adesão e resistência ao calor e à água. “Todos os esforços para melhorar essas propriedades falharam”, revelou o diretor. A Henkel, porém, não desistiu e obteve um segundo protótipo bicomponente base álcool. Ele é compatível, em termos de aderência e selagem a quente, com estruturas de OPP/PE, OPP/OPP e OPA (poliamida orientada)/PE e confere fatores de redução da permeabilidade entre 4 e 40. No entanto, possui uma fraqueza: pouca consistência de adesão com filmes de PET. As pesquisas, todavia, prosseguem. “Estamos bastante confiantes de que esse adesivo chegará ao mercado em 2009”, afirmou Kinzelmann.

Como não poderia deixar de ser, a empresa alemã também está buscando alternativas sustentáveis para seus produtos, embora ainda esteja longe de conseguir, por exemplo, um adesivo para laminação compostável e compatível com polímeros compostáveis, como PLA. Enquanto isso, na Europa, já está disponível um sistema alifático de dois componentes, livre de solventes e formado por 60% de matérias-primas renováveis. Seu destaque, na opinião de Kinzelmann, é uma adesão superior a diferentes substratos, como PLA, amido e celofane.

O diretor da Henkel finalizou sua palestra tocando nos temas dos revestimentos de cura por radiação (feixe de elétrons) e da vedação a frio com látex sintético. As aplicações de revestimentos de cartelas para alimentos e de rótulos são bastante comuns no mercado estadunidense, no qual a companhia germânica acumulou certa experiência. A sugestão foi utilizar vernizes de reimpressão (overprint varnishes), pois simplificam a fabricação e a aplicação. São produtos de baixa viscosidade que podem ser aplicados diretamente na estação de impressão; o sistema só tem um componente (sem prazo de validade), e cura, instantaneamente, apenas quando exposto à radiação; a proteção aos filmes e tintas é boa, com excelente resistência a riscos e solventes.

 

 

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