Seja pela preocupação sincera com o meio ambiente, pelo apelo de marketing ou pelas febres de tendências que dominam a indústria ciclicamente, a palavra de ordem do 13º Congresso Brasileiro de Embalagem foi sustentabilidade. Nas palestras que se estenderam pelos dias 24 e 25 de setembro, em São Paulo, os mais de 400 congressistas não ouviram um único discurso sem que fossem exaltadas as seguintes necessidades: tornar as embalagens mais sustentáveis desde os primeiros passos de seus projetos, reciclá-las e reduzir seu impacto ambiental. O mantra do maior encontro internacional da indústria de embalagem realizado no país constou até das atividades de seu organizador: a Associação Brasileira de Embalagem (Abre) se comprometeu a neutralizar as emissões de gases de efeito estufa decorrentes do congresso. Auxiliada pela empresa Ecouniverso, a associação pretende quantificar a contribuição do evento para o aquecimento do planeta e posteriormente compensar com o plantio de árvores. Um dos ocupantes de postos-chave da cadeia mundial a falar no Brasil foi o diretor de sustentabilidade de embalagem da Unilever, Steph Carter. O que a gigante produtora de bens de consumo pensa e faz atinge diretamente os brasileiros: o mercado local é um dos cinco mais importantes, globalmente, para a empresa. Carter descreveu e analisou iniciativas que a Unilever tem adotado para demonstrar a relevância de seu conceito de Vitalidade, um misto de tendências impostas pela mudança do perfil sócio-demográfico da população mundial, pela exigência de produtos com melhor qualidade nutritiva, por consumidores mais conscientes e pelo recrudescimento dos problemas ambientais. Embora os consumidores tendam a acreditar que o maior impacto na emissão de gases de efeito estufa se deva às embalagens, o diretor afirmou que em muitos casos de produtos da Unilever o maior responsável é o próprio conteúdo – o que demonstra, na visão dele, a necessidade de uma abordagem sistêmica do ciclo de vida do produto para o conhecimento dos itens de maior relevância ambiental. Um exemplo curioso são os chocolates: nesse caso, quem mais contribui para o aquecimento global é a produção de leite, por causa dos gases emanados, quem diria, pelas vacas. De modo geral, segundo Carter, a embalagem contribui com 5% a 10% do viés climático dos produtos da companhia, e, no caso dos chocolates, com 1%. Com o trocadilho “less weight is not always less waste”, ele afirmou que nem sempre reduzir a massa dos invólucros é a melhor opção para gerar menos resíduo. Comparando uma garrafa com um pouch laminado com a mesma capacidade de armazenamento, ambos feitos de plástico, o diretor mostrou que é possível reduzir o lixo pós-consumo incentivando a coleta e a reciclagem da embalagem, e adotando um design mais apropriado para o desenvolvimento dessas atividades. “Uma garrafa de 20 gramas reciclada a uma taxa de 60% só geraria 8 gramas de resíduo, enquanto um pouch com 10 gramas que não é reciclado gera 10 gramas de resíduo”, disse.
Gigante em ascensão – Para falar do crescimento da indústria de embalagem da China, a Abre trouxe Zhe Jin, diretor do departamento internacional do Centro de Embalagem da Ásia (Asia Packaging Center, APC), um projeto voltado à construção de um novo modelo para a marca de embalagens chinesas. A produção de embalagens no país asiático se iniciou nos anos 80, com escala produtiva limitada, fabricando apenas produtos com funções básicas e empregando técnicas ultrapassadas e de baixa produtividade. Atualmente, segundo Zhe Jin, a indústria chinesa processa todos os materiais mais utilizados pela indústria mundial (papelão, plástico, metal, vidro e papel) e também fabrica equipamentos para a produção de embalagem. As empresas se concentram ao longo da costa leste do país (na baía de Bohai e nas regiões dos deltas dos rios Yangtze e Zhujiang), e seu produto bruto, em 2007, chegou a cerca de US$ 87 bilhões, com uma taxa de crescimento anual de pouco mais de 18%. Dentre os diversos segmentos da indústria, apresentam crescimento mais acelerado o de produtores de maquinário (30,34% ao ano), seguido pelas embalagens plásticas, com 28,12%. O PIB do setor de embalagens, que representava apenas 0,4% do PIB total chinês na década de 80, perfaz hoje 2,37%; e o segmento, que ocupava a posição de número 42, entre as maiores cadeias produtivas do país, agora é 14º, fato que certamente contribui para tornar a China a 3ª maior exportadora mundial de embalagens, com vendas externas de US$ 8,5 bilhões em 2007. Desse montante, 45% decorreu da exportação de embalagens plásticas. As cidades de Zhejiang, Shanghai e Jiangsu, segundo Zhe Jin, são os principais centros produtores de embalagens do país asiático. É nessa mesma região, a do delta do rio Yangtze, que está sendo construído o Centro de Embalagem da Ásia, um investimento de mais de US$ 300 milhões. O APC oferecerá serviços de educação, informação e pesquisa, além de buscar a integração da indústria chinesa e a regulação de seus padrões técnicos de acordo com o adotado pela Organização Mundial de Embalagem (World Packaging Organization ou WPO). O objetivo é suprimir as deficiências atuais e elevar a indústria da China à primeira posição no ranking mundial. Embora seja a 3ª maior produtora mundial de embalagens, atrás apenas dos Estados Unidos e do Japão, a China ainda está distante dos líderes em quesitos como variedade de produtos, inovação e propriedade intelectual independente. Isso decorre, em boa parte, pelo fato de as empresas de grande porte no segmento de embalagens corresponderem a somente 0,23% do total. Uma fração superior a 90% é composta por empreendimentos de pequeno porte, com uma capacidade limitada de investimento em pesquisa e desenvolvimento e baixa competitividade. “A predominância de empresas de pequeno porte é o maior impedimento ao crescimento de modernização da indústria de embalagens chinesa”, disse Zhe Jin. Por outro lado, o rápido crescimento do setor provocou a escassez de engenheiros, técnicos e trabalhadores especializados em embalagens. Além disso, os profissionais de perfil técnico não somam mais que 2% dos trabalhadores do setor. A grande demanda por mão-de-obra, que Zhe Jin acredita existir em abundância no Brasil, poderia criar a possibilidade de parcerias e intercâmbio de informações entre os dois países em um nível muito mais intenso do que o atual. Bebidas crescem – A gerente de atendimento da Nielsen Brasil, Juliane Pestana, trouxe boas notícias para os fabricantes de embalagens para bebidas não-alcoólicas. Responsável pelo painel domiciliar realizado pela empresa, ela avaliou como positivos para o crescimento do consumo no Brasil os sinais da macroeconomia, no encerramento do primeiro semestre de 2008. O mercado de trabalho terminou a primeira metade do ano com 49% dos trabalhadores ocupando postos de emprego formais, com carteira de trabalho assinada; o rendimento médio real cresceu 1,7%, em relação a junho de 2007 e a taxa de desemprego, em relação ao mesmo mês, se retraiu para 7,8%. Para a gerente da Nielsen, a desigualdade social também foi diminuída, pois, desde 2002, os 10% mais pobres obtiveram ganho de renda cinco vezes superior em relação aos 10% mais ricos, ocasionando queda de 7% no quesito. A classe C absorveu 22,5 milhões de pessoas em dois anos, convertendo-se no maior extrato social brasileiro. “Podemos observar a entrada de diversos bens de consumo nessa classe social”, disse a gerente. Por conta do cenário favorável, mais de 1 milhão de novos lares das classes C, D e E passaram a consumir bebidas à base de soja. Sucos e chás prontos também começaram a ser comprados em mais residências das classes D e E. |
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