Um fato bastante surpreendente apresentado por Pereira é que testes impondo até dez reciclagens sucessivas do mesmo PP, procedente das linhas de injeção da GM, revelaram perda muito pequena de propriedades mecânicas. O receio do químico sênior se volta muito mais à aditivação, principalmente à proteção à radiação ultravioleta, no caso de peças externas, e à proteção térmica, na hipótese das internas. Além da queda de desempenho mecânico não ter sido significativa nos estudos citados pelo especialista, os plásticos virgens utilizados pela montadora, em regra, possuem características que superam as especificações. Então, mesmo se houver uma pequena perda, o material reciclado continua atendendo às necessidades técnicas, com uma vantagem: o índice de fluidez aumenta com a reciclagem, tornando mais fácil a injeção. Entretanto, é necessário computar o número de vezes que a mesma resina foi reutilizada, afinal as reciclagens sucessivas diminuem as propriedades e, depois de algumas dessas operações, a peça pode acabar contendo uma pequena fração de matéria-prima bastante deteriorada. Os aditivos podem até mesmo ser completamente consumidos, após quatro ou cinco passagens pelo canhão.
Esse detalhe impede que a resina seja reciclada indefinidamente, ao menos na mesma aplicação, embora possa ser reutilizada em peças com necessidades de desempenho inferiores. Às compras - Na segunda situação possível para a reciclagem mecânica, a montadora adquire a resina revalorizada de um reciclador, e é nessa hora que deficiências do parque de reciclagem brasileiro se desnudam. Conforme informou Pereira, da GM do Brasil, ainda não foi possível encontrar fornecedores locais de plástico de engenharia reciclados. “Mas se conseguíssemos habilitar fornecedores, teríamos condições de desenvolver aplicações”, afirma. Para esse fim, poderia ser utilizada a produção off spec (fora de especificação) dos produtores de resinas, ou mesmo material coletado em campo, no entanto, a filial brasileira da GM não conseguiu encontrar recicladores aptos a preencher três quesitos primordiais: fornecimento de matéria-prima em quantidade de escala de produção, com qualidade assegurada e consistência em lote a lote, isto é, repetibilidade. Vale lembrar que ao utilizar resinas que não têm especificações de produto virgem, mas de polímeros reciclados, os requisitos de desempenho para as peças e componentes não mudam, e precisam ser igualmente satisfeitos.
injetar em pára-choques, todavia, não está nos planos nem a médio prazo, em razão dos requisitos de desempenho, aparência e dilatação térmica serem muito mais severos que os de fender liners. Além disso, o PP utilizado em pára-choques é bastante específico para a aplicação, de modo que reciclagem para essa finalidade pressupõe origem no mesmo uso. Baseada no estudo realizado internamente, a fabricante de carros testou um PP copolímero reciclado, procedente de off spec de petroquímicas e scrap de outras indústrias automobilísticas, sem conter plástico pós-consumo. O primeiro lote adquirido no mercado pela GM passou nos testes, mas Pereira se mantém cauteloso. “Os fornecedores têm condição de oferecer qualidade, lote a lote, mensalmente, em quantidade adequada, com repetibilidade? Nós ainda não comprovamos isso”, diz. Mas a montadora está realmente interessada no assunto. Pereira tem visitado plantas de reciclagem: já realizou a validação de uma, e identificou uma outra candidata com certificação ISO 9000, além de uma terceira que partia para a obtenção da ISO TS, a validação voltada para a indústria automobilística. “Esse tema está na pauta e, no caso do PP, está faltando pouco para resolver o assunto”, diz Rita Heloísa M. Binda,
vislumbradas, na opinião pessoal do químico sênior, são a caixa que envolve o filtro de ar e dutos. “O emprego de plástico reciclado tem aparecido em muitas especificações globais da GM”, confirma Binda. Despolimerização – Uma maneira de se driblar o inconveniente da diminuição de propriedades causada pela reciclagem mecânica é a chamada reciclagem química, que constitui, grosso modo, na reversão da reação de síntese de um polímero. A idéia é utilizar um produto pós-consumo como insumo em um processo que desdobra a resina em suas matérias-primas originais, despolimerizando-a. Obtidos os ingredientes básicos, tem vez um novo processo de polimerização, que é exatamente igual à reação efetuada com insumos petroquímicos e, portanto, o plástico obtido não possui qualquer diferença no balanço de propriedades em relação ao produto tradicional. A Sabic Innovative Plastics desenvolveu uma tecnologia que permite despolimerizar garrafas PET pós-consumo, obtendo etileno glicol e ácido tereftálico (ou dimetil tereftalato). O etileno glicol precisa ser convertido em butanodiol, que reage com o ácido orgânico anterior (ou seu sal) para produzir um novo poliéster, o polibutileno tereftalato (PBT). A empresa afirma que o polímero emprega 82% de matéria-prima proveniente das garrafas de PET. Uma tonelada produzida eliminaria 872 kg de garrafas pós-consumo, e deixaria de consumir 8,5 barris de petróleo, em comparação à mesma quantidade de PBT de origem fóssil. O novo termoplástico originou inicialmente duas linhas de produtos, uma de resina pura, e outra na forma de uma blenda com PC, com a denominação IQ adicionada aos nomes das respectivas marcas dos produtos convencionais petroquímicos comercializados pela empresa. |
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