|
|
Segundo Elaine, no entanto, é condição necessária que a energia da
superfície exceda a tensão da superfície da tinta aplicada, mas só isso não
basta para garantir a boa adesão na área interfacial. Essa região de um
plástico pintado é um exemplo de um sistema polimérico multicomponente e na
prática a adesão depende da composição de cada constituinte do sistema e do
grau de interação entre seus componentes. “O ideal é que haja difusão entre
as moléculas dos componentes de forma que elas se ancorem umas nas outras”,
analisa. Essa interdifusão molecular pode ser facilitada pela correta
seleção de solventes e pela temperatura exata do tratamento térmico, a que é
submetida.
A utilização de primer é muito comum para promover a adesão da tinta no
substrato. Ele pode ser monocomponente (em geral, constituído de resinas
vinílicas) ou bicomponente (composto pelos sistemas: epóxi/poliamida e
polímeros hidroxilados/isocianato). Para Elaine, os primers baseados em
poliolefinas cloradas a diferentes graduações são os materiais selecionados
em todos os ramos de adesivos como promotores de adesão. Na literatura,
alguns trabalhos dizem que este tipo de promotor de adesão, em solventes
não-polares, se difunde no plástico promovendo a ancoragem (emaranhamento)
necessária para a aderência. Elaine conta ainda que esses polímeros clorados
se ligam tanto ao polímero do substrato quanto ao da tinta, porém em graus
diferentes.
Dados da Eastman dão conta de que o mercado de poliolefinas cloradas para a
ancoragem de uma tinta em substratos plásticos pode ser dividido em plástico
automotivo e não-automotivo. O primeiro representa 66% do total, enquanto o
segundo, 34%. Para o fabricante, no caso da indústria de automóveis, as
poliolefinas cloradas devem apresentar propriedades distintas, como de
adesão, resistência à umidade, solventes, gasolina e karcher – teste com
jato de água com temperatura e alta pressão.
Os recursos de tecnologia disponíveis hoje no mercado superam qualquer
dificuldade para a aderência da tinta no substrato. “Há dez anos isso já é
uma questão dominada”, alega Antoniassi, da Akzo Nobel. O problema se
estabelece quando o plástico é mal transformado. Ou seja, em geral, a falha
não é do revestimento e sim do substrato.
A Eastman conta com um portfólio de promotores de adesão para todos os
segmentos e substratos. “Trabalhamos com estoque local em nossos
distribuidores, suporte técnico e desenvolvimento local para atender o
mercado brasileiro”, avisa o gerente de Negócios Brasil Eastman, Fernando de
Vincenzo. Apesar de não informar a importância dessa unidade de negócio para
a empresa, o executivo diz deter uma posição de liderança no Brasil. A
Midland Química distribui a linha de poliolefinas cloradas, fabricadas pela
Eastman. Segundo o vendedor da Midland Química, Mauricio Dall’ovo,
disponíveis na forma de pó ou solução, esses promotores de adesão são usados
no mercado de tinta base solvente e base água. Eles atuam em diferentes
substratos, como PP, polietileno (PE) e polipropileno biorientado (BOPP),
entre outros. Fundada em 1944 e sediada em Cotia-SP, a Midland Química
atualmente comercializa especialidades químicas fornecidas por 3M, Air
Products, Arkema e WWP, além da Eastman.
O apelo ecológico também tem ressoado nos laboratórios da Eastman. Tanto que
os investimentos recaem em promotores de aderência base água, conforme
explica o gerente de Desenvolvimento de Mercado para América Latina da
Eastman, Marcos Basso. Prova dessa postura se nota no destaque de seu
portfólio, o Eastman Advantis 510W. “Além da característica de ser base
água, tem como benefício não conter cloro em sua composição”, afirma. Esse
promotor de adesão é livre de halogênios e alquilfenoletoxilato. Indicado
para pára-choques de design complexo, o 510W foi desenvolvido para
substratos de PP modificado. “Os Advantis 510W têm como alvo as aplicações
automotivas em plásticos”, completa Basso.
|
Automóveis – Consideradas especialidades, as linhas destinadas ao
setor automotivo atendem às especificações das próprias montadoras. Essa
exigência impulsiona o aperfeiçoamento dos fabricantes de tintas, pois cada
vez mais a indústria percebe a necessidade de suas formulações serem
desenvolvidas sob medida. “Nesse mercado, a gente faz um tipo de venda
específica para as necessidades do cliente”, argumenta Preto, da Arpol.
Remonta à década de 70, o uso do plástico nos automóveis. O argumento
inicial passava pela idéia de reduzir o consumo de combustível, por
conta da crise do petróleo. Os veículos ficaram mais leves, como o
proposto, e também ganharam mais flexibilidade de design, característica
que, em alguma medida, se ratificou com a pintura do substrato. Ao longo
dos anos, a indústria do plástico acompanhou o aumento do número de
peças plásticas nos automóveis; hoje, é crescente a pintura delas. “A
tendência está também no aumento do tamanho das peças. Um exemplo claro
|
Cuca Jorge

Preto: formulações são feitas
sob medida para as montadoras |
são os pára-choques dos modelos lançados
pelas montadoras”, diz o coordenador de negócios de tintas automobilísticas
da Basf, Daniel Nascimento. De acordo com ele, dentro do segmento
automobilístico, área em que a companhia atua, o consumo do mercado está
entre 400 e 600 toneladas ao mês.
Uma estimativa da Akzo Nobel configura o potencial do segmento. Se todos os
carros de passeio tivessem suas partes plásticas pintadas, seria possível
considerar um consumo de 3 mil m³ de revestimento primer até o verniz. Em
tempo, Elaine adverte se tratar apenas de um cálculo prospectado, pois o
consumo de tinta em uma linha depende do processo de aplicação e do tipo de
tecnologia empregada. A Akzo Nobel se considera especialista em primers para
qualquer substrato utilizado pela indústria automotiva, entre os quais se
destaca, por exemplo, o soft touch, para pintura de interiores “Também temos
um diferencial de qualidade quanto ao color matching (casamento de cor entre
as partes, no caso, a peça plástica e a carroceria)”, avisa Elaine.
As maiores peças plásticas de um carro são o pára-choque e o painel
interior, sendo ambos feitos de PP. Mas há também muita acrilonitrila
butadieno estireno (ABS) e poliamida (PA) incorporadas aos veículos. O PP é
um caso à parte. De custo inferior, se comparado aos plásticos de
engenharia, a resina apresenta grande aceitação tanto dentro como fora dos
veículos, porém tem uma superfície polar que dificulta a ancoragem da tinta.
Recordes sucessivos da indústria automobilística nas vendas de veículos no
Brasil, à primeira vista, empolgam os fabricantes de tintas para plástico.
Não por acaso, a Arpol, empresa dedicada à produção de tintas industriais
para os segmentos automotivo, de automação bancária, motocicletas e
comunicação visual, entre outros, resolveu intensificar sua atuação nas
OEM´s (pintura original): em 2003, a companhia firmou parceria com a Red
Spot Paint, líder na produção de tintas para plásticos (para interiores) do
segmento automotivo, nos Estados Unidos.
A transação proporcionou à Arpol a licença para comercializar os produtos da
marca norte-americana no país. “Ficamos três anos investindo na célula da
empresa, sem produzir até sermos certificados”, afirma Preto, diretor da
empresa. A idéia era injetar tecnologia na planta de Osasco-SP para atender
às montadoras no Brasil. Apesar de deter esse subsídio internacional, a
empresa opera com 50% de ociosidade, sobretudo porque a divisão Red Spot
ainda não alcançou os índices propostos, representando entre 10% e 12% do
faturamento da Arpol.
Uma das dificuldades da empresa se configura nos custos de importação. A
companhia opera com matérias-primas de fora, ou seja, a margem de lucro
acaba sendo limitada. “Nosso site é uma montadora de tinta”, diz Preto, em
alusão à tecnologia importada. No entanto, há outros ganhos por trás desse
negócio. Segundo Preto, um dos grandes benefícios se traduziu na
possibilidade da empresa brasileira integrar uma aliança global (Global
Alliance), composta por mais duas companhias internacionais, a Fujikura
Kasei e a Sonneborn & Rieck, além da Red Spot, obviamente.
De acordo com o consultor de negócios da Arpol, Pedro Sthein Medeiros, a
parceria com as empresas estrangeiras abre portas para a companhia no
Brasil, pois de alguma forma embute a sua capacidade para fornecer
tecnologia para líderes do mercado automotivo. Nas negociações com as
montadoras nacionais, utiliza, por exemplo, o argumento de que há vinte anos
a Toyota compra da Fujikura Kasei, no Japão.
Por outro lado, a produção sob a marca da Global Alliance acaba engessando o
funcionamento da célula da Red Spot, dentro da Arpol. “Na aliança global, os
contratos não abarcam mudanças”, explica
|
Medeiros. No entanto, não é
vergonha nenhuma para a empresa, pelo contrário, representa um motivo de
orgulho ter habilidade para seguir normas tão rigorosas.
Os testes das montadoras prezam pelo alto grau de exigência. Preto cita
algumas particularidades, como a necessidade da tinta resistir ao toque das
mãos (suor), a riscos de unhas e ao molho japonês shoyu (de caráter ácido).
Elaine também está acostumada com esse tipo de rigor. “Há montadoras que
solicitam 500 horas de wether-o-meter (teste que mede a durabilidade da
tinta às intempéries)”, exemplifica. |
Cuca Jorge

Peças automotivas prezam pelo
elevado grau de exigência |
Participar da Global Alliance permite à Arpol fornecer ao mercado nacional
um sistema primerless (sem promotor de adesão). “É uma especialidade da
especialidade”, orgulha-se Preto. Segundo o diretor, trata-se de um produto
da marca Fujikura de alta resistência físico-química e de rendimento
incomparável. O primerless não é uma novidade exclusiva da empresa japonesa
– a Akzo Nobel, por exemplo, possui este tipo de linha. A fórmula da
Fujikura, segundo Preto, inova por conseguir 100% de adesão com apenas uma
demão, resultando numa camada fina, entre 20 e 25 micrômetros. “Isso reduz
muito o custo final de produção da peça plástica”, argumenta. A empresa, por
pertencer à aliança, detém, indiretamente, os recursos para a fabricação
desse produto no país. Em tempo: a Arpol também conta com um amplo portfólio
made in Brasil. No geral, são linhas consideradas mais convencionais.
|
|