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Brasil investe
pouco em nanotecnologia
No
mercado mundial, se estima existirem mais de 500 produtos de consumo com
algum tipo de benefício incorporado pela nanotecnologia. No ano passado, o
mercado de produtos “nano” movimentou mais de US$ 88 bilhões somente nos
Estados Unidos. Projeções do conceituado instituto norte-americano Lux
Research apontam uma movimentação de US$ 2,4 trilhões nas vendas mundiais de
produtos do gênero.
No Brasil, calcula-se que houve um investimento em pesquisa e
desenvolvimento de nanotecnologia de R$ 200 milhões nos últimos quatro anos.
A cifra é bastante modesta perante os vultosos investimentos feitos por
outros países, até mesmo pelos demais participantes do BRIC – Rússia, Índia
e China. Em torno de 75% desse montante foi disponibilizado pelo governo
federal, que conta com programa nacional para desenvolver o tema. No
exterior, as empresas investem somas muito mais expressivas do que as
governamentais. Em termos acadêmicos, muitos estudos de qualidade estão
sendo desenvolvidos por aqui. O número de produtos brasileiros com
tecnologia “nano” disponíveis no mercado, no entanto, ainda é pífio.
Esses foram alguns dos temas debatidos durante a solenidade de lançamento da
quarta edição da Nanotec, feira e congresso internacional de nanotecnologia,
o maior evento do gênero na América Latina, a ser realizado este ano entre
os dias 12 e 14 de novembro, no Centro de Eventos Imigrantes, em São Paulo.
A Nanotec 2008 conta com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, da
Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, do Finep, Inmetro,
ABNT e das entidades patronais Fiesp, Abiquim (indústria química), Abiplast
(plásticos), Abit (indústria têxtil), Abinee (elétrica e eletrônica), Abimaq
(máquinas) e Sindipeças (autopeças).
No lançamento, Ronaldo Marchese, diretor da Promove Eventos, organizadora do
evento, explicou que as discussões realizadas durante o congresso serão
centradas em três pilares: oportunidades de negócios que a nanotecnologia
pode oferecer aos empresários brasileiros, quais estratégias devem ser
adotadas para a indústria brasileira ganhar competitividade nos cenários
nacional e internacional e o que está disponível hoje em termos de
nanotecnologia. Na feira, os visitantes terão a oportunidade de conhecer os
estudos e produtos desenvolvidos no Brasil, além de entrar em contato com
novidades internacionais.
Polêmica – As discussões realizadas no evento de lançamento da
Nanotec geraram debates acalorados. Em um aspecto, houve unanimidade. Ao
contrário do que ocorre nos países desenvolvidos, a área acadêmica no Brasil
se encontra muito distante do setor produtivo. É preciso haver uma
aproximação. Para se ter uma idéia da distância entre a realidade nacional e
a do exterior, por aqui, 84% dos cientistas se dedicam às academias. No
exterior, esse índice é de 20%, os 80% restantes estão empregados na
iniciativa privada.
Diante da constatação de que os investimentos feitos em nanotecnologia por
aqui pela iniciativa privada deixam muito a desejar, representantes das
entidades apoiadoras do evento demonstraram visões diferentes. Pierangelo
Rosseti, coordenador de infra-estrutura e capacitação tecnológica da Abit,
reconheceu a falta de apoio, apesar de ter verificado alguns avanços. Ele
ressaltou o Programa de Desenvolvimento Produtivo (PNP) apresentado pelo
governo federal recentemente, que traz incentivos para as empresas
interessadas em investir em tecnologia.
Ricardo Max Jacob, presidente do Conselho da Abiplast, discordou. Ele
lembrou das dificuldades proporcionadas pelo cenário econômico às empresas
brasileiras nos últimos anos. Também reclamou da carga tributária e da
burocracia gigantesca enfrentada pelas empresas interessadas em obter
financiamentos para pesquisa e desenvolvimento.
Em tom conciliador, Cláudio Marcondes, membro da comissão de tecnologia da
Abiquim, ficou no meio de campo. Ele afirmou que a contratação de cientistas
pelas empresas traz bons resultados e deveria ser adotada em maior escala.
Em relação aos problemas do cenário industrial, defendeu o diálogo para a
descoberta de novas fórmulas para se contornar o problema. Por fim,
questionou: se em outros países a integração universidade/empresa ocorre,
aqui também pode acontecer.
Discussões à parte, Mário Norberto Baibich, coordenador geral de micro e
nanotecnologia do MCT, falou dos planos do governo para a área. Revelou que
as verbas investidas no desenvolvimento do setor pelo governo no período
entre 2001 e 2007 ficaram na casa dos R$ 150 milhões e devem evoluir nos
próximos anos. Falou sobre o apoio que o governo dá a dez redes de
desenvolvimento, cada uma delas envolvendo vários centros de pesquisa e
universidades. De quebra, anunciou: este ano, o governo irá apoiar até cem
projetos de pesquisas, entre outras iniciativas.
Por fim, uma triste constatação, feita por Marchese. A nanotecnologia
aumenta a qualidade e reduz os custos dos produtos, os torna mais
competitivos. A falta de investimentos pode deixar a indústria nacional em
dificuldades. Não só para as empresas exportadoras. As que atuam no mercado
local passarão a enfrentar maior concorrência por parte dos importados.
J. P. Sant’Anna
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