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PÓLO CAMAÇARI |
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Agência A Tarde
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Petroquímica baiana busca
novo
fôlego para suplantar
adversidade e
voltar a crescer
José
Valverde |
Uma
nota da Braskem com o anúncio da instalação da fábrica de 200 mil t/ano de
polietileno verde no 2º Pólo Petroquímico foi esperada em vão na Bahia, para
“bombar” as festas dos trinta anos deste conjunto industrial, em operação
desde 29 de junho de 1978. Se o 2º pólo fosse o escolhido, poderia haver uma
reversão no sentimento – essa era a esperança – de que o seu futuro estaria
ameaçado, pelo obsoletismo em marcha, estagnação e desinvestimento.
Menos de duas semanas antes das festas, a Braskem, que havia pedido a
licença ambiental para sua fábrica na Bahia e no Rio Grande do Sul, avisou
que a localização seria no 3º Pólo, o gaúcho.
Na Bahia, restou aos organizadores voltar o foco das comemorações para a
divulgação, reiterada pela Braskem, do início das obras, em 2009, de uma
outra fábrica, a de 300 mil t/ano de polipropileno, projeto há muito tempo
aguardado, com base no fato de que ainda há no 2º Pólo forte excedente da
matéria-prima, o propeno.
O excedente, mais de 300 mil t/ano, é enviado para outros estados,
principalmente o Rio Grande do Sul, para suprir a própria Braskem. “O
mercado de polipropileno cresce a taxas muito altas e o Brasil estará
demandando uma nova unidade fabril por volta de 2011”, disse à Química e
Derivados o vice-presidente de Insumos Básicos da Braskem, Manoel Carnaúba.
“Aliado a essa demanda, temos volume de propeno que justifica uma unidade de
escala mundial”, completou.
No 2º Pólo, a produção de polipropileno está resumida às 115 mil t/ano da
fábrica que foi vendida pela Suzano Petroquímica à Petrobras, que a
incorporou aos ativos da Quattor, a nova petroquímica nacional. É uma das
fábricas que ainda não foram duplicadas, até mesmo para dispor da parcela a
mais do propeno, assegurada contratualmente desde a instalação da segunda
unidade de pirólise na então Copene, atual Unidade de Insumos Básicos da
Braskem, no começo da década passada.
Em 2006, uma reforma catalítica nessa fábrica suprimiu a produção do
polipropileno grau copolímero, cuja síntese além do propeno inclui eteno, na
condição de segundo monômero. A conseqüência mais visível foi o fechamento
da fábrica de compósitos da Basell, que dependia do propeno copolímero, e o
fim do suprimento local deste compósito às fornecedoras de peças para a
Ford.
Manoel Carnaúba anunciou também, sem muitos detalhes, a intenção da Braskem
de construir no 2º Pólo uma fábrica de resinas hidrocarbônicas,
matéria-prima de plásticos de engenharia.
Outros grupos presentes no 2º Pólo também foram instruídos a usar os eventos
referentes aos trinta anos como caixa de ressonância para anunciar projetos
de desgargalamento, ampliação e novas unidades de produção. Os executivos
seguiram à risca essa orientação, atribuída à entidade empresarial, o Comitê
de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic). Mas não anunciaram projetos
considerados estruturantes, os que abrem caminho para desdobramentos
importantes e novos ciclos de desenvolvimento.
O projeto mais próximo de atender a essa expectativa está sendo
materializado em Pernambuco, embora tenha sido idealizado pelo governo
baiano: o de uma fábrica de 450 mil t/ano de ácido tereftálico purificado (PTA),
matéria-prima do poliéster tereftálico (PET), acrescida de uma segunda
fábrica, esta para 215 mil t/ano do filamento de poliéster designado por
polyester oriented yard (POY), matéria-prima intermediária para fios
sintéticos de uso têxtil.
Além do poliéster grau têxtil, que juntamente com a crescente produção de
algodão de excelente qualidade no Oeste da Bahia ensejaria o florescimento
do ramo de tecidos e confecções, como sonhou o governo, haveria poliéster
nos graus embalagem, requerido na produção de garrafas PET; e no industrial,
este para fios de alta tenacidade, usados na produção de pneus.
A favor da localização deste projeto no 2º Pólo havia a circunstância de que
encontraria na vizinhança a oferta das duas matérias-primas requeridas: o
aromático paraxileno, produzido na Braskem, que atualmente o exporta e tem
planos de aumentar a produção; e o monoetileno glicol, na Oxiteno, do grupo
Ultra, também exportado.
A transferência do projeto para Pernambuco foi uma decisão da Petrobras,
atribuída à vontade do presidente Lula, precisamente ao seu interesse em
retaliar o ainda vivíssimo senador Antônio Carlos Magalhães, que andava
desqualificando o seu governo. Mas também se reconhece que faltou o empenho
da própria Braskem, que se declarava interessada no projeto; e do governador
Paulo Souto, que falhou por falta de resistência política. O senador
preferiu ficar calado, presumivelmente para não passar troco, e até para não
ter de reconhecer que houve um golpe prejudicial à Bahia por sua causa – e o
governador seguiu o exemplo.
Neste ano, o primeiro revés no 2º Pólo foi a desativação da fábrica de 160
mil t/ano de estireno da Dow Química, que a havia comprado na onda da
desestatização – uma fábrica que logo nos primeiros anos do 2º Pólo, quando
era a Estireno do Nordeste, isolou a unidade de polimerização. Ficou desde
então limitada à produção do monômero. Obsoletismo, baixa escala e razões de
mercado são a justificativa da Dow Química para a desativação. Há a
expectativa de que a fábrica seja vendida ao grupo Unigel, que fala em
submetê-la a uma ampla reforma. Dow e Unigel estão negociando.
Conseqüência imediata da paralisação na produção do estireno é o aumento do
excedente exportado de benzeno, uma das duas matérias-primas deste monômero,
produzido na Braskem. No primeiro semestre, foram 126,9 mil toneladas
embarcadas, no valor FOB de US$ 133,4 milhões. No 2º Pólo, uma olefina, o
propeno, e dois aromáticos, benzeno e paraxileno, ainda resultam em altos
excedentes para exportação.
No ano passado, a maior baixa no 2º Pólo foi o fim da produção de 78 mil
t/ano da resina PET na Braskem, conseqüência da partida da fábrica da Mossi
& Gissolfi (M&G) em Pernambuco – uma single line de 450 mil t/ano, a maior
do mundo, juntamente com a similar mexicana, também da M&G. A Braskem se
rendeu à maior escala da concorrente, e também à rota, restrita a uma reação
catalítica, em vez de duas. Mas não se rendeu inteiramente. O então
presidente, José Carlos Grubisich prometeu que a fabricação da Braskem seria
reativada, com tecnologia similar à da concorrente. Indagado agora sobre o
andamento deste projeto, Carnaúba respondeu: “Ainda não há uma decisão
final.”
A suspensão da produção de PET encerrou definitivamente outras duas – a do
dimetil tereftalato (DMT), na própria Braskem (78 mil t/ano) e a do metanol,
na Metanor, do grupo Peixoto de Castro (82,5 mil t/ano). Em 2006, além da
fábrica de compósito de polipropileno da Basell, fechou a Lanxess (ex-Bayer),
formuladora dos terpolímeros ABS e SAN.
Outra esperança pró-revitalização da declinante produção de resinas no 2º
Pólo residia na expectativa de que a fábrica brasileira da Toyota fosse
instalada em Camaçari, onde a montadora da Ford alcança alto desempenho. Com
duas grandes montadoras no estado, estaria formado o pólo automotivo, um
mercado seguro para vários termoplásticos, principalmente para o
polipropileno, e alguns termofixos. Haveria mais razões para produtores e
transformadores de resinas, pois a indústria automotiva é a de maior demanda
por plásticos, depois da indústria de embalagens.
Hoje, as maiores peças exigidas na Ford, a exemplo dos pára-choques, são
injetadas na Bahia; e as menores, as que pesam até dois quilos, chegam de
fora.
Incertezas – No clima de euforia e otimismo dos anos seguintes ao
Plano Real, médios e grandes projetos de fábricas, geralmente da terceira
geração e atraídos pelos incentivos fiscais, aparentemente dobrariam o
consumo de resinas e outros intermediários na Bahia. O patamar próximo de
400 mil t/ano seria alcançado, quase o mesmo volume do segundo estado
transformador de resinas, Santa Catarina. Comemorou-se a forte agregação que
haveria na cadeia de produção.
Alguns projetos, a maior parte, não saíram das intenções e da prancheta, por
uma razão inesperada: a crise e incerteza prorrompidas no segundo governo de
Fernando Henrique Cardoso, em razão de seguidas crises em outros países e
conseqüente desaceleração da economia. Na seqüência, veio o governo do
presidente Lula, também caracterizado pelo baixo desenvolvimento, no
primeiro período.
Dos projetos que persistiram e se implantaram, os principais são os da
fábrica de herbicidas da Monsanto e os das fábricas de pneus da Continental
e da Bridgestone, que prenunciaram um novo ciclo de desenvolvimento no 2º
Pólo, baseado em grandes projetos focados principalmente no mercado global,
e só complementarmente no mercado nacional, mesmo o do Sul/Sudeste. Seriam,
a exemplo desses três, investimentos procedentes das empresas matrizes, no
exterior.
Agora, a retomada do desenvolvimento não está ensejando uma nova onda de
investimento na Bahia e no 2º Pólo por duas razões: o iminente colapso na
infra-estrutura e na logística, principalmente a portuária; e as incertezas
fiscais que podem surpreender os projetos beneficiados com incentivos
baseados na redução ou dilação do ICMS.
Desde a posse do governador Jaques Wagner há um sentimento arrefecido em
relação às vantagens que podem resultar dos projetos beneficiados por
incentivos, atribuído principalmente à Secretaria da Fazenda, com certa
resistência de outra secretaria, a de Indústria, Comércio e Mineração.
O secretário da Fazenda encarna o papel de exterminador de incentivos – e,
para justificar, proclama que a arrecadação precisa aumentar três vezes para
resolver os problemas sociais. Aguarda que os incentivos sejam erradicados,
pela via da reforma tributária, enviada pelo governo ao Congresso. O
secretário da Indústria, Comércio e Mineração, no cargo sob indicação do
ministro da Integração, Gedel Vieira Lima, empenha-se em atrair projetos e
reitera discretamente que os incentivos estão vigorando.
O governador demonstra certo vacilo, embora no Japão, onde esteve com o
propósito de convencer a Toyota a desembarcar na Bahia, tenha oferecido os
mesmos incentivos usufruídos pela Ford. “Se não ofereceu, foi até lá apenas
pra passear”, ironiza um economista que atuou como consultor do governo
anterior na questão dos incentivos.
Na prática, está prevalecendo, no plano das declarações, a vaga decisão de
aceitar projetos de empresas que pleiteiem incentivos, até que o governo
federal estabeleça uma política que os elimine, mas assegure esperados meios
para o Nordeste investir em infra-estrutura e melhorar o ambiente para os
negócios. A incerteza aumentou em razão do Projeto de Reforma Tributária,
elaborado com a anuência declarada do governador José Serra e o principal
propósito de detonar os incentivos, combatidos em São Paulo desde o tempo do
governador Mário Covas, que chegou a ameaçar com retaliações as empresas que
deixassem seu estado para usufruí-los.
Esse estado de indecisão e incerteza paralisou as empresas eventualmente
interessadas. Teria sido decisivo para a Toyota não se instalar na Bahia, ou
mesmo em Pernambuco, que apontou entre as suas vantagens competitivas o
elogiado Porto de Suape. Outra incerteza reside na questão dos créditos do
ICMS gerados nas exportações, que estão isentas do imposto – créditos que o
governo passado relutava em pagar, alegando que também não estava sendo
ressarcido pelo governo federal, como reza a Lei Kandir.
Recentemente, no rastro de decisão semelhante estabelecida em São Paulo pelo
governador José Serra, o governo da Bahia reduziu as alíquotas da
petroquímica e outros ramos nas vendas internas, alegando também que assim
estancaria o acúmulo nas retenções do ICMS. O governo de São Paulo é
criticado por condenar os incentivos, mas também concedê-los, principalmente
para a fábrica de aviões da Embraer.
Relatório aponta dificuldades – Representantes de empresas e do
governo da Bahia divididos em sete grupos de trabalho elaboraram o relatório
das questões (fragilidades e problemas) que estão travando a atividade da
indústria na Grande Salvador, com ênfase no 2º Pólo Petroquímico. A intenção
foi apresentar o relatório nessa data aos governos federal e estadual.
Diferentemente do passado, quando era a única concentração industrial no
município de Camaçari e entorno, hoje o 2º Pólo está inserido em um ambiente
empresarial bem mais amplo e diversificado. São aproximadamente cem fábricas
de variados ramos – além das químicas e petroquímicas, as de papel e
celulose, metalurgia, alimentação e as do ramo automotivo.
As três primeiras questões apontadas no relatório, as mais específicas da
petroquímica, embora não exclusivas do ramo, são a fiscal, com destaque
justamente para os créditos do ICMS gerados nas exportações e retidos pelo
governo; a da infra-estrutura e logística, marcada por colapsos e
ineficiências em portos, rodovias e ferrovias; e a da matéria-prima –
escassez de nafta e gás natural, além da necessidade de formar “uma matriz
energética mais competitiva”.
Nos recentes quatro anos, o ambiente no 2º pólo se caracterizou pela
ausência de projetos inovadores, que resultassem em desdobramentos e novas
fábricas. Nesse tempo, várias fábricas e produções foram desativadas,
causando, além da perda de densidade industrial, percepções de estagnação e
desinvestimento – situação que destoa do clima de prosperidade presente em
São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, onde também há atividade
petroquímica. Outras produzem a qualquer preço, beneficiadas com a alta
remuneração que o mercado está proporcionando.
Na cerimônia alusiva aos trinta anos, ocorrida na Associação Comercial da
Bahia, o governador Jaques Wagner anunciou que o ICMS retido, um montante
que a Secretaria da Fazenda calcula em R$ 1,2 bilhão, seria saldado – sem
adiantar detalhes. Anunciou juntamente com desarmadas referências à sua
militância sindical, focadas nas cenas da “grande greve” contra os patrões,
que comandou em 1985, quando era presidente do sindicato dos trabalhadores.
Na mesma cerimônia, o governador recebeu o relatório com as conclusões dos
sete grupos de trabalho formados por representantes das empresas e do
governo. “Esse documento traduz a essência de um trabalho conjunto e
cristaliza os anseios para a consolidação do futuro do Pólo”, concluiu o
presidente do Comitê de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic) e
vice-presidente de Relações Institucionais da Braskem, Marcelo Lyra Amaral.
O Cofic, associação das empresas da petroquímica e de outros ramos que foram
se estabelecendo, coordenou um esforço de comunicação para reverter a
renitente impressão de que o 2º Pólo passa por um momento difícil, sem
grande perspectiva. Na semana dos trinta anos, divulgou comunicados e
declarações de executivos das empresas falando de novas fábricas, ampliações
e modernizações das atuais.
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