|
|
|
reciclagem de
PET |
|
 |
Revalorização
do PET pós-uso em grau alimento
promete revolucionar
o mercado da resina
Texto de Domingos
Zaparolli
e fotos de Cuca Jorge |
A
indústria de reciclagem de PET está no limiar de uma nova fase. Em março, a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma resolução
liberando o uso do PET reciclado pelos sistemas tecnológicos superclean e
bottle-to-bottle para a fabricação de novas embalagens de alimentos e
bebidas. A decisão pôs fim a uma discussão iniciada no órgão público em 2002
e tem potencial, a médio prazo, para impulsionar significativamente os
negócios neste segmento de mercado. Algumas recicladoras já adaptaram suas
estratégias a essa nova realidade. Mas ainda é preciso resolver
|
alguns gargalos, sendo o principal deles a oferta de PET reciclado com
qualidade e a um preço vantajoso em relação ao PET virgem. A coleta
adequada de matéria-prima para reciclagem é um dos desafios a ser
vencidos.
Segundo a Anvisa, quatro empresas já solicitaram autorização para
disponibilizar ao mercado PET reciclado grau alimento. Mas, até o
final de junho, nenhuma ainda havia sido homologada. Pelo menos duas
empresas, Bahia PET e Global PET, já iniciaram estudos para investir
na ampliação de suas capacidades produtivas e atender a essa nova
demanda. Ao mesmo tempo, a alemã Schoeller, que em 2003 havia
anunciado investimentos em uma planta de reciclagem de PET no país,
volta a se mexer, conforme informa Manuel Aleixo Sallovitz, diretor da
Morris & Morgan, responsável pelo projeto da Schoeller. “Os estudos
para a implantação de uma unidade no Brasil foram retomados, mas a
Schoeller julga que ainda seja um pouco cedo para uma entrevista sobre
o assunto”, disse o executivo. |

Sallovitz admite
retomada de planos de investimentos |
O grupo Schoeller controla a OHL Engineering, empresa fornecedora de
tecnologia para o processo bottle-to-bottle. No Brasil, a OHL é representada
pela Man Ferrostaal e, conforme informa Ferry
|
Rosenstock, gerente do departamento de máquinas plásticas, as consultas
sobre a tecnologia bottle-to-bottle se tornaram intensas nos últimos
meses, mas ainda sem nenhuma negociação efetivada. A mesma situação é
relatada por Nelson Ferreira, gerente-comercial da Krones, outra empresa
alemã detentora da tecnologia. “No momento, temos pelo menos três
estudos de instalação de plantas de reciclagem no Brasil”, informa. Na
verdade, o momento é de expectativa em relação às primeiras homologações
da Anvisa e à aceitação do PET reciclado na indústria de alimentos e
bebidas.
O potencial da nova aplicação é grande. Em 2007, foram produzidas 432
mil toneladas de resinas PET no Brasil. Estima-se que 90% deste total
tenha sido destinado à produção de garrafas, principalmente para as
indústrias de refrigerantes e águas. Outros 7% foram destinados às
embalagens de óleos comestíveis. Estas duas aplicações somam 419 mil
toneladas. Se apenas 10% deste consumo migrar para o uso do PET
reciclado, uma estimativa usada por vários competidores do mercado, já
terá sido formada uma demanda adicional de quase 42 mil toneladas do
insumo no país, o que representaria um impulso de mais de 18% sobre a
demanda de PET reciclado em 2007, que totalizou 230 mil toneladas.
Coca-Cola adotará - Diretor-executivo da Associação Brasileira
das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não-Alcoólicas (Abir),
Paulo Mozart acredita ainda ser cedo para uma avaliação sobre a
demanda de PET reciclado na indústria que representa. Ele confirma,
porém, grande |

Rosenstock constata forte
interesse na teconologia

Ferreira analisa três projetos de instalação |
movimento dos associados na procura de fornecedores do insumo. “A
expectativa é de que o consumo de PET reciclado em embalagens de
refrigerantes e águas seja significativo a médio e longo prazo, mas ainda é
preciso muito trabalho no desenvolvimento da tecnologia e em ganho de
competitividade do insumo”, informa o diretor.
Um problema apontado pelos fabricantes de bebidas é a falta de homogeneidade
na cor do PET reciclado. O flake, material picado utilizado no processo de
reciclagem, é obtido de diferentes tipos de garrafas, dificultando a
formação de um padrão de cor do insumo, o que pode afetar o aspecto visual
das embalagens. Hermes Contesini, responsável por relações com o mercado da
Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), também acredita ser este
um empecilho considerável a uma maior difusão do uso do insumo pela
indústria de bebidas. Ele, porém, informa que, de acordo com estudos
realizados, uma composição de até 10% de PET reciclado e 90% de PET virgem
não afeta o padrão de cor das garrafas.
Outro problema apresentado como inibidor do uso do insumo reciclado é o
preço do material. No momento, conforme informam fornecedores, o PET
reciclado grau alimento apresenta no Brasil um preço de mercado entre 10% e
15% inferior ao preço do PET virgem. Mas esse valor pode ser inflacionado
pelo aumento de demanda do produto revalorizado. Nos Estados Unidos, por
exemplo, o PET reciclado já é mais caro que o virgem. O uso do material
reciclado naquele mercado não é impulsionado por um objetivo financeiro.
Responde a uma demanda pública por uma maior sustentabilidade das atividades
econômicas, com as empresas assumindo responsabilidade ambiental pelo ciclo
completo de seus produtos, da matéria-prima ao descarte final. “No Brasil,
as empresas também estão atentas à responsabilidade social e ambiental e o
uso do PET reciclado é uma forma da indústria de bebidas contribuir para
reduzir o impacto ambiental gerado pelo descarte de suas embalagens”, diz
Mozart.
Essa linha de raciocínio pró sustentabilidade já está presente no
planejamento da Coca-Cola Brasil. Conforme relata o diretor de meio
ambiente, José Mauro de Moraes, é interesse da empresa fazer com que suas
embalagens tenham impacto zero sobre o meio ambiente. Sendo assim, a
sustentabilidade pode ter um peso maior que o preço no processo de decisão
da empresa. “A Coca-Cola Brasil é uma entusiasta da tecnologia de reciclagem
e certamente utilizaremos embalagens feitas de resina reciclada”, afirma o
executivo. Para Moraes, em um primeiro momento, a Coca-Cola utilizará 2 mil
toneladas mensais de resina reciclada, o que representará tirar de
circulação 2,4 mil toneladas mensais de garrafas usadas.
Coleta seletiva – Atualmente, o preço da garrafa pós-uso, prensada,
está avaliado entre R$ mil e R$ 1,3 mil a tonelada, dependendo da região do
país e da qualidade do material. Acredita-se que, com a nova demanda, este
preço deva aumentar. A estratégia adotada por recicladores e a indústria
consumidora de PET para obter material para reciclagem é por meio das
cooperativas de catadores. “É um sistema que já possui uma logística
estabelecida, que recolhe não apenas o PET, mas vários materiais, como
alumínio, vidro e papelão. Esta diversidade garante escala à atividade,
proporcionando renda aos catadores”, diz Moraes. O problema é que o sistema
tem sido incapaz de dar conta da demanda e a ampliação da coleta de garrafas
usadas é apontada pelos especialistas como um ponto-chave para o sucesso do
PET reciclado grau alimento.
Segundo um estudo da Abipet, 53,2% das embalagens PET produzidas em 2007
foram recolhidas e destinadas à reciclagem. “O percentual poderia ser maior,
uma vez que há demanda e há uma capacidade ociosa nas recicladoras estimada
em 30% da capacidade”, diz Hermes Contesini. O gargalo, informa, está na
falta de matéria-prima para a reciclagem. “Ocorre que boa parte da garrafa
usada é misturada com o lixo doméstico e acaba em lixões ou aterros,
tornando difícil sua coleta e mesmo seu aproveitamento para reciclagem, por
causa do alto grau de contaminação ao qual o material está exposto”, afirma.
A situação, na opinião de Contesini, só se reverterá quando o poder público
passar a adotar práticas de coleta seletiva de lixo no Brasil. “Teríamos
assim um material pré-separado, protegido de impurezas e facilmente
coletado”, diz o executivo. Ele faz questão de ressaltar que as cooperativas
de catadores deveriam ser inseridas nos projetos públicos de coleta
seletiva. “É uma questão de inclusão social”, justifica.
Investimentos – Na Bahia PET, a obtenção de material para reciclar
não é problema. Conforme relata o diretor técnico Waltencir Maurício
Teixeira, a empresa hoje tem capacidade para reciclar 700 toneladas mensais,
algo como 1,4 milhão de garrafas de refrigerantes de 2 litros, mas tem
condições de obter nos mercados da Bahia e Sergipe 2,5 toneladas mensais de
PET. Desde quando entrou em operação, em 2003, a Bahia PET já trabalha com o
processo de reciclagem denominado bottle-to-bottle. O sistema exige que a
garrafa, depois de retirado o rótulo e a tampa, seja lavada e encaminhada
para a produção de flakes. Em seguida, o material segue para uma extrusora,
onde o PET sai com grau amorfo. Dependendo do uso pretendido, como a
produção de fibra têxtil, o processo de reciclagem termina nesta etapa. Mas
o sistema bottle-to-bottle ainda exige a passagem do material por um reator,
onde é aquecido a vácuo em uma temperatura superior a 270ºC por mais de 15
horas. “A resina sai com grau zero de impurezas, mais limpa que a resina
virgem”, diz Teixeira. A resina também sai com um grau elevado de
viscosidade, o que a torna interessante para aplicações que exigem robustez,
como na produção de fitas de arquear.
|
|