E M B A L A G E M

Indústria vence
resistência dos
varejistas e das
donas-de-casa
e prevê crescimento
do pouch

Texto de Márcio Azevedo
e fotos de CucaJorge

A quantidade de plástico exposto em gôndolas de supermercados é crescente. O consumidor brasileiro parece finalmente ceder ao apelo dos stand up pouches. Alimentos tradicionalmente comercializados em vidro ou lata, rígidos, estão aderindo às embalagens plásticas flexíveis auto-sustentáveis. O mercado parece se direcionar para uma configuração que privilegia embalagens primárias feitas com plásticos flexíveis, secundárias de papel-cartão, e terciárias de caixas corrugadas. Até a chegada a esse estágio de competição com os sucedâneos, muitos desenvolvimentos em resinas, máquinas e estruturas de filmes foram necessários para diminuir custos e conferir às concorrentes plásticas propriedades que permitissem a substituição.

Uma das características mais relevantes para o mercado de alimentos é a capacidade de barreira, como é chamado o poder da embalagem de reduzir a entrada ou a fuga de substâncias que alterem o produto embalado. Agentes ambientais, como a umidade e o oxigênio, afetam severamente a qualidade e a estabilidade dos alimentos.

Desejado versus non grata – Para a indústria alimentícia, então, é essencial que as embalagens possuam a capacidade de evitar o contato de seus conteúdos com umidade, alguns gases, e luz, ou de impedir que percam aromas e substâncias, como gorduras.

Alimentos secos, com baixo teor natural de umidade, ou desidratados, com baixo teor induzido, demandam embalagem com barreira ao vapor d’água, caso das bolachas, do café solúvel, do leite em pó, do amendoim, das nozes e da castanha. A permeação da umidade provoca a perda da crocância. Em outros produtos, como nas carnes frescas e industrializadas, nos derivados de tomate e nos produtos gordurosos, como a maionese, o grande vilão é o oxigênio, cuja ação faz surgir o ranço. Muitos alimentos, como a castanha-do-pará, são sensíveis a ambos os agentes, e necessitam de embalagens que confiram os dois tipos de barreira.

A luz também pode ser um problema. Sendo uma energia radiante, ela acelera reações, principalmente as de oxidação. Pior: ela não só acelera um processo que já é prejudicial ao alimento, como, muitas vezes, induz, adicionalmente, processos de fotodegradação. O pigmento do presunto responsável pela sua cor rósea se torna facilmente acinzentado pela ação da luz. Outro agravante: em muitos casos, a transparência da embalagem é uma característica desejada, porque o consumidor, o brasileiro em particular, gosta de ver o produto embalado. O pior comprimento de onda para os alimentos, no entanto, é o da luz ultravioleta, graças à energia elevada, que degrada certas vitaminas e pigmentos e catalisa as reações de oxidação e formação de ranço.

Outro efeito que pode ser necessário é a barreira ao aroma. Essa propriedade se diferencia do que a indústria chama de barreira a gases; pois, nesse caso, em geral, está se referindo ao impedimento da permeação do oxigênio. Na perda de aroma, a preocupação é com o escape de substâncias como o delimoneno, responsável pelo odor dos sucos de laranja. Além disso, parte dos aromas sofre oxidação e também se perde, tornando comum a combinação com barreira ao oxigênio. Um bom exemplo é o café, cuja exposição ao gás degrada o aroma característico, com perda de sua intensidade e o desenvolvimento do sabor de ranço. Centenas de compostos químicos contribuem para a formação do odor característico, e a perda de parte deles já desequilibra o aroma do produto. O cuidado também é justificado porque o olfato está muito ligado ao paladar, de modo que a perda de aroma é quase sinônimo da perda de sabor.

No segmento de ração animal, é comum a barreira à gordura proveniente do alimento. Caso ocorra a permeação, a embalagem se torna pegajosa. Em muitas delas, a gordura age como solvente sobre as tintas de impressão e também pode causar a delaminação dos filmes plásticos.

Co-extrusão, metalização e laminação – Para atender a essas necessidades por barreira, manter a qualidade e estender a vida útil dos alimentos, a indústria de plásticos fornece diversos filmes co-extrudados, combinando diferentes tipos de resinas, bem como filmes laminados com folhas de alumínio ou revestidos a vácuo com o metal (filmes metalizados), e combinações dessas possibilidades. Segundo a engenheira e pesquisadora científica do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea) do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), Claire Sarantópoulos, na manufatura de embalagens com barreira ao oxigênio, são muito utilizados os filmes metalizados de polipropileno biorientado (BOPP), de poliéster orientado e de poliamida orientada (PA, ainda pouco utilizada no Brasil) e as resinas EVOH e PVDC. As poliolefinas, em geral, só conferem a barreira a gases quando metalizadas. Além da tecnologia convencional de barreira ao oxigênio proporcionada por resinas com essa característica, é possível combiná-la a uma modalidade de barreira denominada ativa, inserindo-se um absorvedor de oxigênio na estrutura do filme. Essa tentativa de melhorar o desempenho se iniciou com a adição de sachês contendo o absorvedor no interior da embalagem. Mas como esse item nem sempre é comercializado pelo fornecedor da embalagem, os produtores perceberam a oportunidade para agregar essa característica – bem como as margens dos produtores dos sachês. Com isso, foram desenvolvidas estruturas multicamadas contendo náilon e poliésteres oxidáveis, que aprisionam o oxigênio durante sua oxidação. A resina absorvedora, dependendo da concepção da embalagem, ajuda a suprimir o gás que já está presente no interior do invólucro, conferindo um desempenho que vai além da simples melhoria da barreira passiva.

O avanço da umidade pode ser impedido com filmes de BOPP, e até PP, polietileno de alta densidade (PEAD) ou de baixa (PEBD), bem como com todos os filmes metalizados e com o PVDC. Os dois últimos, aliás, fazem campo duplo, impedindo a permeação de gases e da água. Mas, como a transparência está muito relacionada ao marketing, dados os costumes dos consumidores, e nos filmes metalizados não é possível ver o produto, já existem filmes de poliéster orientado, BOPP, ou PA orientada, revestidos com óxidos de alumínio e silício, que possibilitam a passagem da luz visível e resultam em metalizações transparentes.

Poliéster, PA, PVDC e EVOH, além de algumas resinas acrílicas, também são empregados em filmes com propriedade de barreira a aromas. A capacidade de reter o odor depende muito do tipo do aroma, de modo que determinadas resinas se comportam melhor com alguns produtos: o poliéster tem bom desempenho em combinação com menta, enquanto a PA se adapta melhor à baunilha. Para barrar a luz, a pigmentação do filme é uma das alternativas. No caso de embalagens transparentes, pode-se utilizar os aditivos anti-UV, que restringem, ao menos, os efeitos do comprimento de onda mais danoso. Poliolefinas especiais e filmes de alumínio dão conta do problema com as gorduras.

Menos alumínio – Esse metal, em estruturas laminadas, confere todos os tipos de barreira. “Em teoria, o alumínio fornece uma barreira total”, afirma Claire. No entanto, essa construção é muito sensível à flexão e quando ela é amassada causa a fratura do alumínio, aumentando muito a permeação. Bastante utilizado em embalagens flexíveis, o laminado com alumínio acabou perdendo espaço para o filme metalizado, cujo preço é mais vantajoso. No processo de metalização, um fio de alumínio no estado sólido é fundido em câmaras a vácuo, evaporado e depositado no substrato polimérico. Em vez de utilizar camadas do caro metal com espessuras de 10 mícrons, o processo resulta em uma cobertura muito mais fina, da ordem de ângstrons, permitindo grande economia.

A Polo Films, empresa do grupo Unigel com unidades de produção em Varginha-MG e Montenegro-RS, é uma das


Claire: folha de alumínio tem baixa resistência à flexão

produtoras locais de filmes de BOPP, dominando as tecnologias de produção tubular e plana e totalizando cerca de 100 mil toneladas anuais. A empresa oferece filmes co-extrudados tradicionais, filmes planos, filmes opacos e filmes mate, além de três diferentes grades metalizados com alumínio, com espessuras entre 15 e 50 mícrons. Durante sua fabricação, os filmes de PP sofrem um processo de estiramento nos sentidos longitudinal e transversal à produção. Essa operação confere uma orientação às macromoléculas poliméricas, criando um arranjo estrutural que modifica propriedades mecânicas e ópticas e aumenta as propriedades de barreira. A orientação, de certo modo, alinha as cadeias e reduz espaços vazios entre elas, tornando mais lenta a permeação, dada a existência de menos caminhos preferenciais. A orientação também altera a cristalinidade da resina, em geral aumentando-a.

Por opção, a produtora não fabrica filmes de baixa barreira, mas dois tipos de média barreira (um que necessita de um primer antes da impressão, e outro passível de impressão diretamente sobre o metal) e um de alta. Nesse caso, contribuem para a propriedade elevada, entre outros fatores, tratamentos superficiais integrantes do segredo industrial da Polo Films. De acordo com Sérgio Bianchini, gerente de desenvolvimento de mercado da empresa, além dos conhecidos tratamentos por chama e por descarga corona, aplicados durante a produção do filme plástico base, é possível realizar outras modificações na etapa de metalização, que incrementam a tensão superficial e afetam certas porções do polímero. Essas partes modificadas ativam aditivos durante o processo de co-extrusão, fechando adicionalmente a malha de metalização e contribuindo para a obtenção de uma estrutura de alta barreira. “Esse filme tem uma consistência muito boa. Temos conseguido substituir o laminado com folha de alumínio em várias estruturas, sem perda significativa da vida de prateleira e com bons resultados”, diz Bianchini.

 

 

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