P L Á S T I C O    N A    C O N S T R U Ç Ã O


Cuca Jorge

Sistemas construtivos de PVC e de termofixo
propõem vantagens técnicas e financeiras
para vencer o déficit habitacional brasileiro


Maria Aparecida de Sino Reto

Com projeções alentadoras, descoladas da crise imobiliária americana que contaminou o cenário internacional, a construção civil brasileira vive um dos melhores momentos de sua história. De acordo com o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), a demanda nacional para este ano está quase toda contratada. Estimativas promissoras apontam para o setor um PIB da ordem de 10%, calcado na ampliação do crédito habitacional em recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, que deverá contribuir em 45% dos investimentos. Atenta às oportunidades, a indústria do plástico viu acender o sinal verde para lançar sua maior aposta na construção civil, com planos ambiciosos de transformar o cenário habitacional nos próximos anos. Trata-se de dois sistemas construtivos, desenhados como alternativas para reduzir o déficit brasileiro de moradias. Um privilegia o termoplástico, o PVC; o outro, um termofixo, o poliéster insaturado.

Em ambos os projetos, contam a seu favor vantagens relevantes como a redução drástica de desperdícios nas obras e no tempo de construção. A agilidade na montagem resulta, ainda, em economia com mão-de-obra. Os dois sistemas, igualmente, dispensam acabamento e oferecem isolamento térmico e acústico. Esses fatores, aliados a outros benefícios, os tornam interessantes e competitivos em relação à alvenaria.

Terreno propício – Carente de investimentos por muitos anos, a área de habitação e saneamento sinaliza um dos melhores momentos para, se não zerar, pelo menos reduzir a números menos vultosos o déficit brasileiro, cravado em oito milhões de moradias urgentes, das quais 6 milhões referentes a indivíduos com renda abaixo dos cinco salários mínimos. “A indústria da construção privada está entrando na seara da habitação popular, está demonstrando interesse nessa faixa”, comentou o gerente de desenvolvimento de mercado da Braskem, Luciano Nunes.

Nesse contexto, sistemas com conotação de linha de produção somam pontos a favor. Se, ainda, eliminam os desperdícios de materiais (hoje, superiores a 10% da obra), sinônimo de economia substancial, e reduzem significativamente o tempo de construção, podem avançar diversas casas nesse jogo construtivo. Eis a fundação para as casas de plástico ganharem terreno na disputa com a tradicional alvenaria. “O sistema construtivo Concreto PVC oferece uma linha de montagem, um processo de industrialização”, explica Nunes.

Como as construtoras estão capitalizadas, o momento se mostra propício para decolar o

Cuca Jorge

Nunes: sistema funciona como um processo de industrialização

sistema, que promete beneficiar do projetista ao usuário final. O caráter modular, sinônimo de versatilidade, favorece o projetista. A construtora ganha em diversos aspectos, tais como: quanto menos artesanal o processo, maior o controle sobre ele; a agilidade na construção equivale a menos mão-de-obra e menor custo, e outros mais. Para o consumidor, a conservação é simples e a durabilidade suplanta a da construção convencional.

Existem no mundo cinco tecnologias em sistemas construtivos com base em painéis de PVC preenchidos com concreto, segundo informações de Nunes. No Brasil, duas empresas dispõem do know-how, ambas no Rio Grande do Sul: a Plásticos Vipal S.A., com fábrica instalada em Porto Alegre, e a Royal do Brasil Technologies S.A., com escritório na mesma cidade. Cada empresa manipula sua própria formulação do composto de PVC. Em comum, ambos os compostos são elaborados com a resina fornecida pela Braskem, que investiu acima de R$ 800 mil em pesquisas (como avaliações térmicas, estudo do concreto mais adequado e com melhor custo etc.) e na divulgação do sistema, dirigido às construtoras. “Não está disponível ao consumidor final”, avisa.

As edificações atendem a todas as normas exigidas para a construção civil e têm aprovação do corpo de bombeiros. “Permitem ampliação com alvenaria e aceitam acabamento convencional, caso o consumidor queira a aparência tradicional: massa corrida, azulejo, pintura”, informa Nunes. Para limpeza, basta água e sabão. Ele ainda ressalta outras vantagens: menor consumo de água e energia na obra, redução substancial de resíduos de construção, durabilidade e baixa manutenção. Com todos esses atributos, o sistema exibe um custo bem competitivo: uma casa de 43 m² sai por cerca de R$ 21 mil.

Nos cálculos dele, existem no Brasil cerca de 500 construções do gênero, de diferentes portes: desde 28 m² até 1.200 m². Como, infelizmente, ainda existem muitas habitações em condições precárias de saneamento básico, o número sobe para 1.500, se incluídos os módulos sanitários (banheiros).
O gerente da Braskem prevê a comercialização de 20 mil a 30 mil edificações, no prazo de cinco anos. Ainda em 2008, os planos contemplam a construção de 2 mil casas, distribuídas em São Paulo, Mato Grosso e Alagoas. Em fase de fechamento de contrato, ele menciona outras 300 casas a serem construídas na região de Campinas-SP.

Entre as estratégias para impulsionar a construção das casas de PVC, a Braskem criou o projeto Concreto PVC, por meio de uma parceria recentemente firmada com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), a Royal e a Vipal, para o desenvolvimento de projetos com base no sistema.

Como primeiro resultado desse acordo, as empresas inauguraram, no final de março, uma casa de Concreto PVC de 43 m², na sede do Lar Santa Maria, uma organização não-governamental (Ong), em Cotia-SP. O evento contou com a participação de executivos e autoridades do setor de habitação interessados em conhecer o sistema, além de prefeitos de diversas cidades.

Essa casa abriga a sede da rádio comunitária da Ong, batizada com o nome de José Carlos Pierucetti, arquiteto da Braskem idealizador desse sistema construtivo com fins sociais no país, morto no acidente da TAM, em São Paulo, em junho do ano passado.

O Lar Santa Maria atende jovens carentes, de 15 a 18 anos, com ações voltadas, em especial, a facilitar a entrada no mercado de trabalho. Além da rádio, a Ong aproveita as instalações para ministrar aulas de DJ e de locução para esses jovens.

A unidade instalada no Lar Santa Maria, construída em parceria com a Royal, consiste em um sistema de perfis leves de PVC, com encaixe simples dos módulos, depois montados e preenchidos com concreto e aço estrutural. Os painéis atuam como fôrma para o concreto e formam o acabamento interno e externo às paredes. A nova rádio da Ong serviu também para demonstrar a capacidade do material de permitir acabamentos convencionais, como azulejos, pintura e texturização, e de se integrar a outros sistemas: a casa tem uma extensão feita de alvenaria com blocos de concreto.

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Os módulos de perfis da Royal têm encaixe simples

O vice-presidente da unidade de vinílicos da Braskem, Luis Felli, participou da inauguração e revelou perspectivas promissoras, sustentadas nas parcerias firmadas e nos recursos do PAC. “O foco do projeto é a moradia popular. O sistema garante flexibilidade, ganho de escala e implementação rápida.”

Made in Brasil – Fabricado no sul do país, o sistema construtivo Casaforte foi desenvolvido pela Medabil, que, há quatro anos, vendeu o negócio para a Vipal, líder no mercado brasileiro e na América Latina no segmento de borracha. A decisão de compra foi tomada com foco na diversificação em atividade que mantivesse o crescimento da empresa. “Buscamos setores com sinergia e identificamos no plástico essa oportunidade, com a expectativa brasileira de investimentos em infra-estrutura”, contou o diretor-executivo da Vipal, Carlos Humberto Amodeo Neto.

A área de plásticos é dividida em três unidades de negócios de produção e vendas: a de varejo (forros, portas sanfonadas, divisórias e acessórios para forros) representa cerca de 85% do volume de vendas e faturamento; a de esquadrias e perfis de PVC para montagem de portas e janelas responde por entre 10% e 12%; e o sistema construtivo detém parcela estimada em 3%.

A tecnologia Casaforte provém da empresa canadense Digigraph, com direitos concedidos à Vipal para uso no Brasil e na América Latina. “Nosso foco são as construtoras, na implementação de loteamentos residenciais de baixa renda, segmento em desenvolvimento no país, e também de projetos específicos, como módulos sanitários, estações de tratamento de esgoto, centros de saúde, escolas e outros”, informou Amodeo.

O sistema construtivo é constituído por paredes formadas por módulos “encaixáveis” dos perfis de PVC, do tipo macho-fêmea, preenchidos com concreto. Os módulos são encaixados verticalmente

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Amodeo visa os loteamentos residenciais
de baixa renda

na obra, formando as paredes – uma fôrma natural para a concretagem. Trata-se de um processo industrializado, organizado em quatro etapas: montagem de radier, paredes, cobertura e acabamento.
As instalações hidráulicas e elétricas podem ser colocadas interna ou externamente aos perfis e o preenchimento dos módulos, feito com concreto convencional ou celular. O perfil (natural, pintado ou texturizado) é usado como acabamento final nas áreas internas e externas da construção. A construção de PVC é compatível com os materiais de alvenaria convencional.

 

 

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