Mercado desenvolve moléculas livres de
fenol e reestrutura portfólio,
com foco nas especialidades
Texto de Renata Pachione e fotos de Cuca Jorge

Exigências de alto desempenho, quanto à máxima inibição das reações de degradação do polímero e à sua capacidade de minimizar a geração de cor, têm norteado os novos desenvolvimentos da indústria de antioxidantes. O resultado dessa postura se reflete na oferta de produtos livres de fenol e de sistemas feitos sob medida para os clientes. Os fabricantes também redefiniram o portfólio de produtos, com foco nas especialidades, numa tentativa de alinhar suas estratégias às atuais solicitações desse mercado, estimado, hoje, em cerca de 160 mil toneladas/ano.

O setor vive um período de transição, no qual os fabricantes de antioxidantes estão buscando um foco de atuação e reposicionando o seu negócio. Esse é o caso da norte-americana Chemtura. A empresa decidiu se direcionar para a produção de especialidades e, portanto, não irá investir mais no aumento da sua capacidade instalada na área de commodities. Além disso, no terceiro trimestre do ano passado, a Chemtura fechou duas plantas localizadas na Itália. Em linhas gerais, a produção interrompida foi a de aditivos commodities convencionais – o arroz com feijão do mercado –, os fenólicos Irganox 1010 e 1076, da Ciba Especialidades Químicas, que na Chemtura se chamam Anox 20 e Anox PP 18, e o antioxidante secundário Irganox 1680, correlato ao Alkanox 240.

A estratégia se deu porque as unidades não eram mais competitivas. Afinal, para se produzir commodities e se manter no setor é preciso volume e custo baixo. O último quesito, em particular, não era atendido nos players italianos. No entanto, como prova de sua vitalidade, a companhia mantém duas joint ventures, uma na Arábia Saudita e outra na Coréia, onde produz o commodity convencional, entre outros produtos, e ainda possui na sua unidade em Rio Claro-SP a produção de blendas de antioxidantes para as petroquímicas. A Chemtura é uma das líderes do mercado de aditivos plásticos e resulta da fusão, em 2005, da Crompton Corporation com a Great Lakes Chemical Corporation.

Em meio ao movimento do mercado, a Ciba Especialidades Químicas tem a tradição a seu favor. A história mundial dos antioxidantes está intimamente ligada à sua trajetória, pois a companhia é responsável pela introdução das misturas sinérgicas e das marcas Irganox e Irgafos, conhecidas globalmente e copiadas por todo o setor. Esses desenvolvimentos nasceram na Ciba, dentro do segmento Plastic Additives, chamado no passado de Additives. Desde então, o pioneirismo tem sido palavra de ordem na companhia que, até mesmo por isso, se mantém na liderança do mercado global, longe dos outros fabricantes no ranking dos antioxidantes.

Apesar dessa folga, os investimentos não estão estagnados, há novidades à vista. Com fábricas nos Estados Unidos e na Europa, a Ciba gastou US$ 100 milhões em uma futura unidade em Singapura. “É nossa maior fábrica de antioxidantes”, afirma o gerente de Novos Negócios Plastic Additives, Francisco Lopes. A unidade deverá produzir 30 mil toneladas/ano de antioxidantes, capacidade que poderá ser expandida nos anos seguintes à sua inauguração, prevista para 2008. Talvez seja uma forma de compensar a perda da fábrica de antioxidantes de Camaçari-BA, recentemente fechada, segundo Lopes, por falta de escala e de fonte de matéria-prima local.

Tendências – Estratégias de posicionamento à parte, a empresa tem apostado nas tendências mundiais. O crescente interesse dos clientes em misturas de aditivos, vendidos na forma de um único produto e das chamadas formulações taylor made − feitas sob medida para o cliente −, impulsionou a Ciba a investir na sua unidade de mistura e compactação, em Americana-SP, em parceria com a Bärlocher do Brasil. Essa planta absorveu investimentos para dobrar sua capacidade instalada.



De acordo com Lopes, foram desenvolvidas e aprimoradas as misturas de aditivos, como antioxidantes, antiácidos, auxiliares de processo, antiestáticos entre outros, para atender à demanda dos clientes para uma determinada formulação em um aditivo só. Na verdade, o conceito vai além de um simples produto, pois se configura como um sistema de aditivação. “Com essa atitude, procuramos agregar serviço ao mercado, atendendo principalmente os produtores de resinas”, informa Lopes. Para ele, as vantagens se traduzem na logística e no manuseio facilitados dos aditivos.

A importância dos antioxidantes para a Ciba se reflete em números. Hoje, esse tipo de aditivo corresponde a 20% do faturamento da empresa e 45% da área Plastic Additives. Esse segmento, antes restrito aos antioxidantes e estabilizantes à luz, agregou antiestáticos, antimicrobianos, antichamas e outros aditivos de efeitos.

O desenvolvimento do antioxidante fenol-free (livre de fenol) também representa uma aposta da Ciba. “É no que mais temos investido nossos recursos”, revela Lopes. A procura por este tipo de produto tem aumentado, a ponto de motivar o líder do mercado de antioxidantes a concentrar seus esforços nessa categoria. A razão é simples: trata-se de uma alternativa para corrigir o amarelecimento causado pelo fenol.

Como resultado de seus esforços, a Ciba trouxe ao mercado o Irgastab FS 533. Representante da linha de antioxidantes livres de fenol, o produto é apresentado como detentor de uma boa estabilização térmica e de processamento, porém sem comprometer a aparência do polímero. Da mesma linha de produtos, mas destinado aos poliuretanos (PU), a empresa também lançou o Irgastab PUR 68. Testes feitos pela Ciba comprovaram a sua eficiência, no quesito cor, em comparação aos sistemas à base de fenóis.

Lopes: investimento no fenol-free

Um outro destaque entre as novidades recentes da Ciba ficou por conta de um aditivo desenvolvido para polietileno de média densidade para aplicações de rotomoldagem. O fabricante promete que o produto vai além do esperado por um antioxidante. Segundo Lopes, o aditivo é capaz de evitar a degradação do termoplástico, atenua o amarelecimento, e mais: reduz o ciclo de produção. Em outras palavras, diminui o consumo de energia necessária para o processo e também conta com um apelo ambiental, pois consegue baixar a emissão de gás carbônico.

Conforme Lopes explica, o produto facilita a saída das bolhas de ar, o que acelera o processo de rotomoldagem. O ciclo pode ser encurtado entre 15% e 25%, se comparado a um sistema convencional de antioxidantes. No caso da fabricação de um tanque de água de 80 litros, a economia chega a seis minutos por ciclo. “Essa redução significa aumento de produtividade anual de 2.250 tanques por máquina”, ressalta o gerente. Ainda sem nome oficial, o produto já foi mostrado aos fabricantes de polietileno para ro­to­mol­dagem, mas deve ser lançado oficialmente somente em maio deste ano.

Apesar dos investimentos da Ciba em produtos livres de fenol, o desempenho dos aditivos fenólicos está fora de discussão. No setor, todos aceitam como consenso que a sua capacidade de estabilização térmica e de processamento é imbatível. No entanto, a falha do fenol está no fato de gerar como subproduto a cor.

Como observa Lopes, os antioxidantes fenólicos e os fosfitos não possuem apenas a tradição, mas também o bom desempenho, como pontos positivos. As blendas sinergéticas entre esses dois aditivos estão bem estabelecidas. A ponto de a Ciba estimar que os fenólicos e os fosfitos representem 90% do mercado de antioxidantes para plásticos. “Normalmente, os fenólicos e os fosfitos são aplicados em combinação e atendem à maioria das necessidades de estabilização térmica e de processamento de diversos polímeros”, diz Lopes. A saber, os Irganox 1010 e 1076, duas das principais referências do setor, são fenólicos, isso sem contar o precursor BHT, um fenol trissubstituído.

Porém os tempos são outros. Cada vez mais exigentes, os clientes solicitam produtos capazes de oferecer não somente a alta performance, mas sobretudo melhorias na aparência. Ao longo dos anos, reduzir o amarelecimento inicial ou após o envelhecimento do produto plástico não colorido tem sido a batalha travada pelos fabricantes de aditivos. A substituição dos fenólicos e dos fosfitos é difícil, mas a indústria está atenta às novas demandas. “Temos procurado investir nossos recursos de pesquisa e desenvolvimento em soluções que minimizem ou eliminem o amarelecimento em algumas aplicações de maior exigência”, completa Lopes. Há algum tempo, se pensou na vitamina E como alternativa. No entanto, sua eficiência deixa a desejar, sem um produto auxiliar que potencialize suas propriedades.

Apesar do foco nesses novos desenvolvimentos, a Ciba não prevê a completa eliminação dos fenólicos, sobretudo, porque ainda são soberanos no mercado. No ano passado, a companhia registrou volume de vendas de antioxidantes fenólicos e fosfitos da ordem de 3,5 mil toneladas, somente no Brasil.

Foco nas especialidades – Os novos desenvolvimentos do fabricante de aditivos norte-americano Cytec também dizem respeito às categorias de produtos de alto desempenho. Além de embutir a idéia de um nicho de mercado atraente, traduz o interesse da companhia de ser reconhecida como uma importante produtora de especialidades. “Não pensamos mais no mercado de commodities, nosso foco agora são as aplicações especiais”, informa o gerente de vendas da Polymer Additives Brazil da Cytec, Cássio
Martins.

Uma prova desse posicionamento está na decisão de, no segundo semestre, retirar do portfólio da Cytec a linha de negócio de antioxidante commodity. Segundo ele, a companhia vai para o caminho inverso ao de algumas corporações que investem em grandes volumes. A chave do crescimento, na avaliação desse fabricante, é se especializar em soluções para os clientes. “Esse é o nosso futuro”, aponta Martins. Essa estratégia vem como uma forma de tornar a empresa mais competitiva, sobretudo em
território nacional. Hoje, toda a produção de antioxidantes se dá nos Estados Unidos. Há planos de ampliar a fabricação de suas linhas, para unidades na Ásia.

Martins: as commodities estarão fora do portfólio

No entanto, essa expansão não deve chegar ao Brasil, apesar de as vendas brasileiras apresentarem grande potencial. Para a companhia, a América Latina é tão promissora quanto a Ásia. “Nós, da Cytec, temos crescido muito no mercado de antioxidantes especiais, porque cada vez mais as exigências estão aumentando”, observa Martins. Os antioxidantes representam entre 20% e 30% do faturamento global da Cytec, dentro de sua linha de aditivos.

 

 

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