Perspectivas 2008

Domingos Zaparolli
Quem observa os resultados da indústria de transformação de material plástico em 2007 chega a uma conclusão inequívoca. A produção e o consumo no Brasil vão bem, obrigado. Mas a saúde financeira das empresas preocupa. Os dados da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) apontam que o consumo aparente de transformados plásticos no Brasil cresceu 7,1% em 2007, chegando a 4,9 milhões de toneladas. O faturamento do setor, no entanto, registrou uma queda de 7,5% no ano, limitando-se a R$ 37,54 bilhões. Em 2006, o número foi bem mais vistoso: R$ 40,59 bilhões. Como se não bastasse, o custo das resinas plásticas também subiu de maneira substancial no ano passado em decorrência, principalmente, da alta dos preços internacionais do petróleo. O preço do polipropileno (PP) teve um aumento médio de 21% no mercado brasileiro, segundo acompanhamento da Abiplast. Esse conjunto de dados não deixa dúvidas a Merheg Cachum, presidente da Abiplast: “Em 2007 houve uma queda brutal na margem de lucro das empresas do setor”, afirma o executivo.
A questão é: O que pode devolver rentabilidade às empresas de artefatos plásticos? Cachum acredita que uma alternativa seria a consolidação. A indústria brasileira da transformação do plástico é bastante pulverizada, avalia-se que somam aproximadamente 8,8 mil empresas. E o perfil predominante é de unidades fabris de pequeno porte, 86,83% do total possuem até 49 funcionários. Já as médias empresas, com até 250 empregados, somam outros 11,49%. Além disso, muitas empresas são familiares e, na sua grande maioria, não são detentoras de processos produtivos modernos; na verdade, são empresas bastante defasadas em relação aos padrões das economias mais desenvolvidas. “O ideal seria que houvesse em torno de 2,5 mil indústrias de transformados plásticos no país”, diz Cachum.
O presidente da Abiplast avalia que os transformadores plásticos estão sem margem de negociação. São pequenos, mas compram de gigantes, as petroquímicas, e comercializam sua produção, principalmente, com grandes compradores, como as indústrias automobilísticas e de construção civil, assim como negociam também com grandes varejistas. “Temos pressão de custos, mas não temos como repassar para os preços. Somos obrigados a reduzir a rentabilidade, mas isso tem um limite e já estamos perto dele”, afirma o executivo.O poder das petroquímicas – Cachum acredita que a necessidade de consolidação no setor de transformação se tornou ainda mais premente após o processo de reestruturação da indústria petroquímica ocorrido em 2007, cujo resultado foi a concentração dos negócios em duas grandes companhias, que estão nas mãos de três empresas: Petrobras, Braskem e Unipar. “Essas empresas ditam o mercado e os pequenos transformadores não possuem capacidade de negociar. Na verdade, a maioria nem tem acesso às petroquímicas, compram de revendedores”, diz o executivo.
Na prática, Cachum teme que o poder de fogo das petroquímicas aumente ainda mais a diferença entre os preços das resinas plásticas no Brasil e os praticados no exterior. “Já temos casos onde a diferença do preço da tonelada da resina brasileira supera em até R$ 200,00 o preço da mesma resina no exterior”, afirma o presidente da Abiplast. “A questão é que nós, os transformadores, estamos perdendo competitividade. Precisamos de empresas fortes também na indústria de artefatos plásticos para poder negociar com as petroquímicas ou ter volume que viabilize ações de importação de matéria-prima”, diz Cachum.
A perda de competitividade das transformadoras nacionais apontada por Cachum se evidencia na balança comercial do setor, que ficou negativa em US$ 569 milhões em 2007. As exportações até que cresceram, 2,7%, alcançando 332 mil toneladas e um faturamento de US$ 1,18 bilhão (12,5% de aumento).
Mas é nas importações onde o impacto da maior competitividade dos fabricantes estrangeiros já se faz sentir com força. O volume de artefatos plásticos importados subiu 11,8%, bem acima do crescimento do consumo aparente (7,1%), passando de 352 toneladas importadas em 2006 para 393 toneladas em 2007. Já o valor financeiro das importações aumentou 24%, registrando US$ 1,75 bilhão.
“Começamos a viver um cenário, principalmente no segmento de embalagens, onde o produtor brasileiro terá de disputar o mercado local com o estrangeiro, em especial o chinês. E tudo joga contra o fabricante nacional, que enfrenta um preço maior na matéria-prima, uma carga tributária alta e ainda um câmbio que favorece o produtor estrangeiro. Competir como?”, indaga Cachum. O executivo ainda faz uma previsão sombria. “Se o real se valorizar ainda mais diante do dólar, como prevêem alguns economistas, vai ser um desastre. As exportações vão se inviabilizar, as importações aumentar e muitos transformadores plásticos vão fechar.”
Diante desse cenário, Cachum informa que a Abiplast tem realizado pleitos no Ministério da Fazenda para o setor ser incluído na política de apoio e compensação do câmbio que o governo federal anunciou para as indústrias calçadistas e têxteis. Além disso, a associação, na travessia do ano passado, iniciou negociações com o governo de São Paulo pleiteando sua inclusão na política de redução tributária estabelecida em 2007 para o setor petroquímico, que reduziu o ICMS das resinas de 18% para 12%. “É um benefício considerável, que apoiamos, mas faltou estender este apoio para quem mais precisa, a indústria de transformação. É isso que estamos reivindicando”, afirmou o dirigente, durante coletiva de imprensa no final do ano.
Consumo em alta – Nem todos os itens da conjuntura, porém, são desfavoráveis aos transformadores plásticos. O principal fator, o consumo, aparenta ter fôlego para continuar em alta em 2008. Segundo a Abiplast, no ano passado, as vendas de artefatos plásticos obtiveram bom desempenho em praticamente todos os segmentos, mas dois setores foram os principais responsáveis pelo aumento da demanda: a construção civil e a indústria automobilística, que cada vez mais adota peças produzidas com materiais plásticos para reduzir o peso dos veículos e, como conseqüência, o consumo de combustível. Em 2007, conforme dados da Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea), foram produzidos no Brasil 2,97 milhões de veículos, um recorde que representou um crescimento na produção de 13,9%. E a expectativa entre os produtores de veículos é de que o bom desempenho continue em 2008. Assim como a previsão do SindusCon é de um crescimento de 10% na construção civil em 2008.
A indústria de transformação do plástico, acredita Cachum, deve pegar uma carona no crescimento da economia brasileira, principalmente destes dois setores, e ainda ser beneficiada pelo fato de 2008 ser um ano eleitoral, situação que beneficia os fabricantes de plásticos com o aumento das encomendas de material de campanha. “Nossa previsão é de que o volume de consumo de artefatos plásticos deva crescer na casa de 10% em 2008”, diz o presidente da Abiplast. Cachum lembra que o potencial de crescimento da indústria do plástico no Brasil ainda é muito grande, em virtude do baixo consumo per capita do país. O consumo médio do brasileiro é de 24,23 quilos, enquanto que os africanos consumiram 25 kg em média em 2005 e os argentinos, no mesmo ano, 35 kg. Em um país europeu, o consumo é bem maior. Na Bélgica, em 2005, cada cidadão consumiu em média 181 kg de plástico. “Nosso consumo é baixo até para os padrões dos países menos desenvolvidos. Isso significa que há ainda muito espaço para a indústria de artefatos plásticos avançar no Brasil, fato que ocorrerá com o ganho de poder aquisitivo da população, o que já vem ocorrendo nos últimos anos”, afirma o executivo.
onsumo responsável – Se por um lado o consumo médio de artefatos plásticos no Brasil ainda é baixo e tende a crescer, por outro, também é verdade que o momento em que esse crescimento começa a se tornar mais possível no país ocorre quando o consumo de plástico está sendo questionado em todo o mundo por cidadãos que querem reduzir o impacto ambiental de suas ações de consumo. O fabricante brasileiro pode, portanto, ter chego atrasado ao boom do consumo mundial do material. O principal alvo desse questionamento ecológico, no momento, são as sacolas plásticas.
Segundo Cachum, a Abiplast está atenta a este movimento e tem procurado se posicionar a fim de reduzir os possíveis impactosambientais do consumo do plástico. No final de 2007, a associação participou de um evento realizado na Assembléia Legislativa de São Paulo para o lançamento da Frente Parlamentar em Defesa do Uso Responsável de Sacolas Plásticas. Na ocasião, relata Cachum, a Abiplast apresentou uma nova sacola plástica voltada para o varejo. A sacola é bem mais resistente e possui dois modelos, com capacidade para 6 e 8 quilos, fabricados de acordo com os padrões técnicos estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). O objetivo é desestimular o consumidor a usar duas ou três sacolas plásticas sobrepostas para evitar que se rompam. A Associação Brasileira de Supermercados assinou um termo de compromisso para o uso dessas sacolas plásticas mais resistentes e, conseqüentemente, mais caras, em substituição às sacolas usadas hoje. A meta é reduzir em 30% o consumo de sacolas plásticas.

Além disso, informa Cachum, a Abiplast iniciou negociações com o Instituto Italiano para o Comércio Exterior com o objetivo de desenvolver um projeto conjunto para a reciclagem do plástico. O projeto conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente da Itália, que se dispõe, conforme informa Cachum, a transferir know-how e tecnologia para a recuperação e reciclagem de matérias plásticas pós-consumo. Na avaliação do presidente da Abiplast, a concretização desse projeto daria um grande impulso à indústria brasileira da reciclagem do plástico, que atualmente abrange 512 empresas que faturam R$ 1,62 bilhão por ano.