Perspectivas 2008

  • Cuca Jorge
  • Comedido nas estimativas,
Sette prevê crescer até 4%
  • Comedido nas estimativas, Sette prevê crescer até 4%

Abipet

PET reciclado em embalagens para alimentos gera novas perspectivas

Domingos Zaparolli

Odesempenho da indústria brasileira de PET (politereftalato de etileno) grau embalagem está diretamente relacionado com as vendas de refrigerantes, responsáveis pelo consumo de 65% da produção nacional do material, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet). Sendo assim, o ano de 2007 foi muito bom e as perspectivas para 2008 também são positivas. O desafio do setor é atrair novos segmentos de consumo. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes (Abir), até novembro as vendas de refrigerantes registraram um crescimento de 5,46% sobre 2006, quando foram comercializados 13.012.102 mil litros no Brasil e a expectativa é de repetir o desempenho em 2008. A associação informa que 79,8% da produção de refrigerantes, em 2007, foi engarrafada em PET.

A Abipet, contudo, ainda não fechou o balanço do ano passado para a indústria PET, fato que só deverá ocorrer após março, quando terá chegado ao fim o pico anual de produção de refrigerantes. Em 2006, a indústria de transformação de PET registrou um consumo aparente de 420 mil toneladas da resina, sendo que 378 mil toneladas, 90% deste total, foram destinadas à produção de garrafas, um crescimento de 4,23% sobre 2005. Cauteloso, Alfredo Sette, presidente da Abipet, faz uma estimativa moderada. “Acreditamos que em 2007 tivemos um crescimento ligeiramente superior ao registrado no ano anterior”, diz o executivo. As projeções para 2008 também são conservadoras. “Devemos crescer entre 3% e 4%”, afirma o dirigente.

Além da indústria de refrigerantes, outros importantes consumidores de embalagens PET no Brasil são os engarrafadores de água mineral, com 15% do consumo, e os produtores de óleo comestível, com 7%. O restante é utilizado para embalar uma gama variada de produtos como vinagres, sucos, isotônicos, condimentos, cosméticos e artigos de limpeza. Os 10% da produção de PET não utilizados como embalagem se destinam à fabricação de chapas de sinalização, cabos de escovas de dente e prateleiras de geladeira, entre outros. Fora dessa contabilidade está o consumo de PET grau fibra têxtil, estimado em cerca de 100 a 140 mil toneladas anuais.

Novos mercados – No momento, a tarefa da indústria de transformação de PET grau embalagem é desbravar outras frentes de consumo, conquistando novos mercados para a embalagem, uma vez que o processo de migração para o PET, nos principais segmentos em que ele já atua, é tido como consolidado. No caso dos refrigerantes, a participação do PET nas embalagens destinadas ao consumo doméstico é de 80%, e não há perspectiva de avanço do PET sobre o percentual envasado em lata, que atende de forma mais adequada ao consumo na rua. Os executivos do setor avaliam ainda que são baixas as esperanças de emplacar o PET como embalagem de cervejas e vinhos no Brasil, mercados em que a força da tradição é muito grande.

No segmento de óleo comestível, o PET consolidou seu espaço em 80% do mercado. Na indústria do vinagre, o percentual chega a 95%, enquanto que 100% dos isotônicos já são envasados com o material. O PET também se consolidou nas embalagens de chás, sucos e águas. São raros os casos de novas indústrias que adotaram a embalagem PET recentemente. Uma dessas exceções se deu com a Natura, que apostou no material para embalar sua linha de cosméticos Ekos, utilizando-se de um mix formado por 70% de PET virgem e 30% de PET reciclado. No momento, os fabricantes de PET trabalham para ampliar sua presença nas indústrias de limpeza e higiene pessoal e atrair novos usuários do setor farmacêutico.

Alfredo Sette avalia, porém, que a conquista de novos segmentos de mercado para o PET está diretamente relacionada com a capacidade do material demonstrar sua viabilidade ambiental, fugindo do estigma, no seu ponto de vista injusto, de agressor do meio ambiente. O executivo relata que análises de ciclo de vida de materiais, promovidas pelo Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea), demonstram que o PET possui duas grandes vantagens sobre o seu maior concorrente, o vidro. Em primeiro lugar, o PET, por ser mais leve e resistente, simplifica a logística e reduz o consumo de combustível no transporte. Em um caminhão de refrigerantes embalados em PET, apenas 2% da tara é referente à embalagem, peso significativamente inferior ao registrado por outros materiais. Além disso, como a garrafa PET é descartável, os caminhões não rodam carregando embalagens vazias. A outra vantagem diz respeito ao gasto de água necessário para a reutilização de uma garrafa de vidro, que chega a 5,5 litros.

Avanço da reciclagem – A embalagem PET, por outro lado, é considerada por alguns ambientalistas como um dos resíduos mais prejudiciais ao meio ambiente. Em virtude do longo tempo que o material leva para se desfazer na natureza. Algumas avaliações apontam o PET como o responsável por 5% do lixo urbano do país. O descarte inadequado do produto também gera problemas, sendo um foco de proliferação de insetos em terrenos baldios e um fator de poluição de rios e córregos. Quem nunca viu fotos de garrafas PET flutuando na água, levadas em enxurradas? Para amenizar essa situação, a saída, acredita Sette, é incentivar a reciclagem. O executivo relata que o PET já é o segundo material mais reciclado do país, atrás apenas do alumínio. Em 2006, foram recicladas 194 mil toneladas de PET no Brasil, registrando um crescimento de 11,5% em relação a 2005. No total, 51,3% do PET destinado às garrafas foi reciclado. Esse percentual coloca o Brasil no segundo posto mundial de reciclagem de garrafas PET, atrás do Japão, que reciclou no mesmo ano 62% do material, mas significativamente à frente dos Estados Unidos (23,5%), Europa (38,6%), Argentina (27,1%) e México (11%).

Em 2006, o consumo de PET reciclado no mercado brasileiro foi de 180 mil toneladas, crescimento de 17% em relação ao ano anterior, e a previsão é de um aumento de 9% no consumo em 2007. Aproximadamente 7% do PET reciclado foi exportado. No mercado interno, o principal usuário do material é a indústria têxtil, que substitui o poliéster virgem pelo PET reciclado, obtendo, no processo, uma fibra com viscosidade mais alta. No ano passado, 40% do PET reciclado no país teve como destino a produção de fibra têxtil.

Para a extrusão de chapas foram encaminhados outros 16% do material reciclado e a indústria de termoformados consumiu 15%. O restante foi destinado à produção de resinas insaturadas, fitas de arquear, plásticos de engenharia, tubos e pela indústria de injeção e sopro. A capacidade instalada da indústria de reciclagem de PET no Brasil é de 249 mil toneladas, divididas em três empresas: Frompet, em Pernambuco; CPR, no Rio de Janeiro; e a Bahia PET. O preço médio do quilo do PET usado, pago aos catadores, é de R$ 1,20. Alfredo Sette avalia que a reciclagem de PET pode dar um salto significativo este ano, caso a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) confirme a decisão já adotada no âmbito do Mercosul de permitir o uso de PET reciclado na composição de embalagem de alimentos.

“Se isso ocorrer, em poucos anos chegaremos a uma margem de 80% de reciclagem”, diz o executivo. Para ele, o aumento da reciclagem trará uma melhor imagem ao material e ajudará a conquistar novos clientes.Tradicionalmente, a embalagem PET é reciclada a uma temperatura de 300 graus, o que, por si só, não garante a completa eliminação de contaminação por materiais pesados. Mas uma nova tecnologia, denominada bottle to bottle, realiza uma pós-condensação do material, o que aumenta sua capacidade de eliminar agentes contaminantes e, assim, viabiliza seu aproveitamento pela indústria de alimentos e bebidas.O sistema já é utilizado na Austrália, nos Estados Unidos e em alguns países europeus. Segundo Sette, indústrias nacionais de reciclagem já possuem capacidade técnica para fazer o processo e pelo menos um grande fabricante de refrigerante do país informou que pretende, assim que aprovado pela Anvisa, utilizar PET reciclado em 10% do mix de suas garrafas.

Fábrica de resinas – 2007 ficou marcado como o ano de uma grande reformulação na indústria nacional de resinas PET. Entrou em operação, no Complexo Portuário e Industrial de Suape, em Pernambuco, a fábrica da italiana Mossi & Ghisolfi (M&G), com capacidade de produzir 450 mil toneladas anuais de resina PET grau embalagem. A nova unidade, no momento, é a maior do mundo, mas em 2008 a M&G irá inaugurar nos EUA uma fábrica com capacidade de 600 mil toneladas anuais.

A fábrica pernambucana é capaz de suprir sozinha e com sobras toda a demanda brasileira da resina, gerando auto-suficiência em PET ao país, que antes necessitava importar em torno de 170 mil toneladas anuais. A nova fábrica, porém, deslocou do mercado a Braskem, que mantinha uma unidade em Camaçari, na Bahia, com capacidade de produzir 90 mil toneladas anuais, e também a unidade da própria M&G de Poços de Caldas, com capacidade de 160 mil toneladas. Estas duas fábricas utilizavam um sistema de produção seguindo a rota conhecida como DMT (transesterificação do dimetil tereftalato). A nova M&G segue a rota PTA (ácido tereftálico purificado), tida como mais eficiente. A Braskem anunciou que analisará, no decorrer de 2008, a viabilidade de migrar para a rota PTA ou se desistirá de atuar nesse segmento de mercado. Alfredo Sette não acredita que a concentração do mercado em apenas um único fornecedor local de resinas PET irá gerar dificuldades para os transformadores. “Os preços da resina são internacionais e há facilidade de importação”, analisa o executivo. A centralização do mercado também ocorre no lado da transformação. Dentre mais de 50, apenas quatro empresas dominam 65% dos negócios.