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Eletrônica orgânica tende a faturar alto

Printed Electronics. Memorize bem esse neologismo. Apesar do nome ainda soar estranho para todos aqueles que não trabalham no setor, a denominada eletrônica orgânica abandonou os laboratórios de pesquisa e acaba de conquistar o status de mercado altamente promissor. A euforia provocada pela nova tecnologia é justificada. Estima-se que o segmento da printed electronics possa render, no momento, algo por volta de 70 milhões de dólares, mas as previsões indicam que, até 2015, deverá superar a casa dos US$ 30 bilhões.

Mas como definir a eletrônica impressa? A resposta é extremamente complexa e mais antiga do que se imagina. Em 1977, os químicos Hideki Shirakawa, Alan J. Heeger e Alan MacDiarmid apresentaram uma novidade revolucionária. Eles descobriram que alguns materiais plásticos, depois de submetidos a um tratamento específico, poderiam se transformar em condutores de energia. O estudo das propriedades eletrocondutoras de alguns derivados de poliacetileno foi considerado tão relevante que, em 2000, os três pesquisadores foram agraciados com o Prêmio Nobel de Química.

Observando o mundo que nos circunda, não é difícil intuir o porquê de tal reconhecimento. Se a flexibilidade e economia dos materiais plásticos representaram uma etapa fundamental na produção em massa de objetos a baixo custo, basta imaginar os reflexos dessas características em dispositivos condutores ou semicondutores.

“Desenvolvemos e patenteamos novos nanodispositivos, inclusive diodos emissores de luz e transistores que são mais simples, econômicos e velozes do que os dispositivos eletrônicos orgânicos precedentes”, comenta o professor Aimin M. Song, docente da “School of Electrical and Electronic Engineering”, da universidade inglesa de Manchester. “Entre as aplicações possíveis da printed electronics estão: a RFID impressa, ou seja, a identificação por radiofreqüência, os displays dobráveis e os sensores de diferentes tipos, mas sempre descartáveis”, completa.

Song considera a printed electronics um capítulo totalmente novo na história da química e da eletrônica. “Em 1967, no filme A primeira noite de um homem, com Dustin Hoffman, já se dizia que o futuro seria o plástico”, lembra. “Esta profecia se revelou verdadeira e agora, pela segunda vez, poderá se repetir com uma nova revolução”, sentencia.

Diante desta afirmação, é evidente que o potencial e os benefícios da eletrônica orgânica serão ilimitados. O setor influenciará significativamente diferentes mercados como o de embalagens – com as etiquetas digitais – iluminação, outdoors, chips de silício e painéis fotovoltaicos, entre outros.

Na Itália, por exemplo, o grupo Telecom Italia e a Tim, sua co-ligada de telefonia móvel, anunciaram para até o final do ano o lançamento do primeiro aparelho telefônico celular do mundo dotado de um display flexível, removível e dobrável, composto de polímeros extremamente resistentes.

A tecnologia, de origem anglo-holandesa e alemã, baseia-se em uma sutil folha de plástico que possui um microchip capaz de garantir resultados semelhantes àquelas do silício, com um custo significativamente inferior.

O display removível lembra o papel impresso, até no que se refere à definição dos caracteres e ao reflexo da luz de sua superfície, permitindo que o usuário do aparelho celular possa colocar à sua disposição praticamente todos os serviços multimídia, sem com isso prejudicar a sua visão. E as vantagens não param por aí.

A pioneira Plastic Logic, uma conceituada empresa britânica, localizada na cidade de Cambridge, investiu cerca de 100 milhões de dólares na construção do primeiro microchip de plástico e antecipa que desenvolverá displays dobráveis de dimensões maiores, onde será possível visualizar as páginas de um jornal ou um livro por via telemática. Não por acaso, o lançamento Telecom/Tim é chamado de “librofonino”.

O desenvolvimento do microchip em plástico permitirá uma redução de 90% na produção de circuitos integrados e a primeira fábrica dedicada a esta tecnologia será construída em Dresda, na Alemanha, e financiada pela Oak Investment Partners e pela Tudor Investment Corporation, duas empresas americanas de venture capital.

Os semicondutores de plástico serão elaborados por um processo muito próximo daquele empregado nas impressoras jet e largamente utilizado na indústria de embalagens para produzir etiquetas digitais.

O emprego de sutis filmes de polímeros representa uma nova fronteira tecnológica porque deixou de ser ficção para traduzir-se em aplicações reais. Uma hipótese cogitada pelos pesquisadores do setor é a sua utilização em roupas embutidas com sensores capazes de monitorar em tempo real a saúde de quem as veste e comunicar tais informações a uma central médica.

Outra possibilidade é aquela de acompanhar eletronicamente o destino das malas nos aeroportos e dos produtos que saem de determinada fábrica até chegar às prateleiras dos supermercados. Tudo isso simplesmente revestindo tais objetos com um filme de plástico.

Quase sempre, revoluções tecnológicas também podem ser sinônimo de temores. No caso da printed electronics, muitos receiam o tão comentado desaparecimento do papel impresso. No entanto, segundo Peter Herdman, exploratory research manager do fabricante de papel ArjoWiggings e um dos relatores do evento Printed Electronics 2007, “o papel continua sendo uma das ferramentas mais importantes na interação entre as pessoas e, portanto, o interessante não é eliminá-lo com dispositivos eletrônicos, mas dar a ele atributos que não possui: a multimedialidade e a instantaneidade do tempo real”, considera.

O segredo é transferir novas funcionalidades ao papel, conectando-o a um dispositivo digital como um PC, um telefone celular ou um PDA. Em outras palavras, trata-se do chamado augmented paper, ou melhor, um papel enriquecido com uma cobertura imperceptível, capaz de conduzir sinais eletrônicos, e que pode ser conectado a um dispositivo eletrônico.

Neste setor, um dos últimos projetos financiados em parte pela Comissão Européia e desenvolvido pelo grupo sueco Anoto é uma caneta inteligente para identificar os dados contidos em uma folha de papel e transferi-los a um dispositivo eletrônico através de uma porta USB ou da tecnologia bluetooth.

Na área do entretenimento, a jovem empresa alemã Menippos acaba de lançar figurinhas que permitem participar de uma partida de futebol virtual na rede mundial de computadores. A popular Hurrafussball foi vendida a mais de 700 mil pessoas em 2006 e, na última edição do evento Printed Electronics, em 2007, a empresa recebeu o prêmio de melhor comercialização da tecnologia.

As vantagens da nova tecnologia entusiasmaram as instituições européias. Na Inglaterra, por exemplo, a iniciativa “Thorn Olead Project”, especializada no desenvolvimento de diodos emissores de luz orgânicos capazes de substituir a luz branca convencional, é amplamente apoiada pelo governo local. “Os dispositivos capazes de emitir luz branca de longa duração com máxima eficiência energética serão semelhantes à luz do dia, mas sem raios UV ou componentes espectrais”, sustenta Geoff Williams, líder do projeto.

A printed electronics também está modificando o setor das tintas. No ramo da publicidade, por exemplo, foi descoberto que os outdoors realizados com tintas condutivas capturam o dobro da atenção dedicada a um outdoor convencional. A novidade agradou tanto que empresas como Apple, Google, Toyota e Microsoft se apressaram para utilizar a nova tecnologia. Hoje, uma das empresas de maior sucesso neste mercado é a Elumin8.

Atualmente, segundo as informações divulgadas pela IDTechEx, as regiões nas quais a printed electronics cresce significativamente são a Europa, os Estados Unidos e o Japão.

Divulgação

Elumin8 aplica a printed electronics em automóveis

Em solo europeu, mais precisamente na Alemanha, também foi fundada a OE-A (Organic Electronics Association), organização que reúne 65 sócios entre empresas, institutos de pesquisas e fornecedores de matérias-primas.

O tema desperta tanto interesse que o calendário de eventos dedicados à printed electronics não fica atrás daqueles reservados a outros setores das indústrias química e eletrônica.

Anelise Sanchez

 

 

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