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Simulação evita
erros nas fases de
produção das peças injetadas
José Paulo
Sant'Anna
Fotos: Cuca Jorge |
Evolução da simulação
do preenchimento
de molde de uma
peça para a indústria
automobilística
transformada pela
Plásticos Mueller |
De
uso corrente nos países avançados, os programas de CAE (Computer Aided
Engineering), desenvolvidos há mais de vinte anos como ferramenta para a
indústria simular no computador o preenchimento dos moldes, ainda são pouco
explorados pelos brasileiros, a despeito dos grandes benefícios que
proporcionam e dos novos recursos a eles incorporados com o avanço acelerado
da informática nos últimos anos. Graças a esses aplicativos, é possível
minimizar erros de projeto, economizar tempo e reduzir custos, além de
melhorar a qualidade das peças plásticas injetadas.
Quem participa dos tryouts, testes de produção de novas peças plásticas
injetadas, sabe as dificuldades que este trabalho apresenta. Durante sua
execução, vários quesitos precisam ser equacionados, de maneira simultânea
ou não. São itens que impedem o preenchimento completo do molde ou provocam
incorreções na aparência das peças, entre outros problemas.
As causas dos erros envolvem algumas variáveis. O design da peça pode se
mostrar inadequado, seja pela espessura das paredes, pela posição de alguma
nervura ou por um ângulo indesejado. Os moldes podem apresentar bicos de
injeção em número mal dimensionado ou em posição errada, além de nem sempre
contarem com sistemas de refrigeração eficientes. A matéria-prima pode não
ter sido selecionada com a devida precisão. A regulagem das máquinas é um
quebra-cabeça com várias peças de difícil encaixe.
A correção desses problemas exige idas e vindas e o desperdício do tempo de
profissionais especializados. Não raro, as peças precisam ter seu formato
alterado com o projeto em andamento. Também são constantes as correções
feitas em moldes já usinados. Os prejuízos causados pelos ajustes são
irrecuperáveis.
Até meados dos anos 80, a grande arma para superar as dificuldades
apresentadas pelo tryout era a experiência dos profissionais envolvidos em
todas as etapas da produção de uma peça. De lá para cá, a disseminação do
uso dos softwares de CAE (Computer Aided Engineering) começou a revolucionar
a prática.
Os aplicativos permitem a simulação virtual do preenchimento dos moldes em
computadores, alternativa para lá de interessante para amenizar as
dificuldades da operação. A simulação não substitui o tryout, uma vez que as
condições presentes no computador nunca são as mesmas do chão de fábrica,
mas permite que muitas experiências no passado feitas na prática sejam
antecipadas nos computadores, o que economiza tempo, reduz o estresse dos
envolvidos nos testes e privilegia a qualidade final da peça a ser injetada.
Nos primeiros anos, a utilização do CAE era bem complexa. Com o
desenvolvimento impressionante da informática nos últimos anos, os softwares
ficaram cada vez mais completos e fáceis de manusear. Nos países avançados,
o uso do recurso é bem difundido. No Brasil, a prática começa a ser adotada
por empresas de tecnologia de ponta, mais ainda é muito incipiente. Além de
superar o desconhecimento dos benefícios proporcionados pelo uso da
informática, os fornecedores dos softwares nacionais ainda precisam
convencer os prováveis clientes sobre o retorno rápido dos alguns milhares
de dólares necessários para adquirir a ferramenta.
Outro fator que inibe o uso da simulação por aqui reside na dificuldade para
encontrar profissionais capazes de operar o recurso eletrônico. “Moscas
brancas” no mercado, esses especialistas precisam aliar conhecimentos de
informática e boas noções sobre polímeros, projetos de moldes e processos de
injeção. Caso contrário, a solução deixa de trazer os resultados esperados.
Falta de cultura – O desconhecimento sobre o retorno rápido dos
investimentos dificulta a expansão do uso da simulação do preenchimento de
moldes no Brasil. O potencial de mercado, no entanto, é enorme e o cenário
de negócios, para os fornecedores de softwares, começa a se tornar mais
otimista. O entusiasmo cresce com a iniciativa de algumas empresas de grande
porte ligadas à produção de peças plásticas que adotaram o expediente por
aqui nos últimos tempos. O investimento vale principalmente para projetos de
peças com formatos complexos ou de produção em larga escala.
Participante do mercado com esse pensamento, Mario Carneiro, gerente de
produto da SmarTech, há oito anos representante no Brasil da Moldflow,
companhia norte-americana líder mundial em softwares de simulação, calcula
que cerca de 80% dos aplicativos do gênero vendidos em todo mundo são
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produzidos pela empresa que representa. “Os softwares de simulação são
chamados de Moldflow, a marca virou sinônimo do produto”, justifica.
De acordo com Carneiro, a Moldflow domina amplamente o mercado
brasileiro. “Até o ano passado, detínhamos 99,9% de participação
nacional. Neste ano chegaram alguns concorrentes, mas ainda devemos
ter no mínimo 98%”, garante. O gerente estima ter vendido a ferramenta
para cerca de 50 empresas no território nacional, das quais 30
continuam clientes ativos. “Os compradores podem pagar uma taxa anual
de manutenção, que dá direito a atualizações dos programas, pelo menos
uma vez por ano, e suporte técnico”, diz. |
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Carneiro: Moldflow é sinônimo de software de simulação |
A SmarTech
concorre no Brasil na venda de uma das linhas da Moldflow com a
multinacional PTC, empresa cujo carro-chefe são as soluções de CAD/CAM e que
tem acordo tecnológico internacional com a Moldflow para o desenvolvimento
da série de softwares MPA. “Essa parceria permite que nós possamos ser
representantes comerciais desse produto”, explica Hélio Samora, diretor para
a América Latina da PTC. A linha MPA é formada pelos softwares menos
sofisticados da marca. A mais complexa é a MPI, com mais recursos
tecnológicos. A SmarTech comercializa as duas linhas.
Prestação de serviços - Além da venda de aplicativos, a SmarTech
também atua como prestadora de serviços de simulação para empresas que
pretendem realizar algum trabalho mas não têm interesse em investir na
aquisição do produto. Hoje, a empresa realiza em torno de 60 análises para
terceiros e vende cerca de dez softwares por ano. Em termos de receitas, os
programas correspondem a 70% do faturamento da SmarTech, contra 30% obtidos
com a prestação de serviços.
“Para os clientes que desenvolvem em torno de cinco projetos por ano, a
compra de serviços pode atender à sua necessidade. Já para as empresas que
estão envolvidas no lançamento de pelo menos dez novos projetos por ano, a
compra dos softwares se mostra vantajosa”, compara. A prestação de serviços
tem sido valiosa para a empresa expandir as operações de CAE. Por meio desse
expediente, os usuários conhecem melhor a ferramenta e as vantagens
proporcionadas. “É uma forma de trabalharmos para o amadurecimento do
mercado”, avalia Carneiro.
Outra estratégia da SmarTech tem sido a de procurar empresas conhecidas pela
excelência de seus produtos e, por isso, definidas como formadoras de
opinião. Primeira cliente brasileira, a Whirpool, detentora das marcas de
eletrodomésticos de linha branca Brastemp e Consul, comprova os resultados.
A SmarTech também partiu para disseminar a prática no setor automobilístico.
“Há quatro anos começamos um trabalho de formiguinha com as indústrias
automobilísticas, em especial a General Motors e a Volkswagen”, conta.
Muitos técnicos das montadoras tinham ouvido falar do CAE, mas não sabiam
detalhes. “Ao conhecer suas vantagens, passaram a exigir de alguns de seus
fornecedores a adoção da simulação”, emenda.
Outras marcas – O potencial de CAE no mercado brasileiro é grande e
começa a atrair outras empresas. Entre elas, a NCS, representante no País do
Visi-Flow, produzido pelo grupo multinacional Visi. Outro exemplo é a
VirtualCAE, representante brasileira dos softwares franceses Simpoe-Mold,
que chegaram ao mercado nacional há alguns meses.
A entrada de outras empresas no setor torna o mercado mais acirrado. Na
opinião de Carneiro, da Moldflow, a nova realidade traz aspectos distintos,
que precisam ser avaliados com cuidado. O aspecto positivo, para ele,
constitui-se no fato de que, com um maior número de participantes, fica mais
fácil disseminar a prática da utilização da ferramenta. O lado negativo é a
possibilidade de venda de produtos de qualidade duvidosa, e a não prestação
de serviços adequados de treinamento e manutenção, o que pode decepcionar os
usuários e os deixar refratários aos investimentos em CAE. “Há o perigo de
as
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empresas entenderem ou utilizarem mal os programas. Os bons softwares
exigem profissionais com perfis adequados, bons técnicos, ou
engenheiros mecânicos ou de materiais”, adverte o gerente.
Os concorrentes da Moldflow, é claro, têm opiniões divergentes. Thiago
Guerra, diretor técnico da VirtualCAE, garante a qualidade dos
softwares que comercializa e aproveita para cutucar sua principal
adversária do mercado. “Com a chegada da concorrência, deixa de
existir monopólio e os usuários terão o benefício de adquirir produtos
com preços bem mais acessíveis do que os da Moldflow. Nós vamos
trabalhar bastante em cima do preço dos nossos produtos”, provoca.
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Guerra: chegada da concorrência acaba com o monopólio |
A resposta
vem de Carneiro: “Qual a referência que deve se tomar para se dizer que os
softwares da Moldflow são caros?” Para ele, os concorrentes estão vendendo
softwares de CAE usando o recurso de marketing de compará-los aos softwares
de CAD. “Comparar CAE com CAD é uma covardia, os softwares de CAE têm muito
mais know-how agregado”, defende. De qualquer forma, ele garante que a
Moldflow está atenta ao fator preço. “A empresa tem se preocupado em lançar
linhas diferenciadas, alternativas menos sofisticadas que resolvam os
problemas dos clientes”, diz.
Perfil dos clientes – Em uma coisa todos os fornecedores concordam.
Dentro do processo de desenvolvimento de uma peça plástica injetada, quanto
antes os profissionais envolvidos utilizarem tecnologia de simulação maior
será a economia de tempo e dinheiro. “O principal objetivo da simulação de
injeção é prever problemas de fabricação ainda na fase de projeto do
produto. O custo das correções necessárias aumenta de forma exponencial,
conforme a etapa do projeto”, afirma Guerra.
Carneiro lembra das três etapas principais de desenvolvimento de um
componente plástico injetado. A primeira é a que define o design da peça e a
matéria-prima a ser utilizada. A segunda envolve o projeto e a construção do
molde. Finalmente, precisam ser definidos os parâmetros da transformação,
fase na qual se define a máquina mais apropriada e suas regulagens.
No caso do desenvolvimento do design da peça, a simulação pode corrigir
itens como a espessura adequada das paredes. O ideal é descobrir a espessura
mais delgada possível, que não comprometa o preenchimento do molde e o
futuro uso da peça. Vale lembrar que uma pequena redução na espessura pode
significar economia respeitável de matéria-prima. Também podem ser avaliados
aspectos como a melhor localização das nervuras, os efeitos da presença de
insertos e outros.
Em relação aos moldes, a definição do número correto e da localização dos
pontos de injeção e dos canais de resfriamento são exemplos de como os
softwares podem ser úteis. Ninguém duvida de que é muito mais fácil e barato
corrigir o funcionamento de uma matriz enquanto ela ainda está na fase do
projeto do que depois de pronta. “Conforme o molde, a necessidade de se
inserir um ponto de injeção a mais pode agregar um valor de R$ 50 mil no
projeto”, exemplifica o gerente da Moldflow.
Mais do que economia nos tryouts, escolher a máquina adequada para a
operação e encontrar os pontos de ajuste representam a possibilidade de se
chegar com maior facilidade às condições de processo que executem ciclos
mais rápidos na linha de produção. “Para os transformadores, isso também
significa a oportunidade de apresentar orçamentos mais realistas”, ressalta
Carneiro.
Nesse aspecto, as simulações podem testar, entre outros parâmetros, força de
fechamento e pressão de injeção, ou ainda, pedir para o sistema apontar a
máquina ideal para a operação. “Eu não gosto de limitar a análise, prefiro
que o software me informe os recursos mínimos da máquina para injetar bem
determinada peça”, informa Carneiro.
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