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Apesar de serem mais antigas, as aplicações feitas nos interiores das
aeronaves também sofrem constantes evoluções. “Os órgãos responsáveis
pelas normas que homologam o setor, em especial o FAA (órgão normativo da
indústria aeronáutica norte-americana), têm grande preocupação com a
segurança dos passageiros e sempre apresentam requisitos adicionais para
os materiais usados nos interiores dos aviões”, explica Francisco Rezende,
técnico de materiais compósitos e poliméricos da Embraer. Algumas dessas
exigências só os plásticos conseguem atender. Há grande preocupação em
utilizar matérias-primas menos inflamáveis e que não emitam fumaças
tóxicas.
Para poucos – O rigor exigido pelas entidades certificadoras para
as matérias-primas utilizadas nas aeronaves é enorme. São normas que
superam muito em exigências os padrões adotados por outros importantes
clientes das fornecedoras de materiais, as indústrias automobilísticas.
Por outro lado, como a escala de produção de aviões é pequena, o volume de
produção das matérias-primas necessárias para atender o mercado é
reduzido.
O cenário, que obriga grandes investimentos em tecnologia para o
desenvolvimento de produtos oferecidos em pequenas escalas, faz com que
poucas empresas químicas no mundo tenham condições de participar deste
segmento de mercado. Trata-se de um clube restrito, formado por nomes
especializados no fornecimento de fórmulas sofisticadas. São os casos, por
exemplo, das multinacionais Ticona, Solvay, Degussa e GE Plastics, entre
outras.
A mesma sofisticação exigida dos fornecedores de matérias-primas também é
cobrada dos transformadores. Poucas empresas no mundo são capacitadas para
produzir peças utilizadas em aviões. No caso da confecção de peças usadas
nas estruturas, quase todas feitas com compósitos, muitas vezes os
serviços são feitos de maneira artesanal pelas próprias fabricantes das
aeronaves.
A produção de peças voltadas para o interior dos aviões, por sua vez,
apresenta volumes de produção que raramente permitem a adoção dos métodos
indispensáveis para outros segmentos industriais. Ao contrário do que
ocorre na indústria automobilística, por exemplo, a utilização de peças
feitas pelo processo de injeção, na maioria dos casos, se mostra inviável
economicamente. A termoformagem surge como a técnica mais usada para a
fabricação dos componentes.
A Embraer é um paradigma de como trabalham os fabricantes de aviões.
Muitos dos componentes de plástico empregados nas partes internas dos
aviões da empresa nacional são importados, fabricados pelos poucos
transformadores especializados espalhados mundo afora. Mas a empresa
também faz encomendas para alguns transformadores brasileiros
especializados. “Temos o compromisso de nacionalizar o máximo possível de
peças”, emenda Rezende.
A termoformagem e a extrusão são processos bastante usados para a
fabricação de componentes voltados para os interiores dos aviões da
empresa brasileira. Quando o volume de peças justifica, no entanto, são
construídos moldes de injeção. “Mas são moldes de injeção voltados para
produções baixas. Eles são menos robustos do que os projetados para peças
de outros segmentos industriais”, conta Rezende.
Quando o assunto recai para a produção de componentes para as estruturas
das aeronaves, a palavra de ordem da Embraer é a produção vertical. Não
por acaso, a empresa conta com estrutura muito avançada voltada para a
produção de peças em compósitos. “A nossa instalação é de ponta. Não temos
no País nenhum lugar com a capacitação humana e de equipamentos que se
compare com a nossa”, orgulha-se Maciel.
A infra-estrutura da Embraer conta, por exemplo, com um conjunto de
autoclaves para curar os compósitos com tecnologia de última geração.
“Temos autoclaves com 4,5 metros de diâmetro por 15 metros de comprimento,
equipamentos que não se encontram de forma fácil por aí”, revela o
profissional. Com esse aparato, a empresa é capaz de projetar, conceber,
realizar cálculos estruturais, desenvolver ferramentas e fabricar em
escalas as mais variadas peças. Os compósitos mais utilizados são os que
combinam resina epóxi com fibra de carbono.
Isso não significa que a Embraer seja auto-suficiente na produção de peças
feitas de compósitos. Os flaps utilizados na linha 145, por exemplo, são
fabricados na Espanha. “Não temos dado conta, nossas vendas estão
crescendo nos últimos anos”, lembra Maciel. Em 2007, a empresa deve
produzir entre 165 e 170 aeronaves, contra 130 fabricadas no ano passado.
Para 2008, a projeção é de que a empresa produza entre 195 e 205 aviões.
Hoje, ela conta com mais de 23 mil funcionários, divididos nas plantas
instaladas no Brasil e no exterior (China, Estados Unidos, França e
Portugal).
Cinco toneladas – Cada avião A340, da Airbus, possui uma tonelada
de compósitos de polissulfeto de fenileno (PPS) enriquecido com fibra de
carbono. O próximo modelo a ser lançado pelo consórcio europeu, o A380,
terá cinco toneladas. A empresa responsável pelo fornecimento do PPS para
a Airbus é a Ticona, que batizou a sua matéria-prima com a marca Fortron.
A multinacional, criada em 1961 pela parceria feita entre Celanese USA e
Hoechst AG, a partir de 1997 passou a atuar como empresa independente do
grupo químico Celanese AG.
Simone Orosco, gerente de marketing técnico do escritório brasileiro da
Ticona, conta que a primeira experiência do uso do Fortron em aviões
começou a ser avaliada em 1998 graças a um trabalho em conjunto da empresa
com a Airbus, sua principal cliente neste segmento. A aprovação para o uso
na aeronave A 340 ocorreu apenas no ano de 2002.
De acordo com Gustavo Bachion, engenheiro de marketing técnico da Ticona,
o prazo de alguns anos para o processo de avaliação de materiais é comum
em aplicações no segmento aeronáutico. Ele é longo graças ao rigor com que
os plásticos são vistoriados. No A340, o Fortron é aproveitado em peças
presentes nas asas. No novo modelo, deve ganhar espaço em outras
aplicações, como molduras para janelas, flaps traseiros e componentes
internos.
O Fortron é oferecido pela Ticona na forma de filmes flexíveis para as
transformadoras, que se responsabilizam pela preparação das chapas de
compósitos. “Os filmes são intercalados em camadas com tecidos de fibras
de carbono. Esses ‘sanduíches’ são então prensados sob pressão e
temperatura até formar os laminados”, explica Simone. Essas chapas, então,
tornam a ser prensadas até adquirirem o formato desejado das peças. “A
forma como são dispostos os filmes e os tecidos de fibras de carbono
define as características técnicas dos laminados”, diz a gerente.
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| Departamento de compósitos da Embraer prepara peças
que equipam aviões (detalhe) |
Bachion lembra que os compósitos de PPS apresentam propriedades muito
adequadas para a aplicação. Eles têm peso 20% inferior ao do alumínio,
resistem ao fogo, não emitem fumaça, contam com excelente resistência
mecânica e permitem a construção de peças com elevada estabilidade
dimensional.
| Também são muito resistentes
às fortes variações de temperatura enfrentadas pelos componentes da
fuselagem dos aviões – não sofrem alterações quando expostos na faixa
de temperatura que vai de 40ºC negativos a 200ºC positivos. Além
disso, contam com resistência química surpreendente. “Eles não sofrem
ataques de combustíveis e nenhum solvente consegue atacar o material
quando ele está a uma temperatura abaixo dos 200ºC”, revela o
engenheiro. |
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| Guimarães: Solvay atua no topo da pirâmide |
Outro produto utilizado em aviões oferecido pela Ticona é o polímero de
cristal líquido (LCP) da marca Vectra. Empregados em menor escala e
indicados para itens que operam em altas temperaturas em regimes
continuados, os polímeros de cristal líquido também possuem baixa
viscosidade no estado fundido e são resistentes aos impactos, tração,
chamas e oxidação. “Nos aviões, o material é usado na produção de
conectores, pequenas engrenagens e outras peças”, resume Simone.
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