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PET
reciclado pode ser biodegradável
O raciocínio é mais ou menos assim: se o polietileno
tereftalato (PET) existisse há 500 anos e a frota de Pedro Álvares Cabral
tivesse utilizado recipientes dessa resina para armazenar água e cachaça
ao singrar o Atlântico e descobrir o Brasil, as garrafas estariam
começando a desaparecer nas praias da Bahia nos dias de hoje e até teriam
se espalhado pelo oceano e chegado a outros pontos do planeta como
acontece com os demais dejetos que bóiam.
O tempo estimado de decomposição do polietileno tereftalato na natureza é
de cinco séculos, no entanto, por meio de uma pesquisa da área de mestrado
do curso de química da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul (PUC-RS) em parceria com a Univille, de Joinville, Santa Catarina,
começa a surgir no Brasil uma possibilidade de reação química capaz de
combinar a reciclagem do PET com sua biodegradabilidade, em condições de
industrialização.
As pesquisas começaram em 2002 com o convênio entre as duas instituições e
uma entidade da França, onde a tecnologia já está patenteada e resultou em
um PET capaz de produzir colônias de degradação. Segundo Sandra Mara
Einloft, coordenadora do curso de química da PUC-RS, o processo consiste
em lavar, picar e produzir a mistura do PET com um segundo poliéster
alifático, proveniente do ácido cebácico e posteriormente produzir a
reação de laboratório entre polímero e copolímero a 240ºC.
A manipulação em laboratório durante as pesquisas de síntese na PUC
ficaram por conta de Deise Cristina da Silva, estudante de química e
bolsista em iniciação científica. Ela chegou a produzir alguns protótipos
simples de manufaturados em formas como brinquedos empregados em educação
infantil.
Neste momento, diante da possibilidade de degradação em um mês e meio,
Sandra Einloft considera que a pesquisa atingiu os objetivos em termos de
tempo. Contudo, para chegar ao estado-da-arte, ela gostaria de encontrar
um copolímero não fóssil com as mesmas propriedades do poliéster alifático
advindo do ácido cebácico, esse último de origem fóssil. “O interessante
seria chegarmos a um produto sem emissão de CO2.”
Ana Paula Testa Pezzin, pesquisadora em Joinville, revela como ocorrem os
testes de biodegradabilidade. De Porto Alegre, o material é enviado à
cidade catarinense em amostras de 100 gramas. Os ensaios ocorrem em uma
composição de um terço de areia, outro de solo fértil, e mais um terço de
esterco de cavalo desfibrado, preparado segundo uma norma técnica que
favorece o crescimento dos microrganismos. Solo retirado de aterro
sanitário também serve como material.
A caracterização das amostras deve ocorrer em tempo zero de degradação. As
análises definem pH, temperatura e manejo do solo. Um teste de viabilidade
é realizado em tecido de algodão, o qual deve perder 50% de suas
propriedades para mostrar que as condições da terra estão corretas. Com os
microrganismos em condições adequadas, as amostras são enterradas em copos
de becker de um litro de 17 centímetros, em obediência às normas e na
temperatura de 30ºC.
Ana Paula Pezzin explica que, posteriormente, ocorrem análises
complementares visuais e levantamento das características por meio de
microscopia eletrônica de varredura, análise termogravimétrica, perda de
massa, calorimetria exploratória diferencial, a qual aponta mudanças no
grau de cristalinidade, e cromatografia por permeação em gel, responsável
pelo fornecimento de uma série de informações interessantes.
| A mais importante das
análises é denominada GPC e aponta a massa molar e distribuição da
mesma.“O polímero é uma macromolécula e essa técnica aponta se
realmente ocorre a degradação. Porque pode ocorrer uma corrosão
superficial”, complementa Ana Paula. |
Fernando C. de Castro |
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| Deise (esq.) e Sandra buscam produto sem emissão
de CO2 |
Por enquanto, os inventores do PET biodegradável sugerem sua aplicação
em produtos de baixa propriedade mecânica como embalagens de mudas de
plantas, as quais iriam direto para a terra durante o plantio, onde o
polímero desapareceria. Outra aplicação estudada para o PET, neste caso
sem buscar a degradação biológica, é sua transformação em resina para
tintas, pois o ácido teraftálico confere propriedades melhores do que as
formulações tradicionais, principalmente na formação de barreiras contra
intempéries.
Ana Paula revela que atualmente a Univille com sua tecnologia ajuda a
Petrobrás no desenvolvimento de outros copolímeros biodegradáveis
utilizando resinas virgens, mas que ainda estão sob sigilo porque podem
resultar em soluções inovadoras passíveis de requisição de patente. Alguns
estudos, adianta Ana Paula, visam a tornar as resinas virgens
biodegradáveis por interesse de pesos pesados da petroquímica como a Basf
e a Braskem e de consumidores como o Grupo Pão de Açúcar. “Reciclagem é
solução fim de tubo. O ideal é chegarmos ao plástico 100% biodegradável no
primeiro uso”, defende Ana Paula.
F. C.C.
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