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Fórum debate novas tecnologias na Bahia
Duas
evidências marcaram o 23º encontro anual da Polymer Processing Society (PPS)
ocorrido entre 27 e 31 de maio em Salvador – o primeiro realizado na
América Latina por esta entidade, fundada em março de 1985, na
Universidade de Akron (Ohio/EUA), com o propósito de promover o
intercâmbio científico e tecnológico entre professores e pesquisadores
universitários do seu ramo de conhecimento. As evidências foram: o foco
crescente nos dois temas inovadores, nanotecnologia e biotecnologia, esta
em razão do desenvolvimento de polímeros com base em fontes renováveis (green
polymers); e a presença, pela primeira vez considerada numericamente
significativa, de engenheiros vinculados à indústria, situação
diferenciada em relação aos encontros anteriores, restritos quase
exclusivamente ao pessoal do meio acadêmico.
| “A PPS percebeu a necessidade
de atrair a indústria para o seu ambiente”, explicou o chairman, o
grego-canadense da Universidade McMaster, John Vlachopoulos. |
Fred Passos |
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| Vlachopoulos, o chairman, (esq.) e Luis Pessan |
Conduzindo a organização, além de Vlachopoulos, estiveram os
professores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Luiz Antônio
Pessan e Elias Hage Jr., presidente e co-presidente do comitê organizador
nacional. Estiveram presentes professores e pesquisadores de mais de 40
países.
O PPS-23, como o evento foi apresentado, levou à Bahia autores que se
movem como celebridades no meio acadêmico, entre eles o professor de
Cleveland, Ica-Manas Zloczover, autor de um best-seller sobre mistura de
polímeros; e o engenheiro do Toyota Tecnological Institute, Massami
Okamoto, que desenvolveu um festejado nanocomposto com 5% de nanoargila em
matriz de nylon, tão resistente à tensão e acentuadamente mais leve que o
compósito tradicional, com 40% de fibra de vidro.
Vlachopoulus, Pessan e Hage avaliaram que os dois temas dominantes foram a
nanotecnologia e produção de compósitos – razão de 78 dos 230 trabalhos
registrados (keynotes, apresentações orais e pôsteres) – e os polímeros de
fontes renováveis ou biopolímeros. Vlachopoulus fez uma previsão: tal
linha de pesquisa deve crescer com força no Brasil, até com base na
tradição do etanol e nos primeiros trabalhos que estão sendo apresentados.
“Precisamos desenvolver polímeros de fontes renováveis com as propriedades
dos polímeros base petróleo”, proclamou. Entre os pesquisadores do
primeiro mundo que estão se destacando no desenvolvimento dos polímeros
alternativos, o mais visível foi o canadense Michel Huncault, um dos oito
conferencistas – falou em plenário sobre os desafios e oportunidades neste
novo campo de pesquisa e investimento. Admitir, que em 2050, 50% dos
polímeros procederão de fontes renováveis foi um dos consensos entre os
participantes.
Pela ordem, segundo Pessan, os outros temas que atraíram presenças foram:
extrusão, injeção, misturas e blendas, espumas, e reologia.
No âmbito nacional, o PPS-23 incluiu um seminário industrial, com
apresentação de palestras de executivos e engenheiros de P&D que atuam no
Brasil – Richard Macret (Rhodia Poliamida); Dellyo Álvares (Petrobrás/Cenpes);
Paulo Coutinho (Petroflex); Luís Cassinelli (Braskem/Poliolefinas);
Antônio Rodolfo Jr (Braskem/Vinílicos); John Biggs (Dow Brasil); James
Thompsom-Colón (Bayer Material / Science Latin America);
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Fred Passos |
Paulo Santos (GE Plastics South America);
José Alexandrino de Souza (UFSCar/Magnesita); Claudio Marcondes
(Suzano Petroquímica). Fizeram considerações relacionadas à prospecção
de idéias, patente e preservação do sigilo, riscos na inovação,
inovação competitiva etc. |
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| Cassinelli: é preciso avaliar os riscos de cada
pesquisa |
Barreira não-alfandegária - Os representantes da Braskem, Luís
Cassinelli diretor de Tecnologia e Inovação das Unidades de Poliolefinas,
e Antônio Rodolfo Júnior, gerente de Produtos e Serviços da Unidade de
Vinílicos, ressaltaram que a empresa já superou a fase inicial,
caracterizada pela importação do que havia de melhor – “às vezes com
alguma adaptação” –, e agora está determinada a caminhar com as próprias
pernas, seguir seu próprio roadmap.
Cassinelli ressaltou a importância de avaliar permanentemente o grau de
risco no curso de cada pesquisa com base em “certas premissas”,
procedimento que permite decidir se o próximo estágio deve ser executado,
se é preferível mudar de estratégia, ou mesmo abortar. Ele avalia,
metodologicamente, que o risco começa em torno de 66% e no último estágio
deve estar reduzido a 34%. “Mas há os projetos mais inovadores, que
pressupõem rupturas radicais”, ressalvou. Estes começam com 90% ou mais de
risco.
O diretor revelou que há situações em que o risco é principalmente técnico
– quando a imaginada pesquisa deriva de uma boa idéia, mas está dissociada
de uma tecnologia corrente; ou é comercial – quando há a tecnologia, mas a
possibilidade de o mercado rejeitar o produto depois de desenvolvido é
alta. Para Cassinelli, toda a empresa deve estar mobilizada em função do
desenvolvimento de um novo produto, e não apenas a área de tecnologia e
inovação. Mas não apenas a empresa. Deve haver permanentemente parcerias
com clientes, fornecedores e universidades. “O importante é envolver as
instituições e pessoas certas.”
| Convidou alunos e professores
a apresentarem projetos de pesquisas à Braskem e alertou para o
excesso de confiança na criatividade individualmente. “Pessoas
reconhecidamente criativas, nem sempre são eficazes, não têm a
disciplina necessária.” |
Fred Passos |
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| Hage atuou como co-presidente do comitê organizador nacional |
Exemplos de parcerias bem sucedidas foram apresentados, como a que
resultou na embalagem de requeijão de polipropileno, adequada para
substituir o copo de vidro, graças à alta transparência, assegurada por um
aditivo fabricado por um fornecedor parceiro. Referiu-se à única patente
de plástico desenvolvida na Bahia, há mais de vinte anos na então
Polialden, hoje uma unidade da Braskem: a do polietileno de ultra-alto
peso molecular (Utec). Esse polietileno, revelou, está passando por novas
pesquisas, em busca de resistência ainda mais alta à tensão.
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Fred Passos |
Mas como já está, é principalmente
exportado, como matéria-prima de capacetes, coletes à prova de bala,
deslizadores de esquis, esteiras mecânicas, blindagem de automóveis, e
para substituir chapa de aço em caçambas e componentes que precisam de
mais resistência à abrasão, |
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| Ito: sílica do caule seco é aplicada em matriz
acrílica |
| como certas partes de
colheitadeiras. É um plástico de engenharia alternativo à fibra de
carbono e ao kevler. |
“Desde 2002 a Braskem trazia o que de melhor havia lá fora e às vezes
adaptava”, revelou. “Mas isso foi até mais recentemente, quando passamos a
dispor de um reator de alta pressão para desenvolver tecnologia”. Ele
arrematou: “Tecnologia é barreira não-alfandegária
O outro representante da Braskem, o gerente de Produtos e Serviços da
Unidade de Vinílicos, Antônio Rodolfo Júnior, apresentou duas
experiências: a primeira relacionada ao esforço para elevar a resistência
à fratura (tenacidade) em tubos de PVC; a segunda, referente ao
desenvolvimento de laminados de PVC com propriedade de “respirabilidade”
similar à do couro natural, para uso em calçados.
| Diferentemente do que ocorre nos Estados
Unidos e em outros países do primeiro mundo, no Brasil o assentamento
de tubos de PVC não passa pelo hábito preventivo de eliminar as pedras
que possam estar na areia, descaso este que responde pela maior parte
das rupturas em tubulações. Fechada a vala, as pedras podem
formar pontos de pressão, forçando a parede do tubo. “Não é a norma da
fabricação do tubo de PVC que é ruim, ruim é a forma de conduzir a
obra”, ressalva. Em parceria com empresas da cadeia produtiva |
Fred Passos |
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| Rosário: pesquisa voltada para aplicações médicas |
| do PVC e concessionárias de água, a
Braskem desenvolveu uma formulação, que inclui a adição de um
modificador de impacto na resina. |
A formulação foi submetida a numerosos ensaios na fase de
gelificação (quando a resina é submetida a calor para adquirir a
consistência gel) e passou com sucesso pelos testes de controle de
qualidade.
O laminado “respirável” – um couro sintético ou espuma de PVC com
estrutura especial para uso na indústria de calçados, já patenteada,
apresenta uma mudança na estruturação das células, para assegurar a
necessária textura, caracterizada pela “capilaridade e porosidade”. Tal
textura exigiu o preciso desenvolvimento de um processo de aeração, para
injetar “bolhas” na resina já submetida ao calor.
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Fred Passos |
É a etapa mais inovadora do
processo, destinada a assegurar a propriedade da transpiração e o
conseqüente não-acúmulo de “excesso de umidade” nos pés,
proporcionando a mesma impressão sensorial de conforto causada por um
sapato de couro |
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Rodolfo quer melhorar a resistência
à fratura dos tubos de PVC |
| já amaciado, valoriza Antônio Rodolfo.
Ele estima o mercado no Brasil para este PVC em 20 mil t/ano. |
Não-tecido para emplastro - Entre os trabalhos do Departamento de
Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o
de maior visibilidade foi o apresentado pela professora Rosário Elida
Suman Bretãs: um processo de fiação, com base na aplicação de elevada
voltagem em diferentes soluções contendo polímeros biodegradáveis –
policaprolatona (PCL) e poliácido láctico (PCL). A voltagem, transmitida
por dois eletrodos, transforma a solução polimérica em filamentos com
menos de 100 nanômetros, matéria-prima intermediária de um não-tecido (non-woven)
para uso médico: um emplastro, impregnado de fármacos para serem liberados
e assimilados em contato com a pele, por conta da propriedade
biodegradável.
Cavalinha e sílica - Contratado pela Embrapa para montar um
laboratório, na própria UFSCar, para transformar subprodutos e resíduos do
agronegócio em matéria prima para nanocompostos (nanopartículas), o Edson
Ito apresentou o trabalho que já está desenvolvendo nessa linha: a
extração dos 9% de sílica, contidos no caule seco da erva conhecida por
cavalinha – quase uma praga da agricultura – para aplicação em matriz de
polimetil metacrilato (PMMA).
O processo passa pela imersão da planta em solução ácida; em seguida é
levada à autoclave; depois submetida à limpeza; e carbonizada, para a
extração da sílica. O pesquisador está tentando estabelecer o tempo
adequado para a carbonização, “em busca da estabilidade térmica”.
José Valverde
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