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Pesquisador investe nos nanocompósitos
Apostar em projetos tecnológicos desenvolvidos nas universidades é prática
pouco comum no Brasil. Vez por outra, no entanto, aparecem investidores
interessados em levar para o mercado o trabalho feito durante anos por
abnegados pesquisadores.
| É o caso de Eduardo
Figueiredo, que exerceu papel executivo em várias empresas durante
muitos anos e, em 2003, resolveu partir para a realização do sonho de
ter negócio próprio. |
Divulgação |
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| Figueiredo procura novos parceiros na indústria |
Depois de sondar alguns projetos de alta tecnologia, em 2005,
Figueiredo fundou a Orbys. A empresa firmou contrato de licenciamento para
explorar comercialmente processos de fabricação com tecnologia coloidal de
argilas nanoparticuladas e de nanocompósitos obtidos por meio da adição
dessas nanopartículas de argila em polímeros à base de látex. Eles foram
desenvolvidos e patenteados pela equipe de Fernando Galembeck, professor
titular do Instituto de Química da Universidade de Campinas (Unicamp/USP)
e membro da Academia Brasileira de Ciências.
A Orbys nasceu dentro do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec),
órgão criado, em 1998, por um convênio que envolve a Secretaria da
Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo,
Serviço de Apoio a Micro e Pequena Empresa de São Paulo (Sebrae – SP),
Universidade de São Paulo (USP), Instituto de Pesquisas Energéticas e
Nucleares (Ipen) e Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Ainda incubada, a empresa patrocina dois pesquisadores que trabalham nos
laboratórios da Unicamp/USP e conta com laboratório próprio na cidade de
São Paulo, mais precisamente no prédio do Cietec, localizado no interior
do Ipen. “Já destinamos US$ 500 mil em recursos próprios para o projeto.
As verbas que recebemos de órgãos de financiamento oficiais não chegam a
15% do total que investimos”, informa Figueiredo.
O projeto prevê mudança para sede própria em dois ou três anos. Para que
isso ocorra, espera-se o retorno financeiro dos produtos resultantes de
trabalhos de pesquisa e desenvolvimento que a empresa está realizando em
parceria com seis indústrias, atualmente. Os nomes dos parceiros são
mantidos em sigilo. Sabe-se que três são ligados à produção de borrachas,
dois pertencem ao segmento de adesivos e um atua no campo das cargas de
fibra de vidro. “Nossa idéia é aumentar o número de empresas parceiras”,
diz.
De acordo com o interesse do mercado, a Orbys pode atuar de formas
diferentes no futuro. A primeira é como fornecedora dos processos de
fabricação. Caso a demanda venha a ser compensadora, pode vir a montar
linha de produção de insumos baseados em nanopartículas de argilas para a
indústria de adesivos. Como a montagem de linhas de produção de
nanocompósitos exige investimentos muito elevados, a empresa, nesse campo,
pode optar pela parceria com fabricantes de polímeros. “A força das
produtoras de polímeros permite introduzir o produto no mercado com maior
rapidez”, explica Figueiredo.
Argilas - Vários materiais podem ser aproveitados como cargas de
polímeros para a obtenção de nanocompósitos. Entre eles, os nanotubos de
carbono apresentam propriedades excepcionais para determinadas aplicações.
Os nanotubos, porém, têm contra si o fato de serem produzidos em pequena
escala industrial e de ter preços proibitivos, por ora. A adição de
nanopartículas de prata, cobre e zinco aos plásticos é realidade. Essas
substâncias proporcionam excelentes propriedades antimicrobianas aos
compostos.
Hoje, no entanto, as argilas são os materiais mais aproveitados como
nanocargas. Os polímeros enriquecidos com argila apresentam boas
propriedades mecânicas e de resistência térmica e à chama, além de
impermeabilidade a gases, umidade e hidrocarbonetos. Além disso, permitem
a produção de compostos com menor quantidade de carga.
Enquanto para fazer um compósito com as cargas tradicionais devem ser
adicionados volumes em torno dos 30% do peso final do produto, um composto
nanométrico pode ser obtido com a adição de 5% a 6% do peso em partículas.
Isso os torna mais leves e fáceis de moldar. A menor presença de cargas
também facilita a operação de reciclagem.
Em 2005, o consumo mundial de nanocompostos enriquecidos com argilas
atingiu de 11,3 mil toneladas, volume que gerou negócios na casa dos US$
90 milhões. Projeções da BCC Research apontam que, em 2006, estes números
devem ter crescido para aproximadamente 14,7 mil toneladas e US$ 111
milhões. Para 2011, a estimativa é de chegar a 71,2 mil toneladas,
avaliadas em US$ 393 milhões.
As argilas são materiais naturais formados quimicamente por silicatos
hidratados de alumínio, ferro e magnésio e constituídos por partículas
cristalinas de um número restrito de minerais conhecidos como
argilominerais. Uma argila qualquer pode ser composta por um único
argilomineral ou por uma mistura de vários deles. As argilas podem conter
ainda matéria orgânica, sais solúveis, partículas de quartzo, pirita,
calcita, dolomita e outros minerais residuais e minerais amorfos.
Um dos desafios na preparação de nanocompósitos é a escolha da argila.
Entre elas, aparece com destaque as que contêm em sua composição a
montmorilonita, substância que tem se mostrado bastante adequada para a
operação. Uma vez escolhida, a argila precisa ser purificada e, dependendo
do caso, modificada quimicamente para se tornar compatível com os
polímeros aos quais será adicionada.
Hoje, existem diferentes processos de incorporação das argilas aos
polímeros. Um deles, bastante conhecido, é o de misturar a argila
modificada com o monômero e depois realizar a polimerização. Por enquanto,
o método tem sido mais usado para a produção de nanocompósitos baseados em
poliamida, poliéster, epóxi e termorrígidos.
Outra maneira já bem difundida de realizar a operação é misturar, no
estado fundido, o polímero, a argila e uma substância compatibilizante.
Essa mistura depois é extrudada, gerando o nanocompósito. A técnica tem
sido utilizada em resinas como poliestireno, polipropileno, polietileno,
PET e poliamida. A técnica coloidal patenteada pela Unicamp/USP e
aproveitada pela Orbys é alternativa por enquanto ainda pouco explorada.
“Sei que nos Estados Unidos também existe processo similar. No Brasil, a
patente obtida pela Unicamp é a única do gênero registrada no INPI
(Instituto Nacional de Patentes Industriais)”, informa Figueiredo.
O método se baseia na preparação das nanopartículas de montmorilonita e de
sua incorporação nos polímeros com base na dissolução no meio aquoso. Para
melhorar o desempenho dos compostos, as argilas devem ser incorporadas com
o formato de lamelas com dimensões em escala de nano. Essas lamelas atuam
como reforços estruturais, que aderem fortemente aos polímeros (ver
esquema na pág. 94). “A tecnologia apresenta vantagens sobre outras
técnicas de obtenção de nanocompósitos e nanopartículas, pois não se
utiliza de reações químicas e não é feita em regimes de elevadas
temperaturas e pressão”, garante Figueiredo. Além disso, permite o uso de
argilas encontradas em abundância no território nacional. “Os outros
métodos aproveitam argilas importadas”, diz o empresário.
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A técnica coloidal pode ser utilizada para enriquecer borracha natural (NR),
borracha nitrílica (NBR), borracha de estireno-butadieno (SBR), acetato de
polivinila (PVA), poliestireno (PS), acrilonitrila-butadieno estireno (ABS)
e materiais acrílicos (acrilato de metila e acrilato de etila).
As vantagens no desempenho desses materiais são significativas. Os
produtos ganham melhores propriedades mecânicas, como melhor rendimento no
módulo de elasticidade, tensão e alongamento de ruptura, além de maior
resistência térmica e maior condutividade elétrica. Também exibem ganhos
da ordem de 25% a 40% na propriedade de barreira a gases em relação aos
polímeros puros. Os nanocompostos obtidos pela técnica coloidal são
indicados para as indústrias de adesivos, embalagens, calçados, artigos
esportivos, produtos de uso medicinal, coatings, aditivos para concreto,
brinquedos e autopeças.
Campo promissor - O campo de trabalho da Orbys é visto como muito
promissor. Os compostos poliméricos vêm sendo comercializados desde o
início dos anos 90, quando a Toyota desenvolveu em seus laboratórios, no
Japão, um nanocompósito de poliamida e argila, cuja primeira aplicação se
deu na confecção de autopeças para o modelo Toyota Camry.
O consumo global de nanocompósitos vem crescendo rapidamente, sendo
avaliado em 2005, segundo estudos da BCC Research, em US$ 252 milhões, com
estimativas de atingir US$ 857 milhões até 2011. De acordo com pesquisa
feita pela Freedonia Group, estima-se que a demanda por esses tipos de
compostos deve aumentar a uma média anual de 29% até 2020. A maioria dos
trabalhos de pesquisa e desenvolvimento envolvidos no tema está focada na
indústria automobilística e de embalagens.
No setor de plásticos, as grandes empresas da área química se encontram
entre as que mais investem no desenvolvimento de novos produtos, apostando
na obtenção de patentes com potencial de mercado satisfatório, a fim de
agregar valor às commodities. Grupos como Basell, Lanxess e Basf já
disponibilizam resinas enriquecidas com nanopartículas. A DuPont promete
lançar, ainda em 2007, produtos com essas características. No Brasil,
Braskem e Suzano Petroquímica saíram na frente e lançaram produtos do
gênero no ano passado. É esperado um número crescente de lançamentos ao
longo dos próximos meses.
José Paulo Sant’Anna
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