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Itália oficializou o uso de bioplásticos

Na era caracterizada pela substancial dependência de fontes de combustíveis não renováveis, como o petróleo, basta pouco para provocar irreversíveis danos ambientais. Inocentes gestos cotidianos como acender a luz para ler um bom livro, fazer compras ou dirigir o próprio veículo são fortes aliados de verdadeiras agressões ao meio ambiente.

No mundo todo, estima-se que a fabricação de plástico derivado do petróleo supere 150 milhões de toneladas e que somente na Europa Ocidental chegue a 44 milhões de toneladas.

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Catia Bastioli, presidente da Novamont Spa

 Na Itália são produzidas anualmente 1 milhão e meio de toneladas de produtos descartáveis derivados do plástico, além de outras 300 mil toneladas de sacolas de polietileno, o que corresponde a um consumo energético de 430 mil toneladas de petróleo e nada menos que 200 mil toneladas de gás colocados na atmosfera.

No âmbito europeu, calcula-se que 100 bilhões de sacolas plásticas são inseridas no ambiente a cada ano, exigindo, em média, dois séculos para completa sua decomposição. Apesar da gravidade do problema, Bruxelas ainda não definiu um amplo programa comunitário para reverter o impacto que tais produtos causam ao ecossistema.

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Amido de milho e óleo de girassol compõem o Mater-Bi

De qualquer maneira, boas notícias para a sustentabilidade ambiental chegam de alguns países do velho continente. Em março, uma associação britânica chamada “We are what we do” (Somos o que fazemos) lançou no mercado uma sacola de tela com o logotipo “I am not a plastic bag” (Não sou uma sacola de plástico). O resultado? A disputa por um de seus primeiros oito mil exemplares provocou filas somente comparadas àquelas para a compra do último best seller de Harry Potter.

Os bio-shoppers - Em outras nações vizinhas como a França, a novidade é a adoção de uma instrução normativa que atinge positivamente um dos filões mais importantes da indústria de plásticos, que é o de embalagens. Recentemente, entrou em vigor naquele país uma lei que proíbe a comercialização de sacolas de plástico tradicional e prevê, até 2010, a completa substituição de tais artigos por bio-shoppers, ou seja, sacolas de material biodegradável. A medida segue as rigorosas indicações da norma européia EN 13432 (Requirements for packaging recoverable through composting and biodegradation).

Iniciativa idêntica foi proposta pelo governo de centro-esquerda italiano liderado por Romano Prodi. Atualmente, cada sacola plástica vendida nos supermercados italianos custa 5 centavos de euro, mas após dezembro de 2009 só será permitida a comercialização de sacolas ecocompatíveis, que hoje custam cerca de 8 centavos de euro. Segundo os dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente italiano, a medida garantirá a emissão de 250 mil toneladas de CO2 a menos que a atual e uma economia energética de aproximadamente 40%, que equivale a retirar de circulação uma frota correspondente a 100 mil automóveis.

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Sacola de “bio-shoppers” se decompõe em seis meses

 A implantação desse novo sistema será possível graças à tecnologia desenvolvida por uma empresa química nacional líder em seu setor: a Novamont Spa.

Nasce o Mater-Bi - Localizada na cidade de Terni, na região da Úmbria, a indústria produz um material inovador chamado Mater-Bi.

Trata-se de uma linha de biopolímeros derivados de matérias-primas renováveis, como o amido de milho não modificado geneticamente e o óleo de girassol. O produto apresenta a forma de um grânulo e pode ser utilizado na fabricação de objetos similares aos realizados com o plástico tradicional. Além disso, são inteiramente biodegradáveis e se deterioram completamente em apenas seis meses. Trata-se, pois, de uma resposta à demanda de produtos de largo consumo com baixo impacto ambiental.

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Fábrica em Úmbria produz o biopolímero

Em seu estado natural, o amido apresenta moléculas lineares (amilose) e ramificadas (amilopectina). Com a ruptura da estrutura original do amido, os pesquisadores da empresa conseguiram criar uma nova ordem supramolecular graças à formação de complexos entre a amilose e moléculas naturais ou sintéticas. Estes complexos produzem uma nova ordem cristalina, aumentando a resistência à água e modificando as propriedades mecânicas do amido original, sem interferir em sua estrutura química.

O resultado de mais de uma década de pesquisas é um material termoplástico extremamente flexível. Na prática, o Mater-Bi pode ser aplicado nos mais diversos setores e não só na produção de sacolas plásticas – desde objetos descartáveis como garrafas, pratos, talheres ou fillers para as indústrias farmacêuticas e cosmética, até a produção de brinquedos.

 Em 2006, o Ministério do Meio Ambiente italiano promoveu a primeira edição do prêmio intitulado “Impresa Ambiente” e o vencedor foi Ecotoys, produtor italiano de brinquedos ecológicos produzidos em Mater-Bi. Mas os destaques dessa nova tecnologia não se restringem apenas à indústria.

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Bioplástico pode produzir copos e outros descartáveis

Vantagens agrícolas - Na verdade, o Mater-Bi também está influenciando a agricultura. Para conservar a umidade do solo e defendê-lo do sol e do gelo, em vez de cobrir um terreno com filmes em polietileno e copolímeros de etileno vinil acetato (EVA), os agricultores italianos preferem a bioplástica, que também é certificada para biodegradar diretamente no solo.

Outro benefício garantido é a revitalização da cultura do girassol, até então desprezada no país. Graças a um acordo assinado entre a Novamont Spa e a Coldiretti, associação de categoria que representa os agricultores italianos, mais de 10 mil hectares de terra serão destinados ao cultivo do girassol. “A medida representa um incremento de 30% no faturamento do agricultor e, assim, o girassol volta a ter remuneração atrativa como há alguns anos”, comenta Giulio Federici, responsável pela Coldiretti, da cidade de Terni.

A própria associação é um dos interlocutores que incentiva a União Européia a divulgar o uso dos bio-shoppers. A produção de 100 sacolas ecológicas requer meio quilo de milho e um quilo de óleo de girassol e, segundo a Coldiretti, para cobrir o consumo comunitário de sacolas em Mater-Bi® bastaria cultivar menos de 3 milhões de hectares de “granturco” e girassol, ou seja, menos de 1,5% de todas as superfícies cultiváveis da União Européia.

Para Catia Bastioli, presidente da Novamont Spa, a instituição pode, sem dúvida alguma, influenciar a velocidade do crescimento deste novo setor. No entanto, em sua opinião, mesmo sem um forte suporte da UE, o consumo de bioplástica está amadurecendo com vigor na Itália e no exterior, principalmente em áreas como aquela das sacolas para a separação do lixo orgânico do reciclável. “Somos um dos líderes no setor da bioplástica, com uma “filiera” que passa da produção de matérias-primas até a produção final do produto, enquanto em outras áreas como a têxtil existem alguns casos de excelência, mas falta uma coordenação por parte do sistema-país”, comenta.

Recentemente, Stefano Ciafani, coordenador do departamento científico da Legambiente, a mais representativa associação ambiental italiana, declarou que “é preciso adotar medidas que penalizem fiscalmente produtos e “filieras” que provocam maior impacto ambiental e favorecer quem aposta na inovação e na sustentabilidade”. Mas, no caso de um produto revolucionário como o Mater-Bi, o mercado está pronto para uma mudança tão significativa?

Sem dúvida alguma, a criação do bioplástico obriga os produtores de plástico tradicional a rever o próprio negócio e, para Catia Bastioli, trata-se de um grande desafio para um setor cada vez mais caracterizado pela demanda por produtos de baixo impacto ambiental. “De qualquer maneira, existem sempre lobbies poderosos que em vez de opôr-se diretamente aos biopolímeros estão dispostos a lutar pela conservação do próprio mercado”, observa.

A resposta da empresa a esse ce­ná­rio é continuar investindo mais de 10% do seu faturamento anual em pesquisas. Para Bastioli, o futuro da química é a sua integração com a biotecnologia no redesign de materiais e de produtos químicos intermediários, além da energia proveniente de fontes renováveis.
 

 
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