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Para a execução do Prodabes, a Ceplac quer a ação conjunta de ministérios,
dos dois governos estaduais e das prefeituras, nas áreas de pesquisa,
assistência técnica e extensão, crédito, e organização da cadeia
agroindustrial da borracha. No âmbito da agricultura familiar, sugere que
o Pronaf financie módulos de três hectares por dezesseis anos, com oito de
carência – sugestão que considera o fato de a seringueira começar a
produzir aos sete anos aproximadamente e estender a produção por cerca de
trinta anos.
O agrônomo da Ceplac Adonias de Castro ressalta que o Prodabes também
recomenda a substituição da eritrina, a leguminosa que dá sombreamento ao
cacaueiro, por seringueira. “Mas na renovação dos cacauais e no plantio
dos novos, recomenda-se o plantio simultâneo do cacaueiro e da
seringueira.” Adonias explica que o sistema agroflorestal antecipa e
incrementa a receita por hectare e melhora o caixa, aumentando a
competitividade de ambas as culturas. “O cacau enxertado começa a produzir
três anos antes da seringueira”, esclarece. São também vantagens do
sistema agroflorestal: maior lucro por superfície cultivada; uso mais
racional do espaço e da luz; maior reciclagem de nutrientes; e melhor
aproveitamento residual de fertilizantes. No sudeste da Bahia já há mais
de 8 mil hectares de seringueira e cacaueiros consorciados.
O interesse pela borracha natural na Bahia está sendo reanimado também
pela recente instalação de duas novas fábricas de pneus na Grande
Salvador, a Bridgestone/Firestone e a Continental, e também pela ampliação
da Pirelli, em Feira de Santana. Em instalação, há ainda: em Feira de
Santana, a Muller Bahia, fabricante de pneus para empilhadeiras, reboques
e veículos de carga para portos e aeroportos; e em Camaçari a fábrica de
negro-de-fumo da Columbian Chemicals Company.
Esses empreendimentos concentraram na Bahia mais da metade da produção de
pneus, a maior parte para exportação. “O Brasil é um paradoxo, importa
borracha e exporta pneus”, ironiza Cortez.
No Mato Grosso, um produtor apontado como modelo, o Grupo OMB, dono de 3
mil hectares de seringais, anuncia expansões. “Nos próximos anos, só no
plantio vamos investir R$ 24 milhões e suprir a ociosidade de nossa
fábrica”, anuncia o diretor Airton Reviglio. O OMB é dono também de 500
hectares no Espírito Santo.
A Natural Consultoria, gestora do Projeto Borracha Natural Brasileira,
revela que o clima favorável aos negócios da borracha está motivando
municípios como Frutal-MG, Prata-MG e Nova Crixás-GO a se tornarem pólos
produtores. Estão apregoando clima e solo favoráveis e terras mais baratas
do que em São Paulo.
O Projeto Borracha Natural, sediado em Piracicaba-SP, foi criado “para
suprir a crescente demanda por informações sócio-econômicas e
técnico-científicas fidedignas sobre a heveicultura brasileira”, revela o
agrônomo Heiko Rossmann. Ele e o colega Augusto Hauber Gameiro são os
criadores do Projeto. “Estamos lançando um informativo mensal em inglês
para atender à demanda externa por informações sobre heveicultura no
Brasil”, anuncia Rossmann.
Diferentemente do passado, quando o setor reivindicava medidas
protecionistas como contingenciamento nas importações – praticado até 1997
– e subsídio – entre 1997 e 2002 –, a borracha hoje é regida pela lei do
mercado, em condições que Jayme Cortez classifica de “altamente
competitivas”. Ele não apresenta uma explicação precisa para a mudança.
“Simplesmente houve uma evolução muito forte para cima do mercado
internacional”, arrisca. A evolução do preço pago às usinas desde 2001
atesta com mais precisão a razão do otimismo: em janeiro de 2001,
constatou a Natural Consultoria, o valor pelo quilo da melhor borracha
para pneus, o granulado GEB 1, alcançou R$ 1,53. Nos janeiros seguintes
descreveu a seguinte trajetória: 2002, R$ 1,57; 2003, R$ 3,42; 2004, R$
3,90; 2005, R$ 3,90; 2006, R$ 4,25; 2007, R$ 4,06 – gradual variação de
158% entre janeiro de 2002 e 2007. A ascensão continua. Em março, o preço
bateu em R$ 4,80/kg.
Mal-das-folhas – O desenvolvimento dos primeiros clones de seringueira
resistentes a um fungo marcantemente presente na história do Brasil, o
Microcyclus ulei, também está influenciando o sentimento empreendedor. O
fungo é o causador do mal-das-folhas, a doença que desaconselha a
plantação de seringais nas áreas mais úmidas, justamente as que, sem a
ocorrência desta doença, seriam as mais produtivas. Essas áreas,
caracterizadas por chuva nas quatro estações, possibilitam a sangria no
decorrer dos doze meses, um a dois a mais do que nas chamadas áreas de
escape, onde a chuva sempre escasseia em alguns meses.
No Brasil, para proteger-se do mal-das-folhas, a heveicultura tem se
dirigido para as áreas de escape, as que apresentam, combinadamente, as
condições de temperatura, solo e principalmente precipitações que
assegurem, pelo menos na maior parte do ano, o elevado suprimento de água
exigido pela seringueira – chuvas entre 1.400 mm e 1.600 mm – sem reter
umidade suficiente para dar boa vida ao M. ulei. São geralmente áreas com
altitude inferior a 800 metros. O planalto paulista, o extremo sul da
Bahia e o Espírito Santo são áreas de escape.
O mal-das-folhas retarda o crescimento da seringueira mediante redução da
folhagem. Nos seringais adultos, o fungo causa devastador desfolhamento e
acentuado desfalque na produção. É a doença que no fim dos anos 20, no
ambiente hostil do Pará, causou danos fatais a Fordlândia, frustrada
colônia seringalista de um milhão de hectares e 70 milhões de mudas de
onde deveriam sair 300 mil t/ano, metade da então produção mundial de
borracha natural, mas que gerou, principalmente, enorme prejuízo para o
empreendedor, o histórico Henry Ford. “O Microcyclus ulei e o conseqüente
mal-das-folhas são a razão de o Brasil não ser o principal produtor de
borracha natural”, enfatiza o agrônomo e responsável técnico pelo centro
de pesquisa das Plantações Michelin da Bahia, Carlos Raimundo Mattos.
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