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A produção de filmes de PET biorientado (BOPET) utilizando flocos oferece
dificuldades semelhantes à fabricação de POY. Até agora, no entanto, as
tentativas resultaram em grades de menor valor, devido à menor
estabilidade térmica causada pela presença de comonômeros na
matéria-prima. Os filmes transparentes, de PET amorfo (APET), são menos
problemáticos e produzidos em larga escala na Europa.
Garrafa reciclada – Outra aplicação de maior valor agregado é a
produção de garrafas, conhecida como bottle-to-bottle (garrafa a garrafa).
| A Bühler, uma
empresa suíça com mais de 150 anos, domina o conhecimento para a
instalação de plantas completas de reciclagem de PET garrafa a
garrafa, e partiu a primeira fábrica do tipo em 2002. Atualmente, a
empresa comissiona as instalações do que virá a ser a maior linha de
produção do mundo, localizada na China, com capacidade para 2.500
kg/h, e há fábricas em fase de projeto na Rússia e no México. A
propósito, segundo o colaborador da Bühler Claudemiro Ferreira, a
China tem sido um grande comprador de flocos reciclados no Brasil. |
Cuca Jorge |
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Ferreira: processo permite ao
reciclado aplicação alimentícia |
A instalação completa para a produção garrafa a garrafa é composta
pelos módulos de pré-seleção, reclaiming (recuperação em português, nome
dado ao conjunto moagem, lavagem e separação), extrusão e polimerização de
fase sólida, além, obviamente, de instalações para utilidades, tratamento
de efluentes, estocagem, transporte e laboratórios.
No desenho da Bühler, ocorre a alimentação do floco, separado e lavado, em
uma extrusora do tipo anel, onde acontece a secagem em fase sólida. A
especificação da umidade do floco é de 7.000 partes por milhão (0,7%).
Conforme afirmou Ferreira, a variação desse teor de 0,7% a 0,1%, na
entrada da extrusora, provoca mudança de viscosidade desprezível no
produto final, da ordem de 0,01 unidade.
A extrusora de anel possui 12 roscas co-rotantes. Não se trata de uma
extrusora planetária, mas algo como seis extrusoras dupla-rosca dispostas
em anel, oferecendo uma ótima relação de área superficial por volume e
redução da degradação do PET. A máquina ocasiona queda de viscosidade com
valores típicos da ordem 0,06 a 0,08 dl/g. Essa extrusora também
proporciona a descontaminação do fundido na zona de degasagem, após a qual
o material atravessa uma bomba de polímero, um filtro, e adentra um
sistema de pelletização tradicional. Após a granulação, o PET reciclado
sofre cristalização e pré-secagem tradicionais, e depois pós-condensação
em fase sólida, seguida do resfriamento. Na cristalização, feita com ar a
cerca de 200º C, a finalidade principal é preparar o PET para a etapa
seguinte, de pós-condensação, em que as cadeias moleculares do material
são aumentadas e a viscosidade intrínseca também. O tempo de residência de
8 a 12 horas em altas temperaturas, que acrescenta 0,12 dl/g à viscosidade
intrínseca, garante a descontaminação do material reciclado para aplicação
alimentícia, de acordo com Ferreira. O produto da pós-condensação são
pellets grau garrafa.
Esse tipo de fábrica possui um aspecto legal importante. À parte dos
tradicionais, relativos a códigos e normas, são necessárias aprovações do
produto e do processo por parte de órgãos como o Food and Drug
Administration (FDA) norte-americano. Além desse tipo de burocracia
governamental, particular em cada país, fabricantes de bebidas e alimentos
impõem exigências semelhantes para homologar o fornecedor. Também há
necessidade de cuidado com a infração de patentes no local de produção dos
pellets e no de consumo, no caso de exportação, pois várias já foram
inscritas e detalhadas. “A Bühler está bem posicionada nessa questão, e
possui patentes para a granulação em tempo de residência curto e para
processo integrado de extrusão, cristalização e condensação em fase
sólida”, disse Ferreira.
Para despertar em possíveis clientes o desejo pela sofisticada tecnologia
que apresentava, ele relembrou que o preço do PET virgem pode variar. O
custo de financiamento de fábricas mais simples é menor, mas a
rentabilidade do negócio também. Quando o preço da resina virgem cai, essa
vantagem inicial da fábrica mais modesta desaparece, e instalações de alto
desempenho podem conseguir preço maior, mais próximo ao do plástico
virgem. Uma mãozinha: a empresa da Suíça pode ajudar clientes com
financiamentos para a execução de projetos garrafa a garrafa.
Como processar – Um dos objetivos explícitos do Fórum foi incutir
nos participantes a oportunidade que o investimento em alta tecnologia
propicia perante o novo cenário mundial estabelecido ao longo da última
década: aumento mundial do consumo de poliéster reciclado e demanda por
artigos manufaturados reciclados de melhor qualidade.
| Essa tendência se
estende a elos da cadeia, e tanto recicladores de PET quanto seus
clientes, os transformadores, foram encorajados a investir em
equipamentos de última geração. |
Cuca Jorge |
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| Gneuss é um especialista em sistemas rotativos de
filtração |
Do lado da transformação, a filtração dos flocos fundidos após a
passagem pela rosca de extrusão exerce papel destacado na qualidade do
produto final. Para comentar essa pauta obrigatória, a Gneuss enviou ao
Brasil um membro da família que comanda a empresa especializada na
produção de sistemas rotativos de filtração, o engenheiro Daniel Gneuss.
Esses sistemas são mais caros que os convencionais, com troca de telas,
mas possuem custo operacional menor e permitem mais estabilidade e
qualidade da produção. A troca de telas pode induzir diversas perturbações
no processamento dos flocos: redução da área de filtração ativa durante a
substituição, degradação de polímero em áreas inacessíveis e contaminação
do fundido, bem como maior contaminação por impurezas moles, devido ao
aumento de pressão durante a substituição. A gravidade dessas oscilações
pode resultar em interrupções e fabricação de produtos fora de
especificação (off specs).
Filtros rotativos permitem processos mais próximos do ideal – a operação
com parâmetros constantes –, pois são equipados com um disco de filtros
rotatório, que gira menos de um grau a cada aumento incremental de
pressão. Esse conceito implica em área ativa de filtração e grau de
sujidade constantes. A habilidade para operação sem picos e depressões
permite que sejam adotadas tolerâncias nas especificações do produto mais
estreitas, com economia de matéria-prima. Gneuss apresentou um modelo
equipado com pistão de retorno para retrolavagem automática das telas, que
ocasiona menos de 1% de perda da massa fundida na purga e favorece a
reutilização dos filtros, ampliando os ganhos com custos.
O capítulo “como processar” continuou sendo desfiado por Peter Rieg,
colaborador da alemã Battenfeld, que abordou a produção de chapas de APET
utilizando garrafas recicladas. Esses intermediários são em quase sua
totalidade transformados por termoformagem, em aplicações de embalagens
para alimentos frescos, como saladas, sanduíches ou alimentos prontos para
aquecimento em fornos microondas. É um mercado do PVC que está sendo
atacado pelo PET reciclado.
A construção padrão utilizada nas chapas é a co-extrusão de três camadas
(10/80/10), com reciclado no centro e material virgem em ambas as faces,
para aprovação em uso alimentício. São comuns também camadas de silicone,
para driblar a eletricidade estática alta, e a laminação com camadas
funcionais (PEBD, filmes com barreira, impressos ou metalizados).
A matéria-prima para essa aplicação precisa ter densidade no seio do
material de 400 kg/m3, e cristalização acima de 40%, quando processada em
extrusora monorrosca. Esse tipo de extrusora é o mais obsoleto nesse
negócio, com resultados ruins devido à alta degradação do polímero, mas
que podem ser melhorados em um estágio de pré-secagem com infravermelho ou
com uma bomba de vácuo instalada antes da extrusora. A qualidade do
produto, nesse caso, é aceitável, no entanto, oscilante. A apresentação de
Rieg mostrou que o emprego de extrusora dupla-rosca, sem pré-aquecimento,
mas com bomba de vácuo, leva aos melhores resultados, em particular para
produções acima de 1.500 kg/h com base em matéria-prima com umidade menor
que 0,4%.
Esse processo também permite maiores capacidades, até cerca de 4.000 kg/h.
A qualidade dos flocos processados nessa configuração se manifesta
principalmente na transparência e na uniformidade de cor.
Frank Lechner, um engenheiro que engrossa as fileiras da Coperion,
aprofundou o tema dos equipamentos de processo. O representante da
produtora de extrusoras dupla-rosca co-rotantes enfatizou a importância
das etapas de desumidificação do PET. Por ser um polímero policondensado,
o poliéster é higroscópico e rapidamente atinge o equilíbrio com o
ambiente úmido no patamar de 0,1% a 0,33%. Na plastificação, entre 270º C
e 280º C, a degradação hidrolítica ocorre imediatamente em material úmido,
antes da degradação térmica, 10 mil vezes mais lenta, e a termo-oxidativa,
5 mil vezes.
A saída receitada por Lechner para evitar defeitos no produto final
resultantes de degradação é a degasagem com vácuo durante a extrusão, sem
pré-secagem. Assim são equipadas as extrusoras dupla-rosca co-rotantes da
Coperion, que também sugere posicionar o sistema de vácuo instalado
lateralmente em relação ao eixo das roscas, a fim de evitar contaminações
com depósitos eventuais no equipamento de baixa pressão. A empresa informa
que flocos extrudados em determinados modelos de suas máquinas, após a
passagem por bomba, filtro e um processo convencional de pelletização,
foram aprovados pelo FDA para aplicações em contato com alimentos, sem a
necessidade de reator de pós-condensação em estado sólido.
Espuma reciclada – O fórum se encerrou com comentários de Martin
Mack, colaborador da germânica Berstorff, acerca do emprego de flocos de
garrafas PET na produção de filmes, pellets e espumas. De início, ele
ressaltou que o consumo de PET é um dos maiores na indústria do plástico,
tendo dobrado entre 1998 e 2004. O ritmo previsto de crescimento até 2010
é de dois dígitos ao ano, e a proximidade da extinção das garrafas de PVC,
dando lugar ao poliéster reciclado, impulsiona a viabilidade econômica da
reciclagem.
A Berstorff fabrica extrusoras dupla-rosca e também oferece soluções
combinadas para a produção de chapas, espumas e fibras. Em particular, as
espumas de PET possuem melhores propriedades que concorrentes
poliolefínicos ou poliestirênicos, como melhor resistência à temperatura,
até 200º C, além de maior estabilidade química ao ataque de ácidos,
solventes, óleos e graxas. Mack afirmou que as espumas de poliéster
completamente reciclado não são reticuladas, e as emissões de voláteis são
baixas, pois o dióxido de carbono ou nitrogênio são os tradicionais
agentes expansores.
O controle de viscosidade intrínseca na produção de espumas precisa ser
mantido entre 1,1 dl/g e 1,3 dl/g, muito acima do típico para flocos de
garrafas de PET, perto de 0,75 dl/g. Valores muito baixos causam o colapso
das células antes do resfriamento da espuma; inversamente, viscosidades
muito altas impedem a formação de células. Os primeiros esforços para
alterar a viscosidade dos flakes se concentraram em modificações reativas
na extrusora de dupla-rosca, mas o estado-da-arte para esse tipo de
aplicação utiliza PET grau reator com viscosidade intrínseca de 1,3,
alimentado em extrusora dupla-rosca, onde também é injetado o expansor. O
processo deve transcorrer em baixo cisalhamento, para obter boa mistura do
fundido, que é descarregado em uma extrusora monorrosca para resfriamento
e pressurização.
A chapa de espuma é conformada por cabeçotes adequados, seguidos por uma
unidade de calibração, resultando em produtos com espessura entre 50 mm e
80 mm e densidade de 100 g/l. As principais aplicações se concentram em
espumas estruturais para lâminas de rotores em plantas de energia eólica,
embarcações e no setor automotivo.
Márcio Azevedo
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