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Reciclagem de PET
é analisada em fórum

O Brasil abrigou a 9ª edição do Fórum Mundial de Reciclagem de Poliéster, organizado anualmente em diferentes países desde 2002.

O encontro é promovido pela empresa de consultoria do doutor Ulrich K.Thiele, um especialista alemão que ensina aos clientes como otimizar processos de reciclagem de PET ao redor do planeta.

Cuca Jorge

Thiele discutiu as tendências tecnológicas

 As palestras, realizadas no Clube Transatlântico, em São Paulo, transcorreram sob o panorama das significativas mudanças na cadeia mundial de reciclagem da resina causadas pelo impacto da atuação da China. A volúpia asiática está distorcendo preços e realinhando canais de distribuição, principalmente no uso de polímero reciclado para a produção de fibras cortadas com aplicação têxtil. Da mesma forma que em outros mercados, os baixos custos com mão-de-obra conferem grande competitividade à indústria chinesa, mas há nichos com maior demanda tecnológica nos quais é possível se proteger do assédio asiático, conforme demonstraram as apresentações realizadas durante o fórum.

O programa preparado pelo doutor Thiele englobou tendências tecnológicas de todas as etapas da reciclagem, desde a seleção das matérias-primas, passando pelo refinamento de sua qualidade e pelas tecnologias disponíveis para o processamento dos flocos, até alguns nichos em que produtos de valor agregado superior podem ser fabricados.

A escolha do Brasil como sede do fórum em 2006 não se deu ao acaso. Embora o consumo per capita brasileiro de 1,6 kg/habitante ainda seja baixo em comparação a México, Argentina e até Uruguai, 49% de todo o PET utilizado em garrafas no mercado interno foi reciclado em 2004, quando o consumo nacional do poliéster para embalagens atingiu 360 mil toneladas. É um patamar elevado que assegura posição entre os maiores recicladores da resina do planeta: Estados Unidos, Europa e Japão.

A cadeia básica da reciclagem (coleta, triagem e moagem) no Brasil abrange em torno de 300 empresas. As pequenas correspondem a pouco menos que a metade do universo. As consideradas grandes, 15%, chegam a processar entre 18 e 20 mil t/ano, e 82 são recicladoras exclusivas de poliéster. O material reciclado é utilizado em pelo menos 50 empresas que substituíram outros insumos. Estes números, obtidos em um censo concluído em 2005 pela Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), “comprovam a existência de um parque industrial instalado para o produto reciclado”, nas palavras do presidente da entidade, Alfredo Sette.

Um novo censo foi realizado em 2006, e mesmo antes da divulgação oficial de suas conclusões, Sette adiantou que o perfil de idade e tamanho das recicladoras brasileiras mudou em direção à maior concentração, movimento que qualificou como saudável devido aos maiores volumes e qualidade do reciclado. Mas embora a atividade esteja em fase de maior sofisticação das práticas das cooperativas e das empresas pequenas, o crescimento do setor depende da melhoria dos processos de coleta, que poderia ser impulsionada pela atuação do Poder Público. Em apenas 451 municípios brasileiros, entre mais de 5 mil, há coleta seletiva, e na maior cidade do País, São Paulo, apenas 10% do lixo doméstico reciclável é pré-selecionado. “A atuação do catador de rua já atingiu sua maturação, e o crescimento do mercado virá se houver coleta seletiva organizada pelas prefeituras”, afirmou o presidente da Abipet.

O maior consumidor de poliéster reciclado nacional é o segmento têxtil, na forma de fibras de diversos tipos, seguindo tendência mundial. A exportação é ocasional, e depende do humor da China. A oferta brasileira está muito equilibrada com a demanda, e Sette recomenda garantir o fornecimento das embalagens pós-consumo antes de entrar no negócio. “É preferível estabelecer novos sistemas de coleta em vez de criar escassez e aumentos de preço no mercado”.

A substituição de insumos pelo termoplástico reciclado cresce no Brasil, e aplicações no setor químico (na produção de resinas alquídicas), e na fabricação de termoformados, frascos e blisters estão em expansão, embora ainda sejam nichos muito pequenos, com fatia total menor que 10% do mercado.

PET revalorizado – Os flocos (populares flakes) resultantes da moagem de embalagens pós-consumo de PET são o produto do reciclador. Eles podem gerar intermediários diversos (fibras cortadas, filamentos pré-orientados, filmes cast ou biorientados, monofilamentos e até insumo para a produção de novas garrafas), de acordo com sua pureza e a viscosidade intrínseca que oferecem quando fundidos. De modo geral, quanto mais altos esses fatores, melhor o preço recebido.
A origem das embalagens pós-consumo tem grande peso na pureza do floco, e as aplicações alimentícias se restringem a embalagens oriundas da coleta de fonte conhecida, o que exclui a coleta nos “lixões”, os aterros sanitários, mas qualifica embalagens retornáveis.

As contaminações decorrentes da procedência são várias e incluem embalagens de PET com cores diferentes, produtos de impressão, outros polímeros (PE, PP, PVC, PS e PA6 são os mais comuns), metais, adesivos, papel e virtualmente tudo que se enquadra no lixo doméstico.

Um processo básico de fabricação de flocos de poliéster reciclado começa com a separação manual de garrafas de PVC e garrafas de PET com cor diferente da desejada em uma esteira de correia que leva as garrafas adequadas ao moedor. Moído até 12 a 15 mm, o material é levado a um tanque onde as poliolefinas (como as de tampas e etiquetas) se alojam acima do poliéster, removido pelo fundo do tanque, e seco em centrífuga ou secador a ar. Esse esquema, no entanto, não leva a flocos de grande pureza. Para melhorá-la, a seleção manual pode ser feita sob luz que estimule a fluorescência, para destacar garrafas de PVC, graves contaminantes, ou pode ser automatizada, a solução mais cara e eficiente, com detecção eletrônica por NIR (de near infrared, ou infravermelho próximo). Detectores de metal e dispositivos de inspeção óptica, para a exclusão de cores erradas, adicionam custos, mas também melhoram a seleção.

A moagem é refinada com a divisão do processo em dois passos, primeiro a seco, até 40 mm, e depois por via úmida, mais eficaz na limpeza, até cerca de 12 mm. Entre essas etapas, pode-se adicionar um peneirador a ar, e outro antes da fase de embalagem dos flocos terminados, para garantir a ausência de fibras de papel.

Na lavagem, os hidrociclones são equipamentos mais eficientes que os tanques em linhas com produção acima de 2 t/h. A retirada de contaminantes como adesivos é melhorada com água quente e produtos químicos, cuja remoção também pode ser acentuada com água “limpa”.

Outro ponto crucial é a qualidade do fundido que os flocos oferecem. Segundo o doutor Thiele, nos últimos anos foi possível estudar o impacto de diferentes métodos de processamento dos flakes na qualidade do PET plastificado e sua processabilidade e a produção de filamentos pré-orientados de poliéster (polyester pre-oriented yarn, ou POY) com base na resina reciclada, um antigo desafio, começa a se tornar viável. As primeiras tentativas, há mais de dez anos, esbarraram em matérias-primas pouco puras e tempos de residência do fundido muito altos.

Dentre os possíveis arranjos para esse tipo de linha de produção, a conversão de material repelletizado se mostrou a opção mais adequada à fiação do POY, segundo a experiência de Thiele. Adicionar uma etapa de granulação encarece a produção, mas permite resultados melhores. A conversão direta de flocos, sem regranulação, é influenciada pela filtração do fundido, uma das principais fontes de distúrbios no processo, em especial quando a quantidade de impurezas dos flocos oscila muito. São necessários filtros de massa que ofereçam pressão constante e corte entre 10 e 30 micrômetros, e o ajuste da viscosidade intrínseca, por controle da umidade ou adição de etilenoglicol (que quebra as cadeias de PET), também é sugerido.

 

 
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