A área médica e o segmento de brinquedos são líderes em termos de imagem, sofisticação e cuidados na indústria de vinílicos. Utilizado em grande parte em aplicações extracorpóreas, à exceção de alguns catéteres de uso provisório, o PVC grau médico precisa ser muito flexível, e por isso incorpora ainda mais aditivos que os grades flexíveis usuais.

Essa aditivação já foi motivo de questionamentos nos anos 90, quando os plastificantes da família dos ftalatos foram acusados de migrar.“A migração pode ocorrer, mas atende a limites normatizados, e não se provou que ela resulta em câncer”, esclarece o diretor do Instituto do PVC Édison Carlos, refutando outra nuvem negra que já pairou sobre o plástico.
PC especial suporta picos de 200º C, explica Coloma

 Segundo ele, a IARC (Agência Internacional de Pesquisa do Câncer) rebaixou a classificação de toxicidade do ftalato de mais largo emprego na indústria de PVC, o DOP (dioctilftalato), para não ser considerado cancerígeno. O plastificante, entretanto, deve ser evitado nas aplicações em contato de peças de PVC com neonatos (crianças com menos de três anos de idade) expostos a grandes intervenções cirúrgicas. Acima dessa idade, o uso é livre, e outros ftalatos como DINP (diisononilftalato) e DIDP (diisodecilftalato) podem ser utilizados em qualquer aplicação médica, até as relacionadas a neonatos.

Os estabilizantes térmicos poderiam ser outro calcanhar-de-aquiles do PVC (a indústria já utilizou estabilizantes à base de metais pesados), mas tanto Telles quanto Carlos são veementes ao atestarem que aplicações médicas e na área de alimentos empregam estabilizantes à base de Ca-Zn. Além do óbvio risco à saúde humana e à saúde dos negócios, os eventuais lucros com o uso de produtos à base de metais pesados seriam irrisórios devido aos baixos volumes de compostos direcionados ao setor médico.Apesar do uso difundido, o PVC não possui biocompatibilidade tão boa quanto à dos materiais preferidos nas aplicações intracorpóreas, o silicone e a poliuretana (PU). O termo se refere a um conjunto de propriedades que incluem atoxidade, ausência de interações com os fluidos e tecidos humanos, e ausência de migração.
Produção local e substituição de sucedâneos puxam vendas,diz Simielli

Para tentar contornar esse inconveniente, ou ao menos reduzi-lo, o Instituto do PVC patrocinou projetos de pesquisa com o intuito de verificar a possibilidade de recobrir o PVC com camadas de heparina, um fármaco anticoagulante que inibe a rejeição provocada por objetos estranhos ao corpo humano. A pesquisa, desenvolvida em parceria com o laboratório de biomateriais da divisão de bioengenharia do Instituto do Coração (Incor), revelou que o PVC pode ser revestido com heparina, mas ainda é necessária uma nova etapa de pesquisa para se determinar os mecanismos de controle da formação dessa camada. “O desafio atual do PVC na área médica é torná-lo mais biocompatível, aumentando sua aplicação no interior do corpo humano”, afirmou Carlos.

Plásticos de engenharia – Um filão de mercado mais atraente, no entanto, é o ocupado pelos plásticos com desempenho superior ao das commodities, os chamados plásticos de engenharia. Uma série de polímeros dessa gama possui aplicação nas áreas médicas.

O policarbonato (PC), termoplástico com maior resistência ao impacto, é um dos casos de sucesso. As aplicações clássicas do PC na medicina envolvem aplicações com demanda por transparência (peças como câmaras de umidificação, componentes de centrífugas, inaladores, transdutores de pressão e caixas para instrumentos cirúrgicos), alta resistência térmica, mecânica e química. O material substitui o vidro, cuja resistência mecânica é menor, e às vezes o PVC, que não atende a exigências técnicas mais severas. A Bayer, inventora do PC, fabrica a resina e blendas com outros materiais para aplicações em contato com tecidos e sangue. O grade médico precisa de maior resistência à hidrólise e ao stress cracking (fissão por esforço mecânico, ou, nos últimos tempos, tensofissuramento), e os PCs de cadeias longas e alto peso molecular são mais adequados para esse tipo de aplicação. A resina possui a vantagem de utilizar poucos aditivos, além de desmoldantes e pigmentos, o que torna mais simples obter grades biocompatíveis. A maior parte das aplicações para esse plástico de engenharia também requer capacidade de ser esterilizado. O material resiste bem a processos de esterilização em temperaturas até 120º C. Mas, segundo o colaborador da Bayer Fermín Coloma, já há casos em que o material deve resistir a temperaturas superiores, e a empresa oferece um PC (considerado uma especialidade, e não um plástico de engenharia) que suporta até 200º C de pico. O material requer temperaturas de processo e da parede do molde apenas um pouco mais altas que a resina usual para o setor médico.

Uma das aplicações inovadoras para o PC da Bayer são os dispositivos de injeção subcutânea sem agulhas que eliminam as temidas picadas. O produto é composto por um injetor metálico de alta pressão, responsável por “empurrar” o medicamento cerca de 6 mm a 9 mm no interior do tecido adiposo, através de um orifício de apenas 7 µm, e a ampola, que contém o medicamento, feita em PC. A resina de engenharia é necessária devido à alta resistência mecânica necessária à ampola, pois o processo de injeção se assemelha a uma pequena explosão.
 

 
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