BORRACHA GAÚCHA ESTOURA NO SEMESTRE

A economia do Rio Grande do Sul vai mal em 2005 por conta do agronegócio afundado em dívidas decorrentes da forte estiagem responsável pelo fracasso da safra de inverno. O Índice de Desempenho Industrial (IDI) do Rio Grande do Sul, medido pela Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), registrou índice negativo de 2,3% no acumulado de janeiro a maio de 2005, comparativamente ao mesmo período de 2004. O resultado foi influenciado principalmente pelas vendas (-9,03%) e compras (-4,6%). O percentual do IDI é recorde desde 1992. A dinâmica indústria para transformação da borracha é um dos setores que ficou de fora desses números indesejáveis: acumulou 7% de crescimento positivo no primeiro semestre em comparação com o ano passado – outro período de desempenho fantástico –, 27,4% ao longo de 12 meses. Em 2003 já havia acumulado 15%, uma exorbitância se confrontados com 1,5% do PIB brasileiro de dois anos atrás.

“O bom desempenho da indústria da borracha do Rio Grande do Sul embasaria as condições para um excelente desempenho do setor em 2004. Esta previsão se confirmou com a recuperação da economia e com isso o setor da borracha foi o segmento de destaque da indústria gaúcha”, afirma o IDI. Especificamente com relação ao segmento de elastômeros, todas as previsões do IDI são positivas e encorajadoras. A projeção final aponta crescimento real de 5% neste ano em comparação com 2004. Mesmo assim, a indústria gaúcha poderá fechar 2005 com índice zero. O RS participou com mais de 15% do total das exportações brasileiras de borrachas (englobados os sub-setores matérias-primas, pneumáticos e artefatos leves). Estimativas revelam que as exportações gaúchas em borracha foram de US$ 168 milhões, o equivalente a 2% do total das vendas externas do Estado.

O sucesso dos fabricantes de borracha se explica pela diversificação. Embora o Estado forneça 60% das colheitadeiras, 50% dos tratores e implementos agrícolas produzidos no País, os transformadores de borracha já não dependem exclusivamente do setor agrícola para expandirem os negócios. Eles contam hoje com duas montadoras de ônibus, uma delas situada entre as três maiores do mundo, fábricas para carrocerias de caminhões e ainda respondem, junto com São Paulo, pelo maior parque de autopeças e componentes automotivos em larga escala, inclusive três fábricas de pneus para veículos de grande porte. Outro carro-chefe do consumo de elastômeros é a indústria de calçados, posicionada em escala mundial.

A escalada dos transformadores de borracha rumo aos vôos mais ousados tem como ponto de partida 1992 quando pioneiramente um grupo de empresários montou um estande coletivo na feira de Hannover, na Alemanha, informa o presidente do Sindicato da Indústria de Artefatos de Borracha do Estado do Rio Grande do Sul (Sinborsul) Geraldo Fonseca. De lá para cá, recorda Fonseca, o Sindicato agregou forças, em sua política de participação agressiva nesses eventos.

Nas edições seguintes, incorporou às delegações o pessoal de comércio exterior da Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos), com larga experiência na consultoria para o setor coureiro-calçadista, e os técnicos do Centro Tecnológico de Polímeros (Cetepo), único no País equipado para realizar todos os ensaios físico-químicos com polímeros, para conhecerem de perto os produtos estrangeiros e as técnicas de comércio no mundo desenvolvido. Fernando de Castro

Fonseca levou caravanas ás feiras internacionais

Com 11 anos de atividade, o Cetepo está credenciado para certificar produtos em nome das entidades da União Européia e dos Estados Unidos. Dessa forma, o exportador não necessita enviar produtos novos ao exterior como forma de receber os laudos necessários às vendas naquele continente. O mesmo ocorre em nome das certificadoras norte-americanas. Todos os materiais bocais usados por bebês na primeira infância, como mamadeiras e bicos em elastômeros fabricados no Brasil, são testados no Cetepo, devido ao alto grau de confiabilidade de seus laboratórios.

“Fomos os primeiros a levar representantes de uma universidade e engenheiros de polímeros às feiras, depois introduzimos essa idéia no restante do País via Fiesp e Fiemge”, revela Fonseca, referindo-se à Federação das Indústrias de São Paulo e à Federação das Indústrias de Minas Gerais. Depois, os consultores da Unisinos criaram cursos e treinamento de capacitação dentro da própria Fiesp, na Firjan, do Rio de Janeiro, e nas Federações das Indústrias de Santa Catarina e do Paraná.

Segundo Fonseca, enquanto outras áreas se preocupavam com a concorrência, o setor da borracha brasileiro formava caravanas de empresas para se apresentar em conjunto nos eventos internacionais. “Ninguém é grande o suficiente para ocupar o mercado inteiro”. Como decorrência do alto nível de organização, a indústria gaúcha da borracha foi alçada à condição de único Arranjo Produtivo Local, chancela conferida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o segmento borracha.

O fato ocorre porque o Estado detém todos os elos, desde o desenvolvimento tecnológico, fabricação e fornecimento de matérias-primas no pólo petroquímico, manufatura de produtos e sistemas de logística para abastecimento dos mercados regional, nacional e exterior.

Mas a principal arma do Sinborsul é a participação em feiras pelo mundo afora. Nesse aspecto, o sindicato tem realizado diversas parcerias com entidades dos setores metal-mecânico, de componentes para calçados, de autopeças, e de plásticos. O objetivo é divulgar a indústria da borracha gaúcha e brasileira fora das feiras do setor, enviando representações para as exposições internacionais tipo K e da área metal-mecânica.

Além disso, o Sinborsul participa dos dois principais eventos mundiais de sub-contratação industrial, um inserido dentro do mega evento da Alemanha e a Midest, na França. Ao mesmo tempo, comparece a pequenos eventos do gênero Bilbao, Estambul Casablanca e pelo menos um em território norte-americano. “Se somarmos as feiras pequenas com os eventos bienais teremos presença constante em cinco feiras por ano. Aí você é visto como uma indústria vigorosa e não como um grupo de empresas isoladas”, ensina Fonseca.

“A política funciona bem porque tem uma coordenação muito boa. O Geraldo é muito bom para montar parcerias e atingir os objetivos. É a pessoa certa fazendo a coisa certa”, elogia Jorge Hoezel Neto, da Mercur, com sede em Santa Cruz do Sul, um dos mais tradicionais complexos industriais para a transformação de elastômeros do País. “As indústrias não se enxergam como concorrentes, há muita parceria para desenvolver produtos”, assinala ele. Foi justamente a partir da filosofia proposta por Fonseca à frente do Sinborsul que a Mercur começou a repensar seu papel no mercado.

Com 80 anos de atividade, a empresa começou a operar a partir da impermeabilização de tecidos e consertos de pneus em 1924. Na década de 30, passou a fabricar bolas de tênis. Durante a Segunda Guerra Mundial abasteceu as tropas brasileiras com botes e coletes salva vidas, capas de chuva, bolsas de água quente, e lençóis impermeáveis para hospitais de campanha.

A Mercur fazia ainda saltos de sapato de borracha, marrons e pretos, para a nascente indústria calçadista e também começava a produzir borrachas de apagar, uma das marcas registradas da empresa até os dias de hoje. Mangueiras, mangotes, tubos de borracha, tapetes e passadeiras para piso, capachos, seringas, duchas, anéis para vidros de compotas, limpa-tipos para máquina de escrever, elásticos, duchas, irrigadores, bolsas de água quente e dezenas de outros produtos saíam de Santa Cruz do Sul para um mercado ansioso por novidades, a partir dos anos 40 até meados dos anos 70.

No entanto, em 1996, a empresa era grande, tinha boa reputação no mercado, mas estava fora do eixo, como reconhece Hoezel. Depois de visitar feiras pela Europa e Ásia, uma das decisões foi encerrar a produção das bolas de tênis. Já não eram mais competitivas. A partir daí, a Mercur foi dividida em unidades de negócios. “Fazíamos muitos produtos. Estávamos voltados para dentro da empresa e não para o mercado”. Junto com as bolinhas, foram abandonadas todas as linhas que não tinham alcance para exportação ou sem condições de concorrer com produtos importados.

Em compensação, a empresa introduziu uma combinação criteriosa em fabricação de mercadorias e compra terceirizada, inclusive por importação, de série de itens como forma de abastecer o atacado e o varejo com linhas completas de produtos. Como é líder nacional na fabricação da borracha de apagar escolar de primeira qualidade, a Mercur passou a importar lapiseiras, cola bastão, vendidos com a marca própria ou licenciados pela Disney e Luney Tunes como forma de completar a grade de produtos de um determinado nicho de mercado.

Hoje, a empresa exporta para cerca de 30 países, desde materiais escolares até produtos para fisioterapia e ortopedia como bolsas de água quente, joelheiras, munhequeiras, protetor de coxa, tornozelos, botas imobilizadoras, bengalas de metal, essas últimas igualmente terceirizadas, apenas para completar a lista de produtos. Nos últimos cinco anos, aumentou 100% o faturamento por conta das exportações.

A empresa criou inclusive uma diretoria de exportação e como próximo passo pretende abrir uma filial nos EUA, escritório ou sistema terceirizado, mas com estoque regulador, até como forma de diminuir distâncias com os mercados da Europa e da Ásia. Existe a possibilidade de parceria com as empresas de logística, detentoras de larga experiência com movimentação de cargas dentro do território norte-americano. “Nunca fazemos sociedade, mas não abrimos mão de sólidas parcerias”, diz Hoezel. A Mercur desenvolve ainda produtos como pisos e laminados para ônibus, colheitadeiras e tratores, e ainda algumas peças e juntas de vedação usadas na indústria automotiva. São 600 toneladas/mês de elastômeros transformados.

Outra empresa beneficiada pelos programas pró-exportação do Sinborsul é a Frenzel. Desde sua adesão ao Sindicato, a empresa abriu uma carteira de exportação em território norte-americano. Manda para lá componentes dos espelhos retrovisores e do sistema de freios Delphi. Além disso, abastece uma série de sistemistas de montadoras brasileiras como a General Motors de Gravataí. Neste ano, a Frenzel abriu canal de exportação para a Espanha e pode conseguir mais um na Alemanha. A pauta de exportações da Frenzel já representou 30% do faturamento. A queda do dólar frente ao real, porém, derrubou a taxa para 25%.

A gerente-geral da empresa Tânia Finkler confia na recuperação para a margem anterior com o começo das vendas no país ibérico. Um dos trunfos da Frenzel em sua trajetória no comércio exterior é seu índice zero em PPN, ou seja nunca recebeu de volta uma peça defeituosa. “Quando você mostra um relatório com uma informação dessas, por maior que seja o problema do câmbio, a qualidade fala mais alto, e você fecha o negócio”, garante a executiva.

Exemplos de sucesso sobram na história da terceira geração de transformação de elastômeros gaúcho, como a Vipal, que se transformou em líder mundial no segmento de recuperação de pneus de caminhão. Fabrica desde colas, adesivos e sistemas de remendo a quente e a frio, até as bandas para recuperar pneus usados. Hoje, a Vipal exporta sua tecnologia para mais de cem países a partir de Nova Prata, no Planalto Médio do Rio Grande do Sul.n

Fernando Cibelli de Castro

 

 
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