COMMODITIES   

Preços e consumo revertem queda no segundo semestre

Mercado segue tendência mundial, mas recuperação do consumo ainda é lenta


Texto de Simone Ferro e fotos de Cuca Jorge 

O segundo semestre deste ano começou com alta na cotação das principais commodities termoplásticas. Os reajustes, entre 8% e 10% em média, marcaram a retomada da recuperação de preços e margens iniciada pelas indústrias nacionais de segunda geração em agosto. O setor registrou ainda pequena evolução nas vendas internas a partir de julho, principalmente em função da recomposição dos estoques da transformação.

No primeiro semestre, os produtores de resinas enfrentaram um cenário menos favorável, embalado pela retração do consumo interno e queda de preços. A exemplo dos chineses, os transformadores brasileiros optaram por esgotar os próprios estoques. Os preços recuaram entre 5% e 7%.

No mercado internacional, a tendência de queda se reverteu a partir de julho, quando o polietileno de baixa densidade (PEBD) passou de US$ 980 para US$ 1.100 a tonelada. O mercado interno seguiu a tendência mundial. Recuperou demanda de petroquímicos e preços.

De acordo com os números apurados pelo Sindicato da Indústria de Resinas Sintéticas do Estado de São Paulo (Siresp), o consumo aparente (resultado da produção somada à importação menos a exportação) aumentou parcos 3,1% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado, passando de 1,8 milhão de toneladas para 1,856 milhão de t. Os números excluem o polietileno tereftalato (PET).

A principal queda ocorreu no segmento de polietileno linear de baixa densidade (PEBDL), menos 9,1%. O consumo aparente de copolímero de etileno e acetato de vinila (EVA) ficou 5,9% abaixo, e o de polietileno de alta densidade (PEAD) caiu quase 1%. O volume de policloreto de vinila (PVC) e polipropileno (PP) aumentou 12,4% e 6%, nessa ordem.

Já as exportações se mantiveram em alta. No primeiro semestre, as indústrias de segunda geração venderam 21,9% a mais no exterior no comparativo com o mesmo período do ano passado. A produção das principais commodities cresceu 5,1%. O destaque ficou por conta do PEBDL, com evolução de 15,7%, e do PP, 8,7%.

Na avaliação de representantes do setor, alguns fatores positivos alimentam as perspectivas de um período mais promissor. Além do segundo semestre ser tradicionalmente mais favorável, em função das vendas de Natal e da própria sazonalidade do mercado dos plásticos, os fabricantes locais apostam na queda da taxa Selic que, segundo especialistas do mercado financeiro, ficará em torno de 18% até o final do ano.

Somam-se a isso outros indicadores da atividade econômica, todos em níveis bastante favoráveis, como a queda da inflação e do risco Brasil, o câmbio, o bom desempenho das exportações e o saldo crescente da balança comercial. 

“Ao que tudo indica, a estabilidade econômica não será afetada pela crise política”, defendeu o presidente da Braskem, José Carlos Grubisich. 

Os números apurados pela Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) reforçam essa expectativa. Segundo a entidade, as exportações de transformados plásticos aumentaram 28%, atingindo cerca de US$ 471,2 milhões no primeiro semestre.

Grubisich: política não deve contaminar cenário econômico

O presidente da Abiplast Merheg Cachum atribuiu parte do resultado ao Export Plastic, programa de incentivo às exportações. “O programa veio para alavancar as vendas externas de transformados plásticos e, principalmente, levar as empresas que não exportavam a exportar, como uma alternativa extremamente importante à crise interna do setor”.

Dessa opinião compartilham outros representantes do mercado de plástico, que apostam na blindagem econômica diante das denúncias de corrupção. “A estabilidade do dólar, entre outros indicadores, demonstram tranqüilidade na economia nacional. Felizmente, a crise política caminha por um lado e a economia por outro”, avalia o diretor de vendas de plásticos da Dow Brasil Fernando Rodriguez.

Dentre os fatores de risco citam as altas registradas no preço do petróleo e nafta. No início de agosto, o barril do petróleo ultrapassou a casa dos US$ 65. O preço médio da nafta ARA (Amsterdã – Roterdã – Antuérpia) no segundo trimestre ficou em US$ 445 a t. “Representa alta de mais de 26% em relação ao mesmo período de 2004, quando a tonelada estava cotada a US$ 352”, diz Grubisich.

Em meados de abril, a nafta atingiu seu maior valor histórico, quando a tonelada chegou a US$ 521. O aumento, parcialmente compensado pela desvalorização do dólar, refletiu nos custos dos insumos petroquímicos. “O aumento gerou um impacto negativo superior a R$ 820 mil por conta das matérias-primas”, afirma Grubisich. A variação da nafta no semestre chegou a 30%.

Investimentos – Outros fatos relevantes neste início de semestre se referem à confirmação de novos projetos de expansão da capacidade produtiva, principalmente nos segmentos de polietileno e polipropileno. Haverá expansões também nas capacidades brasileiras de PVC. Antes mesmo do início da produção, a Rio Polímeros já avalia a possibilidade de ampliar a capacidade para 700 mil toneladas/ano.

A proposta será apresentada ao conselho de acionistas em 2006, segundo informações do diretor financeiro e de relações com os investidores da Suzano Petroquímica João Pinheiro Nogueira Batista, grupo que detém 33,3% das ações da RioPol. Para tanto, estima investimentos da ordem de US$ 100 milhões.

A Braskem iniciou estudos para a construção de uma planta de PP na Venezuela, em parceria com a Pequiven, e para a instalação de complexo petroquímico a partir do gás natural boliviano. O projeto, complementar ao da Venezuela, prevê a produção de 650 mil a 800 mil t de polietilenos na fronteira Brasil/Bolívia. A idéia é comprar gás natural barato, transformá-lo em eteno na Bolívia e em PE no Brasil. 
Segundo Grubisich, os investimentos para o projeto boliviano deverão consumir entre US$ 800 milhões e US$ 1 bilhão para a parte petroquímica, sem considerar a separação do gás. A decisão final será tomada em 2006 com a conclusão dos estudos técnicos e econômicos.

Na avaliação de Grubisich, os novos investimentos colocam a Braskem em linha com as maiores companhias mundiais e reforçam os esforços de internacionalização dos ativos da empresa. A planta da Venezuela atenderá os países da América do Sul, ao lado do pacífico, e da América do Norte.

Já o projeto boliviano visa os mercados do Brasil e Argentina. “Estaremos a 1.000 km de São Paulo.” A Braskem pretende atrair ainda investimentos da transformação para criar um pólo exportador de produtos plásticos manufaturados. “Vamos buscar alguns parceiros comerciais.”

Líderes brigam por PP – Resina de maior demanda no País, o polipropileno fechou o semestre com o consumo aparente na casa das 521 mil toneladas, 6% de alta em relação ao mesmo período do ano passado. A produção da resina aumentou 8,7%, segundo dados divulgados pelo Siresp. Já as exportações passaram de 72 mil t para 98 mil t, evolução de 34,9%.

O mercado de PP também protagonizou as principais movimentações estratégicas da indústria de segunda geração no semestre. Além de confirmarem seus projetos de expansão, anunciados anteriormente, Polibrasil e Braskem sinalizam com novas investidas, acirrando ainda mais a disputa pela liderança desse mercado.

A Braskem e a Pequiven, braço petroquímico da Petróleos de Venezuela SA (PDVSA), iniciaram estudos para a construção de planta com capacidade para 400 mil t de PP no Complexo Petroquímico de El Tablazo, na Venezuela. A iniciativa é o primeiro resultado prático do memorando de entendimento assinado em fevereiro, com o objetivo de avaliar oportunidades de desenvolvimento de negócios conjuntos naquele país.

Na avaliação da diretoria da Braskem, trata-se de um negócio muito atrativo em função das escalas de produção e acesso ao propeno de refinaria fornecido pela PDVSA. “A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo e gás natural da América Latina e ocupa posição estratégica em termos geográficos e de logística em relação a outros mercados internacionais”, diz o presidente da Braskem.

A Braskem também confirmou a parceria com a Petroquisa, subsidiária da Petrobras, para a construção de nova planta, em Paulínia-SP, com capacidade para até 350 mil t/a da resina, negócio de interesse declarado da Polibrasil.

O projeto, no valor de R$ 240 milhões, foi aprovado pelo conselho de administração da companhia e tem conclusão prevista para o final de 2007. Segundo a Braskem, a gestão da nova unidade será exercida de forma compartilhada pelas duas empresas. “Cabe à Braskem a responsabilidade pela comercialização”, informa Grubisich.

Dessa forma, a capacidade de produção salta das 650 t/a de Triunfo-RS, recém ampliada, para 950 mil t/a. A divisão societária será de 60% do capital votante para a Braskem e 40% para a Petroquisa. Cerca de 30% do capital investido será arcado com recursos próprios dos acionistas e o restante por meio de financiamentos de longo prazo.

As vendas no mercado interno aumentaram 10% e a Braskem planeja investir R$ 650 milhões ao longo de 2005. O montante inclui os primeiros desembolsos com o projeto de Paulínia, além de diversos programas para aumento de capacidade, ganhos de produtividade e eficiência, na atualização tecnológica das plantas e nas áreas de saúde, segurança e meio ambiente. No primeiro semestre, o volume investido somou R$ 213 milhões. Os gastos com paradas programadas de manutenção chegaram a R$ 33 milhões.

O anúncio da Braskem ocorreu dois dias após a Suzano Petroquímica assinar o acordo para a compra da participação da Basell na Polibrasil por US$ 240 milhões. O pagamento e conclusão do negócio estão previstos para o final de agosto, quando a Suzano Petroquímica assumirá o controle integral da Polibrasil.

Com isso, a companhia deixa de ser apenas investidora e co-gestora para se transformar numa empresa com gestão estratégica e operacional, com participação na Petroflex (20,12%), na Politeno (34,99%) e na recém-inaugurada Rio Polímeros (33,33%).

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