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RECICLAGEM BRASILEIRA BATE A EUROPA OCIDENTAL

O Brasil recicla mais plásticos que muitos países da Europa. Em 2003, o índice nacional já atingia 16,5%, enquanto a taxa média da Europa Ocidental ficou em torno de 14,8%, um ano antes. “Apenas a Alemanha, com 31%, e a Áustria, com 19,1%, reciclam mais que o Brasil”, afirma o presidente do Instituto Nacional dos Plásticos (Plastivida) Francisco de Assis Esmeraldo. Trata-se de um patamar surpreendente para um país cuja coleta de lixo urbano não atinge todos os domicílios, sem falar no baixo índice de coleta seletiva.

Os dados fazem parte da pesquisa elaborada pela MaxiQuim Assessoria de Mercado a pedido da entidade. Os resultados foram apresentados no 1º Simpósio Plastivida, realizado em maio, em São Paulo. Participaram do evento autoridades, representantes do setor petroquímico e da transformação e recicladores.

O economista Paulo Mibielli, do Núcleo de Estatísticas Ambientais do IBGE, apresentou as conclusões da primeira pesquisa ambiental realizada pelo instituto, divulgada no ano passado. Em 2005, o IBGE publicou o Suplemento de Meio Ambiente com informações relativas à reciclagem e coleta seletivas nos municípios brasileiros.

De acordo com a pesquisa, em 2000, apenas 451 municípios adotavam algum tipo de coleta seletiva. “Cerca de 92% dessas cidades localizam-se nas regiões Sul e Sudeste.” Da ordem de 80% dos 500 recicladores brasileiros localizam-se na Grande São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. “Em 2003, essas empresas faturaram cerca de R$ 1,22 bilhão, gerando 11.500 empregos diretos”, diz Esmeraldo.

A pesquisa mostra ainda que os recicladores tinham capacidade instalada para recuperar 1,05 milhão de toneladas por ano, consumiram 777 mil t e produziram 703 mil t de plásticos reciclados. “As regiões Sul e Sudeste totalizam 82,7% dos resíduos plásticos pós-consumo.” O índice de reciclagem mecânica atinge 39,3% no PET, 16,6% no PEAD, e 16,5% no PVC. Na seqüência ficam os PEBD/PEBDL, o PP, o PS e os demais tipos de plásticos.

A campeã da reciclagem pós-consumo é a região sudeste (58%), seguida pela região Sul e pelo Nordeste. “Tudo isso não seria possível sem o grande exército de catadores informais, formado por cerca de 500 mil pessoas, que recolhe e vende os resíduos”, diz Esmeraldo.

Foco político – O presidente da Plastivida ressaltou ainda que os bons resultados apareceram apesar de só 8,2% dos municípios brasileiros contarem com coleta seletiva e de o País não ter legislação federal de manejo de resíduos sólidos. “O gerenciamento de resíduos sólidos constitui hoje um dos componentes determinantes do desenvolvimento sustentável, no qual depositamos nossas esperanças mais certas.”

O tom político do evento ficou sob a responsabilidade da senadora Serys Slhessarenko, presidente da Frente Parlamentar Ambientalista no Congresso Nacional. A senadora discursou sobre a atuação do poder legislativo e conclamou a ajuda do setor privado para a elaboração da Política Nacional de Resíduos Sólidos. “Temos de fazer as melhores leis e para isso precisamos da participação de toda a sociedade.”

Esmeraldo citou como exemplo as obrigações legais adotadas na União Européia sobre a disposição final de vários resíduos plásticos utilizados em embalagens. “Até 2001, seus países membros deveriam reciclar no mínimo 15% de cada tipo. Para Irlanda, Portugal e Grécia, o prazo encerra no fim de 2006. A meta deverá ser ampliada para 22,5% até dezembro de 2008.”

Segundo ele, o Brasil já avançou em alguns aspectos. “Embora a consciência ambiental tenha se disseminado entre a população e hoje seja uma das preocupações em todas as esferas de governo, nos falta uma legislação federal de manejo de resíduos sólidos, com estímulos claros à reciclagem”, critica. Outro problema grave refere-se à ausência de coleta de lixo urbano em algumas regiões do País.

Exemplo – Em meio à legião de autoridades políticas e empresariais do setor petroquímico, quem realmente chamou a atenção no 1º Simpósio da Plastivida foi a presidente do Centro de Educação Ambiental (CEA), de Porto Alegre-RS, Marli Medeiros. Mulher, negra e de origem humilde, Marli atraiu a atenção da platéia ao contar sua experiência na fundação do CEA.

A entidade auxilia a população de uma região extremamente carente, classificada como o segundo bolsão de miséria da América Latina. Dominado pelo tráfico de drogas, o bairro de Vila Pinto viu sua história começar a mudar com as atividades do centro. “Das 45 bocas de fumo, sobraram apenas duas. Nem a polícia entrava lá.”

Com o apoio esporádico do setor privado, o centro sobrevive da venda de materiais recicláveis. “O lixo pode erradicar a pobreza”, diz Marli. O CEA abriga diversas ações sociais e de promoção da cidadania, além de garantir renda aos seus trabalhadores. Marli já percorreu vários países e estados brasileiros para contar sua experiência. “Não tem segredo, só vontade de mudar as coisas.” 

Simone Ferro

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