Concorrência desleal dos asiáticos compromete os fabricantes nacionais

Com preços aviltados, as máquinas chinesas caem nas graças da transformação,  para desgraça do fabricante brasileiro


Texto de Maria Aparecida de Sino Reto e fotos de Cuca Jorge

O mercado brasileiro de injetoras atravessa momento difícil, com a indústria de transformação brasileira sufocada pelas sucessivas altas nos preços das resinas, portanto com fôlego curto para investir em equipamentos, e com o desvio de boa parte desses parcos recursos para os concorrentes asiáticos, que seduzem os transformadores com seus preços aviltados. Perdem os fabricantes de máquinas, com capital reduzido para reinvestir em tecnologia, e perdem ainda mais os transformadores, que sem a necessária reposição e atualização do parque industrial, com injetoras mais produtivas e eficientes não têm como ganhar competitividade global e alcançar o tão almejado mercado internacional.

Os juros altos associados à valorização do real, tanto em relação ao dólar como ao euro, favorecem a entrada dos importados, analisa Guido Pelizzari, presidente reeleito da Câmara Setorial de Máquinas e Acessórios para a 
Pelizzari: asiáticos estão canibalizando o mercado

Indústria do Plástico (CSMAIP), da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e diretor geral da Sandretto do Brasil. 

Segundo ele, o problema afeta em especial as áreas de brinquedo, eletroeletrônicos, autopeças e ainda as embalagens, setores grandes usuários de injetoras.

“O setor de eletroeletrônico esteve muito mal, principalmente eletroportáteis e a chamada linha marrom, vídeo e áudio, e também o setor de informática, chegando a ter quedas muito profundas, até 50% na linha marrom e 20% a 25% na linha branca”, endossa o vice-presidente da Romi Giordano Romi Junior. A área de autopeças conseguiu melhor resultado graças aos programas de exportação das montadoras e aumento na demanda de carros populares multicombustíveis, acredita ele. 
Romi Junior: taxa do dólar favorece as importações

“Nossa moeda está sobrevalorizada em mais de 30%, o que transforma todos os produtos de fabricação nacional artificialmente caros, e os importados artificialmente baratos, simplesmente pelo mecanismo da taxa do câmbio fica-se competitivo ou deixa-se de ser competitivo”, avalia.

As perspectivas para o ano são nada otimistas enquanto persistirem questões como essa do câmbio, a pesada carga tributária, os juros elevados, o alto custo de investimento sobretudo para os pequenos fabricantes e a falta de uma política industrial em caráter permanente, entre outros fatores. “Essas variáveis econômicas desestimulam qualquer iniciativa relacionada a investimento”, opina Romi.

Não bastassem tais agravantes, os asiáticos tiram proveito de vários pontos que somam a seu favor, como a moeda chinesa (iuan renmimbi) subvalorizada no mínimo 35% em relação ao dólar, baixíssimos custos de mão-de-obra, além de farto financiamento e incentivos diretos e indiretos oferecidos pelo governo chinês aos exportadores. “Tudo isso faz com que entrem máquinas da China a um valor médio de R$ 8,00 o quilo, enquanto o valor médio das demais máquinas produzidas no mundo está em R$ 33,00 o quilo”, pondera Pelizzari. “Isso tudo faz com que as máquinas asiáticas estejam, de forma preocupante, canibalizando o mercado brasileiro”, denuncia Pelizzari.

Ele ainda atenta para o fato de a maioria desses equipamentos apresentar características tecnológicas defasadas e de alto consumo energético por quilo de plástico transformado. Além disso, tais injetoras não atendem às normas de segurança exigidas no País (ABNT NBR 13536) para esses equipamentos e o suporte técnico pós-venda é de duvidosa eficiência.

Em conseqüência, parcela significativa do parque industrial brasileiro de transformação de plásticos se mantém tecnologicamente defasado e fora das especificações de segurança exigidas pelo Ministério do Trabalho para preservar os operadores de mutilações e acidentes fatais, alerta o presidente da Câmara Setorial.

Na opinião de Romi, a maioria dos compradores está se beneficiando da taxa do dólar, bastante atraente para as importações, para experimentar esses equipamentos made in China. “As máquinas asiáticas tinham participação irrisória até 2003. Cerca de 80% dessas máquinas existentes no mercado foram importadas nos últimos dois anos. Portanto, o mercado ainda está em fase de experimentação”, acredita. Mas só no ano passado, quase 60% do total de injetoras importadas teve origem asiática, nas contas de Romi. Segundo ele, o mercado absorveu cerca de 1,6 mil injetoras em 2004. Metade veio de fora do País, e só da Ásia foram 460.

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