Navegando em clima tempestuoso provocado pelas altas sucessivas nos preços do barril de petróleo, cotado acima dos 50 dólares, e com reflexos em toda cadeia produtiva do plástico, os polímeros de engenharia sinalizam boas condições de vencer a maré revolta sustentados pelo forte aquecimento da demanda mundial. O diagnóstico vale inclusive para o mercado brasileiro, abastecido na quase totalidade por produtos importados. A mesma indústria que amargou nos últimos anos perdas significativas nas margens de lucro e, portanto, encolheu sua capacidade de reinvestir em aumentos de produção, tem agora a chance de recuperação e de se expandir. O mercado de plásticos de engenharia fecha o ano marcado por dois contrapontos: o positivo, expresso em forte aquecimento da demanda, e o negativo, por conta da não menos forte pressão nos custos das matérias-primas indispensáveis à produção desses polímeros. O benzeno, necessário à polimerização das poliamidas, do policarbonato e do ABS, entre outras resinas, caracteriza bem o problema: “o benzeno teve seu preço elevado de US$ 450 a tonelada, em 2003, para atuais US$ 1.150 a tonelada, aumento de 156%”, informa Zoé Moncorvo, diretora superintendente da Pepasa Plásticos de Engenharia, de Santos-SP.
O gerente da Policarbonatos do Brasil Antonio Pedro M. Machado assina em baixo: “Como o mercado aqueceu para todas as resinas, os usuários do benzeno estão competindo pelo produto, que tem baixa disponibilidade mundial, causando altas desproporcionais”, comenta. A situação se agravou ainda com um incêndio em uma fábrica americana de benzeno, considera Eva Fernandez, diretora da Lati, tradicional produtora italiana de compostos, com subsidiária em São Paulo.
Ventos a favor – “Houve intensa movimentação positiva do mercado, fruto da forte demanda asiática”, testemunha Eva. Segundo ela, também o mercado brasileiro retomou antigos projetos envolvendo plásticos de alto desempenho (conhecidos como PADs), abandonados na crise de 2002, em razão dos altos custos envolvidos. Na avaliação de Ricardo Crisostomo, gerente de vendas da Ticona, de São Paulo-SP, a demanda mundial por resinas de engenharia superou as expectativas e planejamento. Aliado à necessidade das empresas em inovar e diferenciar seus produtos, o aumento no consumo criou condições propícias para impulsionar vários lançamentos e consolidar outros produtos nos mercados de plásticos de alto desempenho, opina ele. “Novas tecnologias, novos produtos, e maior necessidade em cumprir exigências internacionais de qualidade estão construindo um elo forte entre o mercado e os plásticos de engenharia e de alto desempenho. Aliadas ao crescimento da economia nacional e global, essas combinações sinalizam um crescimento sustentável para o nosso mercado”, diz Crisostomo. “O mercado dos plásticos de alto desempenho é o que apresenta maior crescimento no mercado brasileiro”, endossa o chefe de produto da área de polímero de alta performance da Degussa, de São Paulo, Fernando R. N. Jorge. Em consonância, o gerente regional América do Sul dos Polímeros Especiais da Solvay Química, de São Paulo, Alexandre M. Guimarães observa que o mercado nacional está buscando mais desempenho. “Temos notado forte interesse em converter para plástico, aplicações tradicionalmente em metal, especialmente no segmento automotivo”, comenta. A diretora da Pepasa faz coro: “O segmento de plásticos de engenharia, neste ano, teve grande expansão, acompanhando a tendência geral do mercado e o crescimento acentuado de alguns setores, como o automotivo”, declara Zoé. Além do aquecimento na economia doméstica, demandando maior volume de plástico pelo próprio crescimento das vendas internas, também o aumento nas exportações de produtos acabados contribuiu para incrementar as vendas dos polímeros. “Uma das alavancas do nosso crescimento está nas exportações de nossos clientes, muitos que vinham convivendo com a ociosidade em suas unidades produtivas, agora consomem volume maior de plásticos de engenharia graças às suas vendas para o exterior”, assevera César Gesteira, responsável pela área de marketing da Rhodia, de São Bernardo do Campo-SP. Além das exportações, também o incremento nas produções domésticas, como a produção recorde da indústria automotiva e aquecimento na linha branca, ajudou a impulsionar as vendas dos plásticos de engenharia da Rhodia acima dos dois dígitos, avalia Gesteira. Normas preocupam – O crescimento das exportações brasileiras é comprovado na maior procura por materiais em acordo com normativas vigentes no mercado europeu, atesta Eva. Segundo ela, os principais produtos requisitados na Lati procuram atender novas exigências globais em vários setores: na indústria de eletrodomésticos (plásticos com maior rigor nos quesitos de resistência ao calor e ao incêndio), no uso de aditivos retardantes à chama isentos de metais pesados e halogênio, e ainda na obrigatoriedade de aplicar plásticos dissipativos (capazes de evitar o acúmulo de cargas eletrostáticas na superfície do componente) em peças destinadas a ambientes industriais com alto risco de explosão.
“Nota-se a indústria nacional mais interessada em buscar alternativas para seu crescimento e desenvolvimento.” Para ele, o uso dos plásticos especiais associa-se ao desenvolvimento do País, por tratar-se de produtos de alto valor agregado, atrelados à capacidade do mercado em absorvê-los. Na opinião do especialista da Degussa, os PADs tendem a substituir outros materiais, os metais em particular. O segmento de maquinários pesados já segue nessa direção, exemplifica. Prova do engajamento do mercado brasileiro na corrente mundial de uso desses materiais nobres, a maioria dos fornecedores da área comemora incremento nas vendas, como a Degussa, que deve fechar o ano com alta entre 5% e 10% no mercado nacional, nas estimativas de Jorge.
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