IMPRESSORAS

 

Sobram máquinas complexas mas falta poder de compra

Ato custo ainda impede usuário nacional de se beneficiar das novidades, destinados às exportações

 Foto de Cuca Jorge  

Renata Pachione

Em pleno crescimento, os fabricantes de máquinas flexográficas esbanjam sofisticação. Empresas líderes mundiais, como a Comexi (Espanha), a Windmöller & Hölscher (Alemanha) e a Paper Converting Machine Company – PCMC (EUA) investem em modelos tops, como as máquinas sem engrenagem (gearless), elevando o nível tecnológico do setor. No entanto, ainda distantes do poder de compra do convertedor nacional, os modelos se ancoram nas exportações. Também aquecido, o mercado doméstico escora planos de expansão e investimentos do fabricante local. A Flexopower, de Diadema, SP, se prepara para produzir modelo sem engrenagem, enquanto a Feva – Máquinas Ferdinand Vaders, Cotia, SP, e Carnevalli, Guarulhos, SP, incrementam suas máquinas com periféricos capazes de reduzir, de forma efetiva, o tempo gasto com a troca de serviço.

Os negócios na Feva traduzem o movimento do setor. Até abril, a empresa registrava a comercialização, em média, de quatro máquinas, por mês. Em setembro, a esse índice se somou mais um modelo e, para outubro, há a previsão de atingir a média de seis impressoras vendidas, por mês. “O País está crescendo, o que leva os convertedores a comprar mais equipamentos”, esclarece o diretor comercial da Feva Fernando Celso Bueno. Apesar de se tratar de índice positivo, 80% dessas máquinas são convencionais. “Só 20% de nossas vendas atuais são referentes a equipamentos dotados de algum diferencial, ou seja, com maior tecnologia empregada”, comenta. Além desse volume, a Feva também responde pela produção mensal de uma flexográfica da marca norte-americana PCMC.  

Essa média estimula Bueno a projetar, para este ano, aumento em vendas de 8% a 10%, em relação a 2003.

 A PCMC do Brasil também está otimista. Apesar das vendas ainda voltarem-se, em sua totalidade, ao mercado externo, a empresa registra crescimento anual de 15%. 

Cuca Jorge
Bueno: Máquinas convencionais prevalecem

“Estamos indo mais rápido do que prevíamos”, comenta o diretor da PCMC do Brasil Alceu Bicalho Junior. A empresa aportou no País em 2001, quando passou a produzir em parceria com a Feva. Ao fabricante nacional coube a tarefa de fazer a parte mecânica e a montagem das flexográficas. 

Para Bicalho, a marca PCMC está em fase de maturação no Brasil e talvez por esse motivo ainda não tenha vendido nenhum modelo para a indústria nacional. “O mercado brasileiro passou a conhecer melhor as nossas máquinas, só no ano passado, quando participamos de feiras e fizemos um open house”, explica. Apesar dessa conta zerada, Bicalho está satisfeito com as exportações e prevê para breve a efetiva participação da empresa no mercado nacional. Segundo ele, a porta de entrada será um novo desenvolvimento de máquina, ainda em projeto. “Trata-se de uma produção economicamente mais viável para o brasileiro”, antecipa. A forte atuação da PCMC no Brasil exigiu de Bicalho dedicação total à empresa. No início, ele também respondia pela gerência de exportações da Feva. 
Saldo positivo também na Comexi. 

Só nos meses de julho e agosto, a fábrica vendeu duas máquinas, estimulando expectativas otimistas do diretor comercial e de marketing Jeferson Luiz Giampietro.  Ele prevê encerrar 2004 com oito máquinas vendidas, das quais 60% seriam para o mercado externo e 40%, interno. Em 2003, foram comercializadas quatro máquinas, sendo uma para o mercado doméstico.  Cuca Jorge
Giampietro comemora aquecimento do mercado

Em evolução - Esse aquecimento do mercado, sentido sobretudo no segundo semestre, escora as expectativas da Associação Brasileira Técnica de Flexografia (Abflexo). De acordo com o diretor Rui Mariano dos Santos, o setor irá superar sua média de crescimento anual de 10% a 12% e encerrar 2004 com faturamento 15% superior ao registrado no ano passado. Algumas empresas apresentam previsões mais conservadoras. Para o diretor da Flexopower Ruy Mendes Vita, o aumento das vendas não deve ultrapassar a taxa de 5%, em relação ao ano passado. Reinhard Heinrich Bosse, da Windmöller & Hölscher, endossa a estimativa. Na opinião dele, seria um exagero considerar índice na casa dos dois dígitos. “Acredito em taxas de 2% a 5% ao ano”, afirma. De acordo com o industrial alemão, além do tímido crescimento, o nível tecnológico do mercado flexográfico brasileiro também frustra. “Poucas empresas daqui apresentam qualidade e regime de trabalho similares ao do europeu”, justifica. E ele nem precisa de referência tão nobre. “Até a China tem fabricantes de impressão muito superiores do que há aqui, e a própria Argentina também tem equipamentos melhores do que o Brasil”, diagnostica. 

Comparações à parte, quando o foco se volta à demanda nacional, algumas distorções aparecem. A maior procura recai sobre as impressoras flexográficas produzidas no Brasil, ou seja, o convertedor nacional ainda não se rendeu às máquinas consideradas de altíssimo valor agregado, como os modelos sem engrenagem e de dez cores das marcas multinacionais. Por conta dessa característica, PCMC nem Windmöller emplacaram no País as versões de seus mais recentes lançamentos, destinando-os ao mercado internacional. “Essa tecnologia ainda assusta o brasileiro. Por isso, ninguém consegue vender modelos gearless por aqui”, opina Bosse. No entanto, nem por isso, o pessimismo acomete o setor. A confiança na abertura do mercado para essa tecnologia sustenta, inclusive, a entrada de empresas brasileiras nessa categoria. De acordo com Vita, a Flexopower, em parceria com indústria estrangeira, desenvolveu modelo sem engrenagem, a ser produzido na planta de Diadema. No entanto, mesmo apta a pôr o projeto em prática, por enquanto, este segue em compasso de espera, por conta da falta de demanda local.

Segundo expectativa dos profissionais da indústria flexográfica, a participação da tecnologia gearless no mercado brasileiro deve avançar, mas daqui a algum tempo. Assim como o sistema doctor blade seguiu etapas de maturação, as impressoras sem engrenagem também levarão um período para se estabelecerem. “Essa tecnologia ainda é cara, mas com o tempo estará mais acessível. É um incremento que veio para ficar”, aposta Vita. O diretor da Colorflex, de Bauru, SP, José Vieira Alves chega a estipular um prazo. Ele prevê a efetiva entrada dos modelos sem engrenagem na indústria nacional para daqui a cinco anos. “Por enquanto, temos poucas empresas prontas para absorver alta tecnologia. Modelos de dez cores, sem engrenagem, são máquinas dos sonhos para o empresário brasileiro”, justifica Vieira. 

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