MERCADO EXTERNO INCITA AS TRÊS FÁBRICAS NACIONAIS

Com muitos modelos antigos a espera de substituição, mas sem o crescimento do consumo de embalagens, vendas de máquinas de sopro andam de lado no mercado nacional

Márcia Azevedo

A vida no mercado de sopro brasileiro não anda fácil. As embalagens, principal filão para os fabricantes dessas máquinas, estão associadas a produtos de consumo, e como tal, dependentes da renda do brasileiro, em queda livre nos últimos anos. O volume do mercado brasileiro é baixo, em comparação a mercados do exterior, e as dificuldades provocaram o fechamento de produtores nacionais, com fábricas instaladas no País, e espantaram concorrentes estrangeiros sem muita disposição para brigar em um mercado acirrado e que muitas vezes está mais atento aos preços do que à tecnologia. 
Atualmente, apenas três empresas fabricam sopradoras convencionais no Brasil: a alemã Bekum, de São Paulo, e as brasileiras JAC e Pavan Zanetti, ambas instaladas em Americana-SP. Com a estagnação do mercado brasileiro, todas têm nas exportações a grande aliada para incrementar um faturamento que não pode há algum tempo depender apenas do mercado interno. Cuca Jorge
Zanetti; meta é exportar um quarto da produção

Provável líder em vendas (medida em unidades) do mercado, a Pavan Zanetti, de acordo com o gerente comercial Newton Zanetti, percebeu, a partir dos anos 90, a necessidade de incrementar a exportação para o mercado latino-americano e para países onde fosse possível estabelecer uma estrutura de atendimento técnico e comercial. Nesse período, a despeito do câmbio depreciado, muitas máquinas foram vendidas para a Argentina, mas a crise no final da década impôs forte abalo a esses números, e alternativas em novos mercados foram buscadas principalmente em feiras no exterior e no estabelecimento de representações locais, comerciais e técnicas. "A estratégia das feiras é muito importante para nós", diz Zanetti. Mesmo assim, e apesar das oscilações do mercado interno, o faturamento no Brasil também aumentou.

A meta de exportação, em média, é de 25% da produção. Atingiram 17% no ano passado e, nesse ano devem se aproximar ainda mais, atingindo cerca de 22%. "O câmbio está favorável. Um câmbio muito alto barateia o produto no exterior, mas encarece alguns componentes das máquinas que são importados", afirma o gerente. Além disso, a parte eletrônica das máquinas, embora produzida no Brasil, tem preço dolarizado. Hidráulica e pneumática também são balizadas pelo mercado externo. E, no País, há o agravante dos preços da matéria-prima plástica que também são afetados pelo dólar. E não há como reverter quedas bruscas no consumo interno com exportações. 

Os principais mercados de exportação estão na América Latina, em geral, mas a ênfase ainda está na Argentina. O México também é grande importador e tem aumentado as compras, segundo Zanetti, devido ao trabalho nas feiras e mais recentemente ao estabelecimento de um serviço técnico e comercial no país. "O mercado mexicano é muito diversificado, quase tanto como o brasileiro, com diversos tipos de compradores e máquinas, desde as mais modernas até as asiáticas. A Pavan está no meio termo: são máquinas com preço médio e qualidade boa, e produtividade também em nível muito bom", assegura Zanetti.

No mercado mexicano, é importante o setor de sucos de baixa concentração (refrescos), em frascos de volumes de 250 mL a 300 mL, particularmente importantes no país. Já no Brasil, ganham destaque em 2004 os produtos relacionados a agronegócios, como as embalagens de agroquímicos, um dos setores que está puxando o desempenho das máquinas de médio porte, para embalagens entre 5 L e 20 L. A água mineral, vedete de um passado recente, com crescimento bastante acelerado nos últimos anos (de até 20% ao ano), viu seu vigor diminuir, pois o mercado já está abastecido com as máquinas para essas aplicações. Os segmentos de higiene e limpeza também são importantes; o automotivo, em que as exigências de repetibilidade e capacidade técnica são grandes, é outro cliente fiel: atualmente muitas peças sopradas integram um automóvel, como dutos de ar quente e frio, e tanques de fluidos diversos.

Retomada
- Depois de um ano em que o Governo arrochou a sociedade para driblar o efeito Lula, 2004 pode ser considerado um ano de retomada moderada do crescimento. Zanetti testemunha, em 2004 (a partir de março), crescimento incomum, em relação a 2003, pela procura de máquinas. A carteira de pedidos da Pavan Zanetti voltou a ser preenchida, e os prazos estão razoavelmente longos, entre 90 e 120 dias. Mas o resultado será pouco maior que o de 2003, pois os três primeiros meses do ano, muito fracos, afetarão o desempenho global.

Entre as razões para a estagnação do mercado, várias são as possibilidades apontadas pelo gerente comercial da Pavan Zanetti. Antes do plano Real, o mercado brasileiro rondava entre 350 a 400 sopradoras por ano, mas o aumento da produtividade das máquinas duplicou e até triplicou, com menos máquinas necessárias para as mesmas produções. Além disso, os novos modelos estão mais acessíveis, com aumentos nos preços inferiores à produtividade e, ainda, o mercado caiu. Ainda há a necessidade de modernização do parque industrial brasileiro, mas não existem as condições que viabilizam esse investimento: crescimento do mercado e boas condições de financiamento a longo prazo, com juros compatíveis com o investimento produtivo. "Os empresários só investem quando são pressionados pelo mercado ou por algum cliente importante", explica Zanetti.

As máquinas de topo de linha da empresa são os equipamentos automáticos da família Bimatic, que operam por extrusão contínua, com uma ou duas estações de sopro superior e saída lateral, com modelos básicos para frascos pequenos, entre 100 mL e 200 mL, e a linha mais vendida no Brasil, até 3 L, denominada BMT 3.6 D. Embora tardiamente, assume Zanetti, a empresa também tem planos para o PET. Há projeto em andamento, com estimativa de um ano para entrar em prática, com apresentação ao mercado, talvez, na próxima edição da Brasilplast. A empresa faz sopradoras para grandes volumes de PP e PE, mas também de PVC e de alguns plásticos de engenharia. 

Uma das possíveis novidades tecnológicas no mercado brasileiro, as embalagens sopradas de três camadas para embalar leite, sofreram com a crise da Parmalat, principal vetor da substituição das tradicionais embalagens acartonadas (Tetrapak), e ainda não passam de uma promessa. 

Mas outra aposta deu resultado, o sopro de camadas para substituir resinas com pigmentos muitos caros. Uma camada externa, pigmentada, é soprada em conjunto com outra, interna e sem pigmento, barateando o custo do frasco significativamente em alguns casos. Outro estudo recente é o sopro de três camadas com camada interna de material reciclado, cujo consumo, crê Zanetti, deve aumentar.

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