TRANSFORMAÇÃO COMPRA POUCO MAS ESBANJA OTIMISMO

Expectativas de reversão nos negócios do setor sustentam expansões e lançamentos das petroquímicas

MARIA APARECIDA DE SINO RETO

A turbulência do  petróleo, com preços do barril quebrando recordes para além dos US$ 40,00, e o desempenho pífio das vendas de polietileno do primeiro trimestre de 2004 do maior produtor, ao empatar com as 164 mil toneladas de 2003, não foram suficientes para arrefecer o otimismo das previsões da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico) para 2005 e 2008. Confrontados com o 1,5 milhão de toneladas dessa resina consumida no ano passado, segundo os cálculos oficiais do Siresp (Sindicato das Resinas Sintéticas no Estado de São Paulo), a Abiplast prevê expansões de 46,66% e 86,66% para o consumo nacional de PE nos períodos considerados. Em valores absolutos referem-se a 2,2 milhões de toneladas e 2,8 milhões de toneladas a serem absorvidos nos referidos anos.

Os registros históricos e as expansões levadas a cabo pelos produtores de resinas confirmam as projeções alentadoras. Previsões do Siresp para este ano estimam uma oferta de polietilenos da ordem de 2,7 milhões de toneladas, com a entrada em operação da nova fábrica de 540 mil toneladas da Rio Polímeros, no Rio de Janeiro, prevista para dezembro. Redesenhado pelos processos de incorporações, aquisições e mudanças nas composições acionárias, hoje atuam no mercado sete produtores: Braskem, Dow, Ipiranga, Polietilenos União, Politeno, Solvay e Triunfo. Há dez anos, o número de fabricantes era quase o mesmo, mas a capacidade instalada ficava abaixo de 1,5 milhão de toneladas.

A evolução tecnológica não ficou atrás. Enquanto os polietilenos de baixa densidade lineares demandaram quinze anos até encontrar um fabricante local disposto a investir em sua produção, as resinas metalocênicas, lançadas em âmbito mundial há oito anos, contam a partir deste ano não com um, mas com dois produtores brasileiros, caso a Rio Polímeros cumpra o prazo previsto para a entrada em operação. A Braskem foi a empresa pioneira a ingressar na nova tecnologia, iniciando a atividade no primeiro trimestre deste ano.

Prós e contras - As resinas metalocênicas, assim chamadas por sua obtenção com base nos catalisadores metalocênicos (ou de sítio único), conquistaram o público mundial graças às propriedades diferenciadas em relação à poliolefina convencional. Os sistemas catalisadores metalocênicos são complexos de metais, como zircônio e titânio, com o ânion ciclopentadienilo (Cp). Ficaram conhecidos como catalisadores de sítio único porque todos os seus sítios reativos são equivalentes em reatividade. Por essa razão, o polímero apresenta menores variações em sua estrutura e uma distribuição de peso molecular mais estreita, com melhor definição das propriedades físicas. Assim, se os polietilenos lineares fazem tanto sucesso graças à excelente soldagem, resistência ao rasgo e à perfuração, os tipos metalocênicos têm tudo isso em proporções superiores.

Esses catalisadores aprimoram propriedades físicas das resinas, possibilitando a produção de embalagens mais resistentes ao impacto e à perfuração, com maior brilho e transparência, e ainda asseguram vantagens na polimerização e maior produtividade. O custo dessas resinas, porém, ainda é alto, da ordem de 50% acima do polietileno de baixa densidade linear convencional. Por isso, o principal foco de aplicações é o segmento de embalagens de maior valor agregado.

Na opinião do gerente de produtos e serviços técnicos para polietilenos da Braskem Alessandro Bernardi, a redução de perdas e a elevada qualidade da embalagem, permitindo envases mais rápidos e melhores condições herméticas, compensam o diferencial de preço. Segundo ele, a resina metalocênica assegura ganhos expressivos em soldabilidade. "Evita perdas durante manuseio, transporte e armazenagem dos produtos acabados", informa. Fernando de Castro
Bernardi aposta na qualidade para compensar preço maior

O novo polímero sai dos reatores instalados no pólo de Camaçari-BA, com tecnologia licenciada da americana Univation Technologies. O desembolso com pesquisas, desenvolvimento e licenciamento da tecnologia alcança US$ 10 milhões. Para Bernardi, a Univation de PEBDL de base metalocênica é uma das melhores disponíveis no mundo. Além disso, a Braskem já utiliza a tecnologia Unipol para PEBDL, facilitando a adaptação ao processo produtivo. "Não impacta em perdas e otimiza nossa linha de produtos", garante.

O contrato assinado com a Univation limita a 100 mil toneladas a produção anual com a nova tecnologia. Portanto, a unidade baiana, com o dobro dessa capacidade instalada de PELBD, terá metade disponível para o novo produto, ofertado, a princípio, em três grades: Flexus 9210, 9200 e 7200. Em comum, os três oferecem excelente resistência ao impacto e à perfuração.

Copolímeros de base hexeno produzidos com catalisador metalocênico, os grades 9200 e 9210 apresentam desempenho de selagem diferenciado em relação aos polietilenos lineares convencionais. Essas propriedades os tornam opções versáteis, tanto para filmes mono como para os de multicamadas por extrusão tubular. A diferença básica entre as duas variedades consiste na aditivação. Os novos produtos beneficiam em particular os segmentos de filmes técnicos, mono e coextrudados, para empacotamento automático e laminação. Já o grade 7200 consiste num PEBDL base hexeno de alto desempenho indicado para processo de extrusão por matriz plana (casting). Por suas propriedades diferenciadas de estiramento, destina-se em especial à produção de filmes esticáveis (stretch). Para Bernardi, essa resina produz filmes de elevada resistência mecânica, permitindo pré-estiros superiores a 300% durante o processo de paletização. "A ampliação de grades será feita conforme as oportunidades forem sendo desenvolvidas no mercado, realizando ajustes de formulações e de propriedades de controle, a fim de atender ao aumento das exigências das embalagens", informa.

Mesmo com mercado ainda incipiente para essas especialidades, a Braskem decidiu apostar em sua produção baseada na estratégia de oferecer à indústria todos os tipos de polietilenos disponíveis, explica Bernardi. "O mercado brasileiro tem crescido acentuadamente no segmento de filmes de alta performance devido ao aumento da exigência do envasador final", justifica. Segundo ele, o potencial de crescimento é grande: "Até o momento de um possível segundo produtor local iniciar a produção, o mercado terá expandido suficientemente", acredita.

Até o final deste ano, a Braskem espera atingir vendas da ordem de US$ 30 milhões com o novo produto, inclusas nessa receita as primeiras exportações. Com demanda atual entre 35 mil e 40 mil toneladas anuais, as resinas metalocênicas representam cerca de 10% do mercado brasileiro de polietileno linear. A Braskem prevê comercializar cerca de 20 mil a 25 mil toneladas do produto em 2004 e, nos anos seguintes, suprir 70% do mercado em volume.

     

 

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