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PETROQUÍMICA DO BRASIL PODE FICAR SEM INSUMOS

Embora o consumo aparente de resinas termoplásticas (exceto PET) tenha recuado 3,6% no Brasil em 2003, se o País despertar da letargia econômica e crescer de modo sustentável nos próximos cinco anos poderá haver falta de termoplásticos no mercado interno. E se, para evitar o desabastecimento, novas capacidades forem instaladas, a busca por matérias-primas será árdua, caso se confirmem as projeções de Evandro Soares Filho, consultor do portal de informações analíticas Petronews. No encontro do dia 30 de março, na sede da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (Abief), o consultor apresentou perspectivas de curto e médio prazo para as matérias-primas da cadeia produtiva de plásticos (resinas termoplásticas, petroquímicos básicos e nafta e gás), mas o panorama exposto não foi dos mais acalentadores.  

 

Resinas – Movidos pelo alto preço do petróleo, os preços das resinas termoplásticas estão em ascensão, tanto no mercado interno quanto no externo, embora sem escassez de produtos. “Os aumentos de preços têm sido mensais. Nos últimos três meses a alta foi de 35%”, disse Soares Filho. O crescimento das margens, no entanto, ainda não as equipara às praticadas em abril e maio do ano passado. Não obstante, alguns consumidores finais da cadeia de produção de embalagens plásticas – grandes redes supermercadistas – estão substituindo as embalagens por artefatos feitos de outros materiais para driblar os repasses.

Mas se, ao menos aparentemente, os supermercados não estão aceitando repasses na ponta, é a transformação quem está absorvendo os aumentos de custos. Muito pulverizados e com pequena escala de produção, os clientes dos produtores de termoplásticos – os transformadores – têm baixo poder de fogo nas negociações de preços e, por falta de estrutura, não costumam importar seus insumos.  Cuca Jorge
Soares Filho cobra definição da Petrobras

A exemplo da iniciativa de alguns consumidores de fenol, que no passado integraram um pool para importar o produto e driblar o então domínio da Rhodia nesse mercado, a criação de grupos de importação poderia ser uma saída para os pequenos transformadores, mas Soares Filho não soube avaliar a viabilidade da alternativa.

Os preços praticados no País têm como referência o preço internacional internado (e assim prosseguirão, já que a nafta também tem cotação balizada pelo mercado exterior), e ambos eram muito parecidos até meados de fevereiro deste ano, quando começaram a se descolar. Mesmo assim, os preços internacionais ainda estão altos, e favorecem as exportações brasileiras.

Na mesma época, segundo o consultor, intensificou-se a procura por resinas importadas. “Considero saudável o movimento em direção ao produto importado. É necessário importar uma pequena fração do que se consome, se manter atualizado e dispor de um fornecedor quando é preciso”, avaliou Soares Filho.

Com base em estimativas da elasticidade de diversas resinas termoplásticas (relação entre o crescimento de seu consumo aparente e o crescimento do PIB), e supondo três diferentes cenários para o crescimento da economia brasileira nos próximos anos (crescimentos anuais de 2%, 3,5% e 5%), o consultor projetou o consumo aparente brasileiro de resinas termoplásticas em 2006 e 2010 (quadro 1), e comparou-o com as previsões de aumento de capacidades instaladas no País (quadro 2).

O cruzamento desses dados (quadro 3) mostra que se o País crescer a taxas anuais de 3,5% e utilizar toda sua capacidade, instalada e a instalar, será necessário importar 60 mil t de polipropileno em 2006, e 570 mil em 2010, de vido à oferta deficiente. Nas outras commodities termoplásticas a situação é confortável e só inspiraria cuidados após 2010, mas embora os números utilizados na projeção sejam discutíveis, conforme assume o próprio Soares Filho, é difícil imaginar a fonte de matérias-primas para novas fábricas de resinas. “O fornecimento de matérias-primas é da Petrobras e os rumos da empresa podem ser definidos por motivos políticos, sem respeito a considerações técnicas. Não se sabe quando ou como poderão ser fornecidas as matérias-primas”, disse, lembrando que há alguma disponibilidade de propileno em refinarias da Petrobras, mas é preciso equacionar o fornecimento.

Básicos – Na venda de petroquímicos básicos, o cenário atual também é de recuperação das margens. Conforme expôs Soares Filho, é fato histórico da petroquímica mundial a correlação positiva entre preços de matérias-primas e o resultado, isto é, os preços de produtos da cadeia sempre crescem com maior velocidade que os preços dos insumos primários.

O preço que as centrais petroquímicas pagam pela nafta, calculado com base na cotação ARA (da região Amsterdã-Roterdã-Antuérpia), aliás, é uma lamúria eterna do segmento. Outro problema é a qualidade do petróleo da bacia de Campos-RJ, que fornece nafta pesada e inadequada aos processos das centrais petroquímicas de Triunfo-RS e Camaçari-BA – a Copesul e a antiga Copene, hoje parte da Braskem. A central de São Paulo, a PQU, ao contrário, não foi projetada para consumir nafta leve, mas mesmo ela tem dificuldade para processar o insumo. “Com a matéria-prima de Campos, são necessárias quatro toneladas de nafta para a produção de uma tonelada de etileno, e há produção de vários co-produtos com valor semelhante ou inferior ao da nafta. A venda desses co-produtos, pelo menos ao mesmo custo da nafta, daria alguma vantagem marginal nos custos variáveis de produção do etileno”, afirmou o consultor.

Segundo ele, as centrais buscam algumas alternativas. A Braskem estuda processar gás de condensado e a Copesul já consumiu nafta importada. Mas, no caso da PQU, não há escolha viável: a empresa não tem flexibilidade logística e só pode processar o que recebe por dutos ligados às refinarias da Petrobras. Sem definição quanto ao fornecimento de matérias-primas para seu projeto de ampliação de mais de dez anos, a central está engessada e sua limitação na capacidade produtiva pode prejudicar a Polietilenos União, instalada no pólo de Capuava.

A pressão por preços mais baixos e a busca por alternativas à nafta leva à discussão da possibilidade de uma petroquímica brasileira a partir de gás natural. Mas o modelo não serve para o Brasil, na opinião de Soares Filho. “Tecnicamente, a melhor opção para a produção de petroquímicos básicos é a nafta. O Brasil não tem gás suficiente para a petroquímica e o gás boliviano é pobre em etano, o precursor do etileno. É um gás ideal para o aquecimento, não para a petroquímica”, disse. Segundo ele, países com petroquímica baseada em gás possuem reservas de 10 a 20 trilhões de metros cúbicos, muito maiores que a disponibilidade no Brasil. A importação de nafta também não seria atrativa: “Seria muito difícil competir com projetos que há na Venezuela e em Trinidad e Tobago, por exemplo. A opção seria importar termoplásticos ou produtos acabados”, previu.

Soares Filho também aposta na volta da petroleira brasileira à atividade petroquímica, do que dependem a reestruturação do setor e as definições necessárias para a construção de novas refinarias e novas fábricas de termoplásticos. “A Petrobras deve voltar. Empresas congêneres do mundo inteiro estão voltando, principalmente as estatais”, completou.

M.A.

 

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