BORRACHA NEGÓCIO DA CHINA

Salvos no passado pelas vendas ao mercado externo,os fabricantes investem em novos grades e perseguem a fim de ampliar a atração internacional.

Rose de Moraes

De olho nas oportunidades emergentes no mercado externo, os fabricantes de elastômeros programam investimentos e desenvolvem novas borrachas e compostos para vulcanizção. Com isso, aceleram a produtividade e conseguem planejar a produção de acordo com suas capacidades instaladas, tornando mais rentáveis seus negócios nos próximos anos.

Em decorrência das exportações de pneumáticos, que compensaram a retração econômica observada no País no último ano, a demanda de borrachas sintéticas de estireno-butadieno (SBR) e polibutadieno (BR) alcançaram 275 mil toneladas em 2003, com crescimento de 6% na comparação com 2002.

A Petroflex, maior produtora de borrachas sintéticas da América Latina, com capacidade instalada de 380 mil toneladas, comercializou 342 mil toneladas em 2003, registrando recorde de vendas, desempenho em grande parte atribuído às exportações, incrementadas em 20% em relação a 2002, e que encerraram o ano em 118 mil toneladas.

O balanço positivo alcançado pela companhia estimulou a prospecção de novos negócios no exterior. Em junho próximo, a empresa deve finalizar projeto avaliado em US$ 8,5 milhões, para expandir a produção de elastômeros em solução na unidade do Cabo-PE, onde já fabrica borrachas de polibutadieno (BR), copolímeros de butadieno e estireno (SSBR), muito usados em calçados e pavimentação asfáltica, além de elastômeros termoplásticos (TR) do tipo estireno-butadieno-estireno (SBS). A principal novidade da companhia para este ano é a produção de borrachas termoplásticas do tipo SIS, constituídas de estireno-isopreno-estireno.

Ao incrementar as exportações de borrachas nitrílicas para a Ásia, sobretudo a China, que consome um terço do total das suas exportações, a Nitriflex, hoje com capacidade instalada para 30 mil toneladas/ano, já alcança percentuais de comercialização no exterior da ordem de 60% do total produzido pela empresa no País.

“A demanda por borrachas nitrílicas, em torno de 8 mil toneladas/ano, está estável e, por isso, uma das nossas grandes estratégias é exportar, a forma mais viável de combater a inércia do mercado interno”, afirmou Antonio Carlos Spalletta, gerente comercial da Nitriflex.

Especialidades em alta A continuar nesse ritmo, as exportações das borrachas brasileiras deverão gerar superávit para a balança comercial, conquistando reconhecimento internacional não só em commodities, como borrachas de estireno-butadieno e butadieno, de alto consumo na produção de pneumáticos, mas também no campo das especialidades e borrachas de mais alto desempenho, como é o caso das SBR para a produção de gomas de mascar, nitrílicas, termoplásticas do tipo SIS, poliacrílicas e de novos desenvolvimentos em EPDM, borrachas, enfim, com grande potencial de demanda nos mercados norte-americano, europeu e asiático.

“O Brasil despertou para as exportações e percebeu as grandes possibilidades existentes no mercado externo. Por isso, além dos nossos representantes, instalamos em 2003 duas subsidiárias na Europa e Ásia, acelerando nosso processo de internacionalização”, afirmou Wanderlei Passarella, diretor comercial da Petroflex.

A primeira subsidiária, inaugurada em Rotterdã, na Holanda, em agosto do ano passado, gerou contratos de fornecimento de borrachas termoplásticas para a Ucrânia, e para a Espanha, envolvendo encomendas de polibutadieno líquido hidroxilado (PBLH). A segunda, instalada em dezembro em Hong-Kong, na China, negocia parcerias com produtores de pneus, interessados em se instalar no Brasil.

“Nossa meta é expandir cada vez mais a internacionalização das borrachas brasileiras e diversificar nossa produção, tendo como paradigma o mercado externo”, disse Passarela. “No futuro, pretendemos instalar novas subsidiárias para que atuem, a exemplo destas, como escritórios de gestão de mercados e distribuidores.”

Borrachas em solução Na unidade do Cabo–PE, a unidade multipropósito da Petroflex, única a produzir em toda a América Latina o elastômero BR alto cis, utilizado na fabricação dos pneus conhecidos como “ecológicos”, a expansão prevista irá gerar 35 mil toneladas/ano adicionais à produção atual de 90 mil toneladas/ano, elevando a capacidade instalada para 125 mil toneladas/ano. “As vendas dos elastômeros produzidos na unidade do Cabo estão totalmente garantidas até porque as novas tecnologias de produção demandam cada vez mais borrachas em solução”, garantiu Passarela. Cuca Jorge
Passarella: borracha em solução tendem a crescer

Elastômeros em solução conferem à companhia altos percentuais de participação em vários mercados, a exemplo do BR-GP. Lançado há apenas quatro anos, o produto propicia participação de 80% no mercado nacional e apresenta demanda crescente junto aos grandes produtores globais de poliestireno alto impacto, que o utilizam para modificar estes polímeros.

Ao avaliar os resultados obtidos em 2003, o diretor da Petroflex destaca o forte desempenho nos segmentos de pneus e bandas, favorecidos pelas exportações, em particular para o Japão e Índia.  

 “O Brasil está se firmando como o segundo maior produtor mundial de bandas de rodagem, atrás apenas dos Estados Unidos.” Segundo ele, a indústria de pneus está muito competitiva nas exportações, destinando entre 30% a 35% do total produzido para o mercado externo. Animada com esse cenário, a Continental pretende instalar sua primeira fábrica no Brasil, em Camaçari-BA. Também a Pirelli prevê expandir sua capacidade, além de produtores asiáticos que planejam instalar fábrica no País, revelou o diretor.

Nem só os pneus se saíram bem em 2003. Também o segmento de calçados teve suas vendas aquecidas no mercado externo e interno, este último favorecido pelas vendas de final de ano.

Já a área de artefatos e autopeças registrou desempenho aquém do esperado devido a pressões pela redução de custos, com impactos negativos sobre as margens, segundo avaliações da Petroflex. Nos adesivos, porém, o polibutadieno líquido hidroxilado (PBLH) encontrou brechas para avançar em aplicações de selantes e adesivos automotivos.

Também a linha de estireno butadieno de grau alimentício, destinada à fabricação de gomas de mascar, apresentou resultados satisfatórios, ao lado das borrachas de estireno-butadieno-estireno, empregadas para modificar asfalto, que cresceram graças ao bom desempenho de um novo canal de distribuição da empresa nos Estados Unidos.

Entre os mais importantes lançamentos de 2003, a  empresa destaca as borrachas poliacrílicas, produzidas em Triunfo–RS. Devido à elevada resistência a baixas e altas temperaturas, essas borrachas viabilizam a produção de peças técnicas e artefatos de alto desempenho para motores. Podem ser submetidas a condições agressivas de uso, sob temperaturas desde –15°C até 200°C.

Produzidas a partir da polimerização em emulsão de monômeros acrílicos, as poliacrílicas são empregadas em retentores, gaxetas, juntas, o-rings, selos, revestimentos e mangueiras, artefatos e componentes para contato com óleos e solventes orgânicos.

Látices de NBR Embora atue há mais de cinco anos na produção de borrachas nitrílicas (NBR), só recentemente a Petroflex começou a fabricar látices carboxilados de NBR (copolímeros de acrilonitrila-butadieno-ácido carboxílico, obtidos por polimerização em emulsão) e está lançando agora o primeiro produto deles derivado.

Trata-se do Petrolátex NX 43. Livre de proteínas, isenta os produtos de odor. Constitui alternativa vantajosa aos látices de borracha natural, por reduzir o risco de aparecimento de reações alérgicas nos usuários, como luvas. Por ter espectro de aplicações bastante amplo, pode ser empregado na fabricação de artigos para imersão, como luvas resistentes a solventes, graxas e combustíveis, bem como luvas de uso clínico e doméstico. Ainda pode ser usado em aglomerados para celulose e amianto, formando juntas de vedação, ou impregnar tapetes para torna-los resistentes a derivados de petróleo, entre outros.

A prospecção de novos negócios continua. Parceria firmada com grande produtor mundial de palmilhas impulsionou o desenvolvimento na unidade de Duque de Caxias–RJ de um novo látex sintético mais reforçado, para emprego no setor de calçados. Em Triunfo–RS, um dos últimos lançamentos é a Hot SBR, desenvolvida para aplicações em adesivos e gomas de mascar com certificação Kosher.  

“A maior parte dos lançamentos deverá seguir para o mercado externo, consolidando-nos cada vez mais como uma companhia global de elastômeros, com portfólio diversificado de produtos. Além disso, nossos atuais investimentos são feitos principalmente para incrementar as vendas externas de produtos com maior valor agregado e oferecer apoio e suporte técnico às indústrias, envolvendo atividades de assistência técnica e colaboração na formulação de compostos”, afirmou Passarella.  

 

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