FEIRA RECUPERA ESPAÇO COM A RETOMADA DA INDÚSTRIA DO PLÁSTICO NA ARGENTINA

Mostra reuniu cerca de 250 expositores, com presença expressiva de brasileiros na ala estrangeira, e atraiu público superior ao dobro da última edição em 2002, sinalizando aquecimento e perspectivas de bons negócios aos participantes

Textos e fotos de Renata Pachione  

A  10ª Exposição Internacional do Plástico – Argenplás, realizada de 22 a 26 de março, em Buenos Aires, reproduziu no Prédio de La Rural o contexto político e econômico do país. Considerada um dos principais eventos do setor, a feira simbolizou a retomada do crescimento da indústria plástica.  Divulgação

Apesar dos resquícios da crise vivida há dois anos, a feira reuniu, segundo estimativa da Câmara Argentina da Indústria Plástica (Caip), órgão responsável pela organização, mais de 40 mil visitantes e mostrou a confiança na renovação do setor. O reflexo da retração econômica do país ficou evidente na edição de 2002. Em números se traduziu no registro de pouco mais de 15 mil visitantes e na baixa de muitos expositores. No entanto, no ano seguinte, a Argentina tomou fôlego e o setor plástico cresceu 9% em relação ao ano anterior.

Esse cenário teve efeito direto nesta décima edição. Apesar do avanço, a Argenplás 2004 não alcançou os índices do passado, quando chegou a somar até 545 expositores, feito de 2000. Neste ano a feira esteve enxuta, contou com 252 expositores, dos quais 167 eram nacionais e 85 estrangeiros. Há quatro anos, a Argenplás ocupava 30 mil m², caindo a seguir até a marca atual dos 13,1 mil m². Mas nem por isso o clima era de derrota. Pelo contrário, a euforia suplantou as dificuldades e estabeleceu um novo começo para a indústria plástica, tornando 2004 o ano da virada do setor. Os números da Argenplás são modestos, se comparados a feiras similares. Apesar disso, os negócios não sofreram impactos negativos. De forma geral, a avaliação final dos industriais foi positiva. Todos reconheceram as qualidades do evento e demonstraram confiança no reaquecimento do mercado. Sobraram elogios quanto ao amadurecimento da feira. Para muitos, a sua realização, em certa medida, sinalizou a vitória da indústria argentina, frente aos percalços da economia.

No ritmo das máquinas - Entre os expositores nacionais, 55,9% representaram o segmento de máquinas, equipamentos, moldes e acessórios, sendo 17,5% apenas fabricantes de matérias-primas e insumos. As máquinas funcionando transportavam para a feira o novo estado de ânimo do industrial argentino. Prova da crença no potencial do setor, os fabricantes, ao contrário do que ocorreu no ano passado, investiram na exposição de modelos de grande porte. O destaque ficou por conta das marcas brasileiras Carnevalli e Rulli Standard, as duas mais robustas da feira. Muitos olhares também se voltaram para a injetora da canadense Husky e para a expressiva quantidade de máquinas asiáticas. Uma das ausências muito comentada nos corredores se deu quanto aos produtos transformados. Eram apenas 12,7% da feira, sendo superados por representantes da área de serviços, como entidades e editoras especializadas, responsável por 13,9% dos estandes. Esse desfalque, em certa medida, compensou-se com a presença maciça das petroquímicas.

O Brasil se destacou entre os estrangeiros. Ao todo 28 empresas nacionais marcaram presença, entre as italianas (19), norte-americanas (14) e alemães (8). Também participaram, porém em menor escala, indústrias do México, Uruguai, Holanda, Taiwan, Colômbia e Austrália. Apesar do visível encolhimento da feira ao longo dos anos, a participação brasileira sempre se manteve expressiva. Se em 1990, eram apenas cinco expositores, doze anos depois, já somavam 39. Em todas as versões, em número de estandes, o Brasil só ficou atrás da Argentina. Prova da boa relação entre os dois países se evidencia nos índices referentes ao comércio exterior. Independente do momento político, a indústria argentina se manteve aberta ao mercado internacional, sobretudo o brasileiro. Com claras afinidades, o País manteve estável sua relação com a Argentina, liderando tanto os índices de exportações como os de importações de produtos plásticos, respondendo por 26,0% e 30,6%, respectivamente.

PE domina - Um mercado essencialmente de commodity. Assim é a indústria termoplástica argentina. Segundo dados da Caip, os polietilenos (PE) lideram o ranking das resinas, com 44,5% do consumo total. Em seguida, vem o polipropileno (PP), responsável por 21,5% do mercado. O polietileno tereftalato (PET) e o policloretro de vinila (PVC) estão logo atrás, com 14% e 11,3%, respectivamente. O poliestireno (PS) representa o menor consumo, pois responde por 5,4% do total. Outras matérias-primas somam 3,3%. Se depender da maciça presença das petroquímicas na Argenplás, no entanto, a oferta de termoplásticos só tende a crescer. A Polietilenos União, empresa brasileira do Grupo Unipar, foi até Buenos Aires com o objetivo de fortalecer sua presença no país, anunciando a expansão da sua planta integrada ao pólo petroquímico paulista de Santo André-SP. De acordo com o seu responsável pelas vendas e exportações Raul Carlos Almeida, a participação na feira, pela segunda vez consecutiva, representa as intenções da empresa de estabelecer uma política comercial regular na região. “A Argentina não é simplesmente um país de desova de excedentes”, afirmou. Reconhecido como o mercado mais importante do Cone Sul, o argentino responde por até 15% das exportações da companhia.

Para Almeida, enquanto o Brasil demanda 1,5 milhão t de polietileno, a Argentina requer 450 mil t e o Chile, 250 mil t. “A gente está falando de mais de dois milhões de toneladas só nestes países”, exclamou. Na Argentina, onde a empresa conta com a distribuição de uma das maiores companhias da região, a Altaplástica, não há barreira tarifária, tornando o termoplástico brasileiro mais competitivo.  
Oliveira: nova resina beneficia também o mercado argentino

Por conta da importância desse mercado para os negócios do grupo, o projeto de aumento de capacidade produtiva da Polietilenos União também abarcou a indústria argentina. “A expansão prevista para o primeiro semestre de 2007 vai atender todo o Cone Sul”, ressaltou Almeida. A unidade funcionará no próprio site da empresa, em São Paulo, onde são produzidas por ano 130 mil t de polietileno de baixa densidade (PEBD) e de copolímero de etileno-acetato de vinila (EVA), na proporção de 90% e 10%, respectivamente. A nova fábrica incrementará a produção em 200 mil toneladas de resina/ano. Para Almeida, o mercado de polietileno no Cone Sul avança duas vezes e meia mais que o PIB (Produto Interno Bruto), justificando a necessidade de aumento na oferta do termoplástico. “Pude perceber, por meio dos contatos realizados aqui, o novo vigor do transformador, agora ansioso para investir”, avaliou. De acordo com ele, a feira apresentou fortes indícios de que a modernização da indústria, freada em 2002, será reativada no curto prazo.

“A Argenplás refletiu o estado de ânimo da Argentina”. Com esse comentário, o diretor comercial da Politeno Henrique Lewi fundamentou a constatação de que a indústria no país está em franca expansão. Conforme observou, a demanda por resinas específicas como EVA e por grades voltados para moldagem por injeção e rotomoldagem aumentou, demonstrando o avanço do setor plástico na região. Confiante no renascimento da indústria, a Politeno ocupou estande de 152 m² onde, além de apresentar as seis famílias de produtos de seu portfólio, ministrou palestras técnicas, a fim de promover os grades especiais. Alguns destaques ficaram por conta de resinas como a IH-57, desenvolvida para atender o mercado de tampas para bebidas carbonatadas e produtos agrícolas, em substituição às de PP, com a vantagem de eliminar o linear interno. A empresa também ressaltou a resina IJ 33 D, indicada para a injeção de tampas com lacre e tampas para embalagens de alimentos, utilidades domésticas, recipientes e peças de uso em geral. Tendo em vista a grande procura por famílias de EVA, a Politeno também divulgou a resina 2017 IN, recomendada para compostos expansíveis da indústria de calçados, brinquedos e brindes, produzidos por injeção, e também misturas com PEBD para a produção de placas expandidas e moldadas por injeção.

Além da promoção de seu portfólio de resinas, a empresa também pôs em prática a sua visão do mercado argentino. Para Lewi, o país tem de ser encarado como doméstico. Daí a necessidade de fortalecer os vínculos na região. Na avaliação do diretor, a Argenplás evidenciou essa proximidade entre os dois mercados. “A indústria argentina já é considerada uma extensão da brasileira”, apontou. Mais da metade do volume exportado pela Politeno destina-se a essa região. O mercado argentino, em especial, consome cerca de 80% do total. A distribuição local da marca Politeno fica a cargo de importantes companhias argentinas, como a  Poliamerican, a Poliresin e Voloschin, além de contar com representação da I.T.C. Construída no Pólo Petroquímico de Camaçari-BA, a Politeno é uma empresa petroquímica de segunda geração controlada pelos acionistas SPQ (Grupo Suzano), Copene Participações (Grupo Braskem), Sumitomo Chemical e Itochu Corporation. A empresa possui duas unidades e capacidade produtiva de até 360 mil toneladas de resinas por ano.

Com centro de distribuição em Avellaneda, Buenos Aires, a Poliresin conta com o respaldo de outras importantes empresas brasileiras. Além da Politeno, o grupo possui em seu portfólio nomes como Ipiranga Petroquímica e Petrobrás. Na opinião da Laura Doti, responsável pelas vendas da Poliresin, o transformador argentino reconhece a resina brasileira como um referencial, por isso, a fácil aceitação. Ao todo a Poliresin distribui cerca de 2 mil t de resinas, das quais 85% são do tipo commodity e 15%, especialidades. O dado é animador, mas nem sempre foi assim. Em 2002, houve uma redução do consumo de termoplásticos da Poliresin para metade desse volume.

Para Laura, o cenário atual é outro, a ponto de estimular a empresa a pensar em aumentar sua rede de distribuição. Sem revelar detalhes, confessa interesse em estabelecer contato com outras petroquímicas brasileiras. A relação entre os dois mercados está tão estreita que Laura também antecipou os planos da companhia de instalar, no futuro, um centro de distribuição no Brasil.

Com estande localizado na entrada principal da feira, o grupo recebeu muitos visitantes estrangeiros, sobretudo, brasileiros e chilenos. Eles puderam conhecer também os produtos de outras empresas representadas pela Poliresin, como a Eastman, Iaja, Petroquímica Cuyo e Cromex Brancolor.  
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Em sintonia A Braskem, de São Paulo, mostrou o alinhamento entre a Argentina e o Brasil. Confiante na revitalização da indústria argentina, a empresa lançou na Argenplás as linhas Flexus e Symbios, poucos dias após a apresentação ao mercado nacional. Esse tratamento igualitário traduz o novo posicionamento da companhia. A Braskem planeja, no médio prazo, consolidar-se na América Latina, reconhecendo a região como mercado doméstico. Para o responsável pela área de produtos e serviços da Braskem Marcos Augusto Oliveira, as fronteiras não impõem limites ao grupo. Ele não descarta inclusive a possibilidade da empresa construir fábrica fora do Brasil. “Nada está definido, mas pode acontecer”, instigou. Nem mesmo os percalços vividos no passado enfraquecem a confiança do grupo no país. Para Oliveira, em função dos problemas políticos e econômicos, a indústria argentina retrocedeu cinco anos, mas vem tomando fôlego e em 2003 já recuperou sua produção na ordem de 20%.

Responsável pelo abastecimento de cerca de 20% de todo o mercado de polietilenos na Argentina, a Braskem conta com a parceria da Altaplástica, principal fornecedora da marca no país. Por conta dessa aliança entre os dois mercados, a participação da companhia na feira também teve um caráter institucional. Na Argenplás passada, a atual constituição da Braskem havia acabado de se configurar no cenário petroquímico. A marca, na época, tinha apenas três meses de existência. Por isso, o grupo aproveitou a visibilidade da edição atual para fortalecer seu nome na região.

Por conta também desse respeito ao mercado argentino, a companhia fez questão de apresentar a linha de resinas metalocênicas Flexus, lançada no Brasil poucos dias antes da realização da feira.

Para Oliveira, além dos benefícios inerentes ao produto, trata-se da primeira categoria do gênero a contar com produção na América Latina, daí sua importância também para o mercado argentino. O principal concorrente da Flexus vem dos Estados Unidos, trazido pela Dow Chemical. “Somos a opção mais próxima”, destacou.  
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A linha procura atender a necessidade da indústria de embalagens por produtos de alta resistência mecânica. Apresentada como o primeiro polietileno base metaloceno produzido no Brasil, a linha Flexus foi desenvolvida para o segmento de filmes especiais. Uma das principais características do produto refere-se à possibilidade de produção de embalagens mais resistentes ao impacto e à perfuração, com maior brilho e transparência. Até o final do ano, a Braskem estima vendas da ordem de 30 milhões de dólares do produto, incluindo-se nesta receita as primeiras exportações brasileiras desta família.

A Braskem também lançou a linha Symbios, família de selantes para filmes de polipropileno bi-orientado (BOPP). Esse tipo de filme é muito utilizado em embalagens de alimentos, como biscoitos, snacks e sorvetes, além de embalagens de cigarros e rótulos de garrafas de refrigerantes.

Com esse lançamento, a companhia propôs a ampliação da oferta de especialidades ao mercado argentino, garantindo maior rentabilidade ao transformador. Os planos da Braskem são ousados. A companhia pretende atingir a liderança do segmento de selante para BOPP em toda a América do Sul, em um período inferior a três anos. Vale ressaltar que a Argentina é o segundo maior mercado da companhia na região.  
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