NORMAS MORALIZAM MERCADO DE FILMES

Produtores de filmes de PVC se mobilizam e pretendem endireitar um mercado cheio de falcatruas e marcado pela informalidade

Márcio Azedo

Quem embala alimentos com Magipack não imagina a revolução arquitetada por produtores dos filmes esticáveis de PVC, nem os problemas que afligem um mercado até agora desorganizado, fustigado por baixos preços, concorrência desleal, e por produtos que nem sempre respeitam requisitos técnicos ou especificações metrológicas. Numa demonstração de maturidade, o setor se articula e promete dar um basta à informalidade e aos participantes desonestos que mancham a imagem dessa indústria.

A produção de filmes de PVC no Brasil começou nos fins da década de 60 com os filmes encolhíveis (ou shrink), e enveredou algum tempo mais tarde pela seara dos filmes esticáveis (ou stretch), não para embalar alimentos, como se faz hoje, mas para a paletização. Atualmente, os filmes esticáveis são comercializados no País por cerca de dez competidores nacionais, mais a
multinacional Goodyear e a Linpac instalada no Uruguai. Dentre os filmes de PVC, os esticáveis ostentam as maiores taxas de crescimento, e a produção nacional rondava 1.700 toneladas ao mês no primeiro semestre de 2003, com estimativas de atingir 2.000 toneladas em outubro.  
Preços baixos impedem que o mercado cresça, diz rosa

Esse mercado está estratificado em três grandes filões. O topo, responsável por 400 a 500 t/mês, é ocupado por empresas que atendem às grandes redes de supermercados, onde predominam as altas exigências de qualidade, preços um pouco melhores, prazos de pagamentos muito longos e lotes muito grandes. Disputam esse segmento as duas multinacionais, Goodyear e Linpac, e as brasileiras Dispafilm e Bandeirantes (esta uma das maiores e mais tradicionais produtoras do Brasil), fornecendo filmes esticáveis a empresas como Carrefour, Extra, Sendas e outras grandes redes.

O segundo filão é o dos filmes para uso doméstico. A Goodyear não concorre nesse segmento, mas já o dominou em seus primórdios, e a marca utilizada então – Magipack – estendeu-se para os filmes esticáveis em rolos de 15 m e 30 m. É um segmento com uma cadeia de suprimento maior, pois engloba convertedores (clientes de transformadores que convertem as bobinas de filmes em rolos), e é disputado por cerca de oito empresas que comercializam algo como 200 t/mês, entre elas Alpes, Braspack, Macrofilm, Propac e novatas como Foxfilm, Fludmack e Dourado Embalagens.

Restam umas 1.400 t/mês, para o terceiro filão, e aqui começam os imbróglios. O mercado de filmes esticáveis, nos últimos dez anos, vem sendo palco de grandes mudanças em virtude da sua popularidade. Segundo o engenheiro Carlos Rosa, superintendente da Propack, uma característica peculiar dos filmes de PVC tornou-os tão famosos: são permeáveis ao oxigênio. Tal propriedade permite embalar ampla gama de alimentos, como carne fresca, frango, peixe, lingüiça e embutidos em geral, sem que o produto se deteriore. Ainda mais, o PVC não pode ser substituído pelo PE, pois a poliolefina tem barreira ao oxigênio. O produto  também é de fácil aplicação. O equipamento usado para embalar bandejas, por exemplo, não passa de simples mesa, desbobinador, fio quente para corte, e placa quente para solda. “É extremamente prático”, diz Rosa.

Segundo ele, essas caraterísticas possibilitaram o aparecimento de pequenos consumidores de filmes esticáveis, como rotisseries, cozinhas industriais, açougues e padarias. “Esse pessoal não compra dez toneladas ao mês, mas uma, duas bobinas mensalmente”, afirma Rosa. Para atender aos novos consumidores, a cadeia de suprimentos agregou um novo elo: os distribuidores, responsáveis pela comercialização de pequenos volumes, incompatíveis com a estrutura comercial e logística dos produtores das bobinas.  

As 1.400 t/mês que completam o mercado global de filmes esticáveis são comercializadas pelos distribuidores. Aos poucos, os produtores de filmes se tornaram reféns da distribuição: a desorganização imperava no mercado, pois as indústrias nunca exigiram nenhum tipo de fidelidade comercial, e a informalidade passou a dar o tom das transações.  

Irregularidades As estimativas variam, mas relatos indicam que até 80% das 1.400 t/mês vendidas pela distribuição estariam na informalidade, isto é, não teriam os devidos impostos recolhidos, tanto pelos distribuidores quanto pelos próprios produtores de filmes.

A comercialização das bobinas também parece não estar sendo feita de forma adequada. Como os produtores de filmes não revelam, tanto nos tubetes dos filmes quanto nas caixas das bobinas, as características metrológicas do produto, eles se tornam coniventes com eventuais distribuidores desonestos. Por exemplo, um gatuno pode comprar uma bobina de 800 m de comprimento, e vendê-la como tendo 1 mil m. Ademais, sem a identificação nas caixas do produtor, o distribuidor impede que seus clientes identifiquem o fabricante, bem como as características do produto e sua qualidade.  

O relato da chefe da divisão de mercadorias pré-medidas do Instituto de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) Maria Manuela Mota dos Santos confirma esses fatos. O instituto é responsável por ações de regulamentação e fiscalização, esta última realizada em nível estadual, em cada estado da federação, por intermédio dos Institutos de Pesos e Medidas (Ipem). “Os Ipems começaram a receber diversas denúncias de filmes em desacordo com as medidas anunciadas. Em um determinado mês o cliente conseguia embalar uma quantidade de bandejas, mas em outro, com o mesmo filme, embalava número menor”, diz Manuela. De maneira geral, afirma ela, 90% das denúncias como essas são feitas pelos próprios concorrentes de um mesmo setor. “No caso dos filmes esticáveis de PVC, as maiores pressões de denúncias vieram dos Ipems de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba”, revelou.  

Afora a insustentabilidade da situação, a longo prazo, há o problema dos preços baixos praticados pela distribuição. Rosa afirma que, em referência ex-impostos, os preços do filme no mercado internacional giram entre US$ 1,8/kg a US$ 2,3/kg (preço fob Brasil). O preço ex-impostos básico do mercado interno, contudo, é de R$ 5,20/kg  (ou 1,81 US$/kg, com dólar a R$ 2,87). “O mercado doméstico está extremamente depreciado”, reclama Rosa.  

A situação vem se agravando e levou grande parte das produtoras de filmes à perda de rentabilidade, liquidez e ao endividamento com seus fornecedores – as petroquímicas. As multinacionais também são prejudicadas, pois apesar de produzirem filme de ótima qualidade, não podem competir em bases tão baixas. A ditadura dos preços baixos impede o crescimento do mercado, tolhe os investimentos e leva à obsolescência do parque produtivo.  

O grande tranco no mercado, entretanto, foi a entrada da Linpac, em 1998.  Quando a empresa concluiu investimento de US$ 20 milhões, para construir fábrica de filmes de PVC com capacidade de 400 t, no Uruguai, país de população quase quatro vezes menor que a da cidade de São Paulo, tornou-se claro o objetivo de exportar para Brasil e Argentina. Além de produzir filme de boa qualidade, a Linpac compete com bons preços, pois tem acesso à resina importada e o certificado de nacionalização uruguaio garante condições de “desigualdade” frente aos fornecedores brasileiros, que, por outro lado, não têm como bater a qualidade da empresa instalada no Uruguai, com exceção da Goodyear.  

Além dos problemas acarretados pela informalidade e pela ditadura dos preços baixos, que entre outros efeitos daninhos acarretam perda de rentabilidade e de capacidade de investimento, favorecendo a entrada de competidores estrangeiros nos segmentos de maior qualidade, há também a questão da adequação ao uso de plastificantes em embalagens de alimentos.  

Apesar da discussão técnica vasta e dos muitos argumentos à favor e contra, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) limita o uso de ftalatos a 5%, em massa. Nem toda a indústria, entretanto, atende à especificação, e as modificações de processo necessárias certamente exigirão aumentos de preço. Os produtores nacionais teriam grande dificuldade para adequarem-se, mas Goodyear e Linpac, com filmes melhores, custos compatíveis e, consequentemente, preços melhores, atendem à especificação.

 

<<< Anterior

Próxima >>>