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NORMAS MORALIZAM MERCADO DE FILMES
Produtores de filmes de PVC se mobilizam e pretendem endireitar um mercado cheio de falcatruas e marcado pela informalidade Márcio Azedo Quem
embala alimentos com Magipack não imagina a revolução arquitetada por
produtores dos filmes esticáveis de PVC, nem os problemas que afligem um
mercado até agora desorganizado, fustigado por baixos preços, concorrência
desleal, e por produtos que nem sempre respeitam requisitos técnicos ou
especificações metrológicas. Numa demonstração de maturidade, o
setor se articula e promete dar um basta à informalidade e aos
participantes desonestos que mancham a imagem dessa indústria.
Esse mercado está estratificado em três grandes filões. O topo, responsável por 400 a 500 t/mês, é ocupado por empresas que atendem às grandes redes de supermercados, onde predominam as altas exigências de qualidade, preços um pouco melhores, prazos de pagamentos muito longos e lotes muito grandes. Disputam esse segmento as duas multinacionais, Goodyear e Linpac, e as brasileiras Dispafilm e Bandeirantes (esta uma das maiores e mais tradicionais produtoras do Brasil), fornecendo filmes esticáveis a empresas como Carrefour, Extra, Sendas e outras grandes redes. O
segundo filão é o dos filmes para uso doméstico. A Goodyear não
concorre nesse segmento, mas já o dominou em seus primórdios, e a marca
utilizada então – Magipack – estendeu-se para os filmes esticáveis
em rolos de 15 m e 30 m. É um segmento com uma cadeia de suprimento
maior, pois engloba convertedores (clientes de transformadores que
convertem as bobinas de filmes em rolos), e é disputado por cerca de oito
empresas que comercializam algo como 200 t/mês, entre elas Alpes,
Braspack, Macrofilm, Propac e novatas como Foxfilm, Fludmack e Dourado
Embalagens. Restam
umas 1.400 t/mês, para o terceiro filão, e aqui começam os imbróglios.
O mercado de filmes esticáveis, nos últimos dez anos, vem sendo palco
de grandes mudanças em virtude da sua popularidade. Segundo o engenheiro
Carlos Rosa, superintendente da Propack, uma característica peculiar dos
filmes de PVC tornou-os tão famosos: são permeáveis ao oxigênio. Tal
propriedade permite embalar ampla gama de alimentos, como carne fresca,
frango, peixe, lingüiça e embutidos em geral, sem que o produto se
deteriore. Ainda mais, o PVC não pode ser substituído pelo PE, pois a
poliolefina tem barreira ao oxigênio. O produto
também é de fácil aplicação. O equipamento usado para embalar
bandejas, por exemplo, não passa de simples mesa, desbobinador, fio
quente para corte, e placa quente para solda. “É extremamente prático”,
diz Rosa. Segundo
ele, essas caraterísticas possibilitaram o aparecimento de pequenos
consumidores de filmes esticáveis, como rotisseries, cozinhas
industriais, açougues e padarias. “Esse pessoal não compra dez
toneladas ao mês, mas uma, duas bobinas mensalmente”, afirma Rosa. Para
atender aos novos consumidores, a cadeia de suprimentos agregou um novo
elo: os distribuidores, responsáveis pela comercialização de pequenos
volumes, incompatíveis com a estrutura comercial e logística dos
produtores das bobinas.
As
1.400 t/mês que completam o mercado global de filmes esticáveis são
comercializadas pelos distribuidores. Aos poucos, os produtores de filmes
se tornaram reféns da distribuição: a desorganização imperava no
mercado, pois as indústrias nunca exigiram nenhum tipo de fidelidade
comercial, e a informalidade passou a dar o tom das transações. Irregularidades
– As
estimativas variam, mas relatos indicam que até 80% das 1.400 t/mês
vendidas pela distribuição estariam na informalidade, isto é, não
teriam os devidos impostos recolhidos, tanto pelos distribuidores quanto
pelos próprios produtores de filmes.
O
relato da chefe da divisão de mercadorias pré-medidas do Instituto de
Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) Maria Manuela
Mota dos Santos confirma esses fatos. O instituto é responsável por ações
de regulamentação e fiscalização, esta última realizada em nível
estadual, em cada estado da federação, por intermédio dos Institutos de
Pesos e Medidas (Ipem). “Os Ipems começaram a receber diversas denúncias
de filmes em desacordo com as medidas anunciadas. Em um determinado mês o
cliente conseguia embalar uma quantidade de bandejas, mas em outro, com o
mesmo filme, embalava número menor”, diz Manuela. De maneira geral,
afirma ela, 90% das denúncias como essas são feitas pelos próprios
concorrentes de um mesmo setor. “No caso dos filmes esticáveis de PVC,
as maiores pressões de denúncias vieram dos Ipems de Pernambuco, Rio
Grande do Norte e Paraíba”, revelou.
Afora
a insustentabilidade da situação, a longo prazo, há o problema dos preços
baixos praticados pela distribuição. Rosa afirma que, em referência ex-impostos,
os preços do filme no mercado internacional giram entre US$ 1,8/kg a US$
2,3/kg (preço fob Brasil). O preço ex-impostos básico do mercado
interno, contudo, é de R$ 5,20/kg (ou
1,81 US$/kg, com dólar a R$ 2,87). “O mercado doméstico está
extremamente depreciado”, reclama Rosa.
A
situação vem se agravando e levou grande parte das produtoras de filmes
à perda de rentabilidade, liquidez e ao endividamento com seus
fornecedores – as petroquímicas. As multinacionais também são
prejudicadas, pois apesar de produzirem filme de ótima qualidade, não
podem competir em bases tão baixas. A ditadura dos preços baixos impede
o crescimento do mercado, tolhe os investimentos e leva à obsolescência
do parque produtivo.
O
grande tranco no mercado, entretanto, foi a entrada da Linpac, em 1998.
Quando a empresa concluiu investimento de US$ 20 milhões, para
construir fábrica de filmes de PVC com capacidade de 400 t, no Uruguai,
país de população quase quatro vezes menor que a da cidade de São
Paulo, tornou-se claro o objetivo de exportar para Brasil e Argentina. Além
de produzir filme de boa qualidade, a Linpac compete com bons preços,
pois tem acesso à resina importada e o certificado de nacionalização
uruguaio garante condições de “desigualdade” frente aos fornecedores
brasileiros, que, por outro lado, não têm como bater a qualidade da
empresa instalada no Uruguai, com exceção da Goodyear.
Além
dos problemas acarretados pela informalidade e pela ditadura dos preços
baixos, que entre outros efeitos daninhos acarretam perda de rentabilidade
e de capacidade de investimento, favorecendo a entrada de competidores
estrangeiros nos segmentos de maior qualidade, há também a questão da
adequação ao uso de plastificantes em embalagens de alimentos.
Apesar
da discussão técnica vasta e dos muitos argumentos à favor e contra, a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) limita o uso de
ftalatos a 5%, em massa. Nem toda a indústria, entretanto, atende à
especificação, e as modificações de processo necessárias certamente
exigirão aumentos de preço. Os produtores nacionais teriam grande
dificuldade para adequarem-se, mas Goodyear e Linpac, com filmes melhores,
custos compatíveis e, consequentemente, preços melhores, atendem à
especificação.
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