Bolha de consumo – A pequena recuperação nas vendas a partir de agosto, intensificada em outubro, perdeu a força em novembro, avalia o diretor comercial da Dacarto Afonso Telles. “Estamos tentando entender o que aconteceu, se foi apenas uma bolha de consumo.” As oscilações do mercado desde o início do ano obrigaram a empresa a dimensionar a produção em função desse movimento. “Operamos com grande número de formulações e segmentos diversos, não dá para pensar em estoques com cerca de mil formulações.”

A contenção nos custos não excluiu investimentos da ordem de US$ 1 milhão aplicados em modernização de equipamentos e automação, higiene, segurança e meio ambiente. De acordo com a diretora superintendente Maria Marquez Rocha, nos últimos três anos a empresa repete a injeção de recursos, já planejados também para 2004.

Cuca Jorge Ela compartilha de opinião igual à de João Matulja em relação à atual capacidade brasileira de produção de compostos de PVC: “Há um excesso na capacidade instalada e nossos projetos são de manter o negócio rentável”, diz, em tom mais ameno.

Antes de formalizar parceria com a Solvay, em 2000, a Dacarto somava capacidade de 150 mil toneladas anuais em suas duas fábricas, em Osasco-SP, a matriz, no Centro Industrial de Aratu, na Bahia. Com a transferência dos equipamentos da antiga unidade da Solvay e outros ajustes, hoje totaliza 180 mil toneladas anuais. Ao todo, a empresa computa cerca de mil formulações ativas, atendendo os mercados de rígidos e flexíveis.
Maria planeja investir mais US$ 1 milhão no próximo ano

Chumbo resiste – Além do encolhimento do mercado, o baixo poder de compra da transformação tem outro efeito colateral, o de protelar a substituição dos estabilizantes com base em metais pesados nas formulações, como chumbo, bário e cádmio. Ambientalmente corretos, produtos alternativos como o cálcio/zinco custam mais.

O diferencial de custo em relação ao chumbo varia conforme o composto. Na composição para tubos pode encarecer em cerca de 3% e ainda há casos em que o estabilizante “verde” encarece o produto final em até 10%, calcula Novais. “Depende da proporção na formulação”, explica. Segundo ele, boa parte do mercado ainda não está disposta a bancar a diferença.

Entre os poucos segmentos que já adotaram aditivos à base de cálcio/zinco o diretor lista a indústria automobilística, a de tubos e conexões, e também os produtores de fios e cabos. “A Cycian produz todas as modalidades – com metais pesados, com cálcio/zinco, com estanho –, de acordo com os pedidos dos clientes”, diz. Para Novais, há novas opções alinhadas às exigências ambientalistas que, além de conferir estabilidade térmica, não afetam a transparência do PVC, como estabilizantes líquidos de cálcio/zinco. “Em geral, a aditivação tende a reduzir a transparência do PVC, e o cálcio/zinco líquido não afeta essa propriedade”, informa. Com variações de fórmulas, os estabilizantes à base de cálcio/zinco podem ser usados nas composições de PVC rígido ou flexível.

Para João Matulja, o movimento mundial direcionado para os estabilizantes com cálcio/zinco é forte, e o mercado brasileiro começa a acompanhar essa tendência, com destaque para as indústrias de fios e cabos, calçados e mangueiras. “Nesse aspecto, a Ramon teve um desenvolvimento notável, principalmente em fios e cabos”, afirma.

Mesmo assim, ele não acredita que os estabilizantes com metais pesados deixem de ser usados tão cedo. “Esses sistemas devem ser usados de modo racional, com equilíbrio, respeitando os princípios éticos e do meio ambiente”, diz. A forma racional, no seu entender, significa reduzir a concentração do aditivo, bem como empregá-lo de modo responsável. Na opinião dele, as alternativas disponíveis ainda não oferecem eficácia técnica e equivalência econômica equilibradas.

“Em alguns tipos de compostos já é possível a substituição por sistemas cálcio/zinco, mas há mercados que ainda não comportam essa mudança”, diz. Ainda assim, para Matulja, o mercado brasileiro está bem adiantado no caminho da mudança, em relação a outros países, e o Instituto do PVC ocupa posição de destaque nesse movimento, conscientizando a indústria de sua responsabilidade com o meio ambiente. “A cadeia do PVC está consciente de que os cuidados com o meio ambiente são fatores de sucesso, e pessoas jovens em postos chaves nas empresas têm essa visão e são o motivo de colocar o País no posto adiantado”, acredita.

Segundo o gerente de relações institucionais da Solvay Indupa Édison Carlos, as pesquisas internacionais não desabonam o uso do chumbo ou do bário como estabilizantes do PVC, mas mesmo assim muitas empresas estão aderindo à composição de cálcio/zinco devido ao ganho de produtividade e melhora no desempenho do produto.

Cuca Jorge

Almeida: estabilizante cálcio/zinco exige maiores cuidados

Cuidados no processo – Ecologia à parte, os estabilizantes à base de chumbo ainda são considerados os melhores para o PVC, na opinião do diretor técnico da Dacarto Amilton Dal Poz Almeida. Segundo ele, os compostos elaborados com aditivos com cálcio/zinco são mais sensíveis e exigem maiores cuidados durante o processamento. Isso porque as janelas de processo ficam mais estreitas em relação aos compostos aditivados com estabilizantes com base no chumbo.

Segundo Almeida, a solicitação por cálcio/zinco avançou bastante nos últimos três anos, mas mesmo assim o mercado continua muito pequeno em volume. Há três anos, compostos com esses estabilizantes representavam quase zero. Quase, porque a indústria médico-hospitalar sempre usou produtos isentos de metais pesados. O segmento médico-hospitalar, aliás, requer também ambiente produtivo diferenciado. A elaboração de compostos acontece em meio atóxico e com pressão positiva para impedir a entrada de substâncias estranhas no processo. Desconsiderando esse segmento, hoje o volume de compostos com cálcio/zinco ainda é inferior a 5% do total da produção. “O mercado automobilístico exige esses produtos, o de fios e cabos e o eletroeletrônico estão começando a adotar”, diz Almeida.

O desenvolvimento é, na verdade, um caminho de mão dupla. Tanto a indústria transformadora busca produtos alternativos, como os próprios fabricantes de compostos tomam a iniciativa de promover a substituição. É assim na Dacarto, que desenvolve formulações na medida das necessidades do cliente.

Polêmica dos ftalatos – O conhecido DOP, ou dioctilftalato, é o plastificante mais usado no mundo e ponto. Só a Europa Ocidental consome mais de um milhão de toneladas anuais de plastificantes, a maioria ftalatos, com destaque para o DOP, com cerca de metade da demanda, além do DINP (diisononilftalato) e DIDP (diisodecilftalato). No mercado brasileiro, o DOP equivale a cerca de 60% do mercado de plastificantes, que ainda inclui os outros ftalatos.

Por mais acusados pelas organizações ambientalistas de serem tóxicos e provocar câncer, essa linha de plastificantes persiste imune às críticas por falta de fundamento científico. Trinta anos se passaram e mais de 100 milhões de dólares foram gastos em pesquisas para buscar qualquer indício de veracidade nas acusações, mas nada ficou comprovado em definitivo.

“Devemos separar o que é alegação do que é fato, e o fato é que várias dessas alegações de entidades ambientalistas já foram amplamente desmentidas pela comunidade científica; não é o caso, portanto, de procurar alternativas baseando-se em alegações não suportadas tecnicamente”, defende Édison Carlos, da Solvay.

Vale lembrar que em fevereiro de 2000 a Agência Internacional para Pesquisa de Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS) e uma das maiores autoridades mundiais no assunto, retirou o DOP da lista de possíveis carcinogênicos, em decisão tomada por 28 especialistas de 12 países, em reunião na França.

Segundo o Instituto do PVC, outro estudo concluído recentemente pela União Européia isentou o diisononil ftalato (DINP) de oferecer qualquer risco aos seres humanos e ao meio ambiente. Esses resultados ainda reforçam outras pesquisas realizadas em julho de 2001 por cientistas do Consumer Product Safety Comission (CPSC), dos Estados Unidos, que também concluíram que o DINP é seguro e não representa riscos à saúde.

“O assunto dos ftalatos é tratado mais com a emoção do que com a razão”, garante Matulja, da Ramon. Na falta de evidências contra, mas com os ambientalistas em cima, a indústria procura manipular esses produtos com cuidado, tratar os resíduos e manter-se atenta às informações da comunidade científica, diz o gerente.

“Não percebo movimentos para substituição dos ftalatos, como é o caso dos estabilizantes”, diz Almeida, da Dacarto, que conta com intercâmbio tecnológico com as outras quatro fábricas de compostos da Solvay na Europa (Espanha, França, Bélgica e Itália). A empresa adota todos os tipos de plastificantes disponíveis, de acordo com as características especificadas pela aplicação do produto final, mas não em função de substituir os ftalatos.


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